Carta de Berlim

Julian Gough*

Fábio Schiavartchel/Folha Imagem - 16.nov.2004 

Estou caminhando pela Linien Strasse, uma rua bem residencial na ex-Berlim Oriental, a caminho do trabalho. Diminuo o ritmo da caminhada para observar um novo grafite. Um Banksy! E 16 novos trabalhos assinados por Calyba, ou Kalyba, um grafiteiro local tão incompetente que não consegue escrever corretamente o próprio nome.

Ah, uma bela cadeira na calçada. Dou meia-volta e a levo para casa. Depois, continuo a minha caminhada... Ah, uma pequena cama elástica. Não temos uma cama elástica. Levo-a para casa. Sem pressa. É um lindo dia ensolarado. Não há insetos. Berlim realmente não tem insetos. Não faço idéia do porquê.

Eu na verdade não conheço Berlim. Ninguém conhece, porque não existe tal lugar. O que existe é apenas um aglomerado apertado de vilas urbanas que não têm nada em comum, nem mesmo a história. Algumas delas eram comunistas até bem recentemente. Algumas eram capitalistas. Mas atualmente pode-se dizer que não são nem uma coisa nem outra. O comunismo não funcionou, e o capitalismo também parece andar bem abalado por aqui, com um índice de desemprego de 16% e uma enorme dívida municipal de 60 bilhões de euros. E a população obviamente não tem pressa para tentar novamente o nacionalismo e o socialismo. Berlim tem a imagem impressionante de uma cidade que deseja que as grandes idéias a deixem em paz por algum tempo.

Aqui em Mitte, as varandas estão despencando nos apartamentos da era DDR (Deutsche Demokratische Republik, a antiga República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental). A DDR não tinha cimento suficiente, de forma que utilizava uma quantidade maior de areia no concreto. Berlim tem muita areia. Berlim construiu uma cidade inteira sobre areia, desafiando o conselho bíblico. Talvez isto explique muita coisa.

Berlim! Cidade de mulheres confiantes e homens assustados! Berlim! Cidade de arquitetos deprimidos e de anarquistas felizes!

Depois de 1989 eles construíram para o futuro, e o futuro não chegou. Quem chegou foram os artistas. Centenas de milhares de artistas. Uma praga de artistas. De todos os lugares. O mundo terceirizou a sua produção artística em Berlim. Berlim é para a má arte moderna o que a China é para os gatos de plástico que acenam com uma pata para cima e para baixo em sinal de sorte.

Os artistas necessitam de três coisas: apartamentos, estúdios e cerveja baratos. Diversas cidades pequenas e subúrbios terrivelmente distantes oferecem esses três ingredientes. Mas os artistas, notoriamente irrealistas, também querem morar no coração de uma grande cidade que conte com um universo gay próspero, com um ótimo transporte público, com excelentes clubes noturnos e que transmita uma sensação algo nervosa de perigo, sem ser na verdade perigosa.

Berlim é atualmente a única cidade do mundo na qual cada assento é numerado. É uma cidade construída para 4,5 milhões de habitantes, mas que tem apenas 3,5 milhões. Nela há 100 mil apartamentos vazios, e mais edifícios industriais vazios do que cheios. A alguns minutos do museu de arte contemporânea de Berlim, o Hamburger Bahnhof, o artista Thomas Demand e o astro islandês da arte Olafur Eliasson dividem uma fábrica do tamanho da Lua. Pelo mesmo preço em Manhattan, perto do Museu de Arte Moderna, eles só conseguiriam pagar alguém para guardar os seus sapatos. Alguns dos seus sapatos.

Mas, como gay berlinense, Klaus Wowereit, o prefeito que gosta da vida noturna, afirma: "Berlin ist arm, aber sexy". O "pobre, mas sexy" é o "I Love NY" de Berlim: a inscrição está nas camisetas. Ela irrita os moradores locais, e expressa uma grande verdade em uma pequena sentença.

O meu verdadeiro amor e eu fomos despejados da nossa casa em Galway, na Irlanda, por não pagarmos o aluguel (um escritor e uma artista tentando pagar um aluguel no centro da cidade no período de prosperidade Celtic Tiger! Entendem o que quero dizer? Desvinculem-se da realidade). O fluxo da história, expresso economicamente, nos empurrou para Berlim, como se fosse uma mão gentil pressionando as nossas costas. As empresas aéreas que oferecem passagens baratas reduziram aquela fricção que mantém os artistas parados no mesmo lugar. Nó emigramos pela Ryanair, por um euro. Todos os nossos bens, reduzidos a limite de bagagem da Ryanair. E os apartamentos de Berlim não têm sequer lâmpadas quando você muda-se para eles.

O lado positivo é que Berlim conta com uma economia de doação. Todos simplesmente colocam os seus objetos antigos na rua. Se você quiser recomeçar a sua vida de graça, da estaca zero, faça isso em Berlim. A cidade é um rio mágico de bugigangas velhas que nunca param de circular.

Há lojas em Berlim Oriental. De certa forma. Mas elas só vendem bolsas de um único fabricante, ou apenas bicicletas e carregadores de telefone, ou somente discos de vinil de segunda mão de uma certa ilha do Caribe.

A velha piada comunista era: "Nós fingimos que trabalhamos e eles fingem que nos pagam". Ela transformou-se na nova piada capitalista: "Nós fingimos que administramos uma loja e vocês fingem que compram alguma coisa". Mas metade das lojas se constitui em galerias de arte. É como se fosse a idéia que uma criança pequena faria a respeito de uma economia equilibrada.

Enquanto caminho pela Gormann Strasse, uma janela se abre e Rasmus Hansen põe a cabeça de fora e diz olá. Ele gerencia uma galeria de arte do seu quarto de dormir. Eu continuo andando, viro na Tor Strasse, passo por um ex-açougue, o Fleischerei, que tem freezers desligados cheios de obras de arte. Livros artesanais, camisetas artísticas e arte de verdade. Os caras sentam-se nos degraus da entrada, com uma expressão triste. O prédio tem um novo proprietário. Acima de nós há um andaime, envolto em plástico e com uma propaganda da Nike.

Na esquina, a sex shop acabou de fechar as portas. A Brunnen Strasse está sendo reformada tão rapidamente que dá para ver o processo acontecendo em tempo real. As galerias de arte se espalham pela Brunnen Strasse como se fossem fungos em um sapato molhado nos trópicos. As galerias de Nova York estão abrindo filiais. Berlim é por um breve período o centro do universo da arte ocidental. Isso não durará muito. A ascensão, a queda. Tudo se movimenta muito rapidamente.

Passo por dois andaimes. Estão desmontando a velha loja de ferramentas para fazer uma galeria. O jovem artista escocês Kevin Harman está de pé sobre um dos andaimes, fazendo uma escultura com o entulho da reforma. Sem permissão, sem trabalhar para uma galeria, apenas pelo prazer de fazer algo que não seja por dinheiro. Amanhã os construtores a tirarão dali. "Está ficando boa, Kev", digo eu. Subo no outro andaime e começo a fazer o mesmo.

Mais um dia no escritório, na nova Berlim.

*Julian Gough é autor do livro " Jude: Level 1". Os artistas do mundo mudaram-se para Berlim. A cidade conta com estúdios, apartamentos e cerveja baratos. Ela é pobre, mas sexy. E dá para conseguir de graça uma cama elástica no caminho para o trabalho. UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos