Uma ditadura de idiotas

James Crabtree*

Reuters - 20.jun.2007 

Gordon Brown recentemente descreveu o MySpace, site da Web no quais adolescentes escrevem sobre si mesmos, como o maior clube de jovens do Reino Unido. Mark Zuckerberg, o fundador de 23 anos do Facebook, que consiste em perfis do cotidiano de seus usuários, recebeu uma oferta de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 2 bilhões) por sua empresa no ano passado. E neste julho, o YouTube, que abriga milhões de vídeos amadores banais, terá mais acessos no Reino Unido do que a BBC Online. Justo quando parecia que tínhamos emergido da bolha da Internet, a revolução tecnológica voltou. Bem-vindo à Web 2.0.

A expressão "Web 2.0" data de uma famosa sessão de brainstorm no Vale do Silício em 2004 liderada por Tim O'Reilly, um empresário cultuado da Costa Oeste. Os participantes, observando os novos tipos de organização que emergiam dos destroços do desastre das pontocom, começaram a falar de uma segunda fase da expansão da Internet. Mais tarde, O'Reilly tentou deixar claro ao que se referia. A Web 2.0, entre outras coisas, "confia nos usuários como co-desenvolvedores", enquanto "equilibra a grande demanda com o auto-serviço". Em outras palavras, a primeira geração de empresas da Internet tendiam a vender coisas, enquanto as da Web 2.0 tendem a ajudar as pessoas a criarem e compartilharem idéias e informação.

Entra Andrew Keen, empresário de Internet britânico que mora na Califórnia e cujo novo livro, "The Cult of the Amateur" (O Culto do Amador), critica ferozmente a Web 2.0 e seus acólitos. Interessante notar que foi O'Reilly que originalmente inspirou a abjuração de Keen. A cada ano, O'Reilly dirige um encontro exclusivo, chamado "FOO Camp" (das iniciais em inglês de amigos de O'Reilly). Keen foi convidado um ano e descreve o evento: "Uma viagem de acampamento de dois dias com duas centenas de utopistas do Vale do Silício. Com um saco de dormir em punho e mochila nas costas, marchei até o acampamento; dois dias depois, sentindo enjôo, saí de lá descrente".

Keen não está sozinho em sua falta de confiança na turma da Web 2.0. Em um ensaio muito discutido publicado no site Edge, no ano passado, o ativista digital Jaron Lanier argumentou contra o "maoísmo digital" e o "aumento alarmante da falácia do coletivo infalível" na Internet. E Andrew Orlowski, outro jornalista britânico que mora no Vale do Silício, fez de sua coluna no site de notícias em tecnologia "The Register" uma cruzada pessoal contra pessoas como O'Reilly e o fundador da Wikipedia, Jimmy Wales.

Então, será que estamos no início de uma segunda reação às pontocom? Talvez. Mas mesmo que tal movimento exista, Keen é um líder fraco. Suas muitas reclamações contra a Internet incluem as habituais histórias horríveis de obscenidade, roubo de identidade, jogatina e besteiras, mas ele se concentra desproporcionalmente nesses piores excessos dos entusiastas digitais.

Já Keen tem duas idéias que devem ser levadas a sério. Uma envolve os "amadores" do título. Ele cita Neil Postman, cujo famoso livro "Amusing Ourselves to Death" (Divertindo-nos até a Morte, 1985) pergunta qual futuro tecnológico deve nos assustar mais: a visão de Orwell de uma sociedade de vigilância ou o temor de Huxley da docilidade universal? Keen preocupa-se com ambos, mas ainda mais com um terceiro cenário: um futuro no qual todos participam on-line e poucos tem algo a dizer. Ele chama de "ditadura de idiotas".

A Wikipedia é o melhor exemplo desse amadorismo e um bicho assustador comum dos críticos da Web 2.0. O ensaio sobre o "maoísmo digital" de Lanier, por exemplo, começa com uma reclamação sobre sua própria resenha (que diz erroneamente que era diretor de cinema). Assim como Keen teme a marginalização do especialista, Lanier acha que a crença no poder da "mente de colméia" coletiva destruirá tanto a autoria quanto a responsabilidade. Isso, por sua vez, danificará seriamente nossa compreensão do conhecimento e da verdade.

A segunda idéia de Keen é que esses mesmos amadores da Internet estão enfraquecendo o respeito à esfera pública. Apesar de não falar dessa forma, seu argumento é uma visão pós-milênio da velha defesa da mídia como serviço público. Em meio a críticas aos blogs, sua verdadeira admiração é por heróis da era de ouro do jornalismo - Woodward e Bernstein, Edward Murrow, Walter Cronkite e assim por diante - e as instituições como CBS, New York Times e BBC que os empregavam.

Ainda assim, seus argumentos são furados. A Wikipedia é uma maravilha moderna: uma enciclopédia gigante, gratuita, geralmente com altos níveis de precisão, compilada inteiramente por voluntários. Assim é com outros sites montados por dados agregados pelos usuários. Sim, o amadorismo online tem seus limites. Mas parece falta de educação alegar que um conjunto de sites da Web geralmente gratuitos e úteis podem ser a causa de tantos males.

O argumento da esfera pública de Keen tem mais mérito e ele está certo em culpar a Internet por minar os modelos comerciais dos jornais. Mas culpar a Wikipedia e o YouTube especificamente, em vez da ampla mudança tecnológica em geral, não faz sentido. E culpar a Web 2.0 pela queda nos padrões jornalísticos sem também discutir os tablóides e a televisão comercial é perverso.

Dada a escolha, a maior parte das pessoas trocaria o acesso à mídia de hoje por qualquer outro da história? Seria pouco razoável argumentar que a maior parte das pessoas hesitaria em entregar seu e-mail, diminuir seu acesso à Internet e voltar a uma era de jornalões impressos e quatro canais de televisão. Não que a mídia de hoje seja perfeita, mas a questão é como guardar as melhores partes do antigo mundo para não serem minadas por YouTube, blogs e o resto.

Um blogueiro, citado recentemente pelo blog da Irlanda do Norte Slugger O'Toole, forneceu uma atualização clara de Marx para identificar o credo do amador online que Keen tanto menospreza: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo; o ponto é reclamar sobre ele". A defesa de Keen de uma concepção de serviço público da mídia é válida, apesar de antiquada. Mas sua análise contrária mal direcionada o torna mais similar aos amadores online do que gostaríamos de admitir.

* James Crabtree trabalha no governo do Reino Unido. Críticos de sites da Web como Wikipedia e MySpace alegam que estes estão enfraquecendo a esfera pública. Mas alguém realmente gostaria de voltar no tempo? Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos