O fracasso da classe média indiana

Chakravarthi Ram-Prasad*

A classe média indiana de 200 milhões de pessoas é o grupo econômico mais dinâmico do planeta. No entanto, está pouco interessada em política ou em reformas sociais. Até que comece a se engajar politicamente, a Índia sofrerá de uma modernização desequilibrada.

Enquanto a Índia celebra o 60º aniversário de sua independência do Reino Unido, há um otimismo crescente e, ao mesmo tempo, um desespero devastador em relação ao seu futuro. Como diz o ditado, tudo e seu oposto são verdade na Índia.

Os sete institutos de tecnologia da Índia estão no alto das pesquisas mundiais, e as ofertas de emprego aos graduados do Instituto Indiano de Administração são comparáveis aos que saem das famosas escolas de administração dos EUA; ainda assim, uma terço do país ainda é analfabeto. Trezentos milhões de indianos vivem com menos de US$ 1 por dia - um quarto dos extremamente pobres do mundo. Ainda assim, a Índia tem o maior número de bilionários fora dos EUA e da Rússia.

O sucesso histórico levou a Índia e a China aos seus atuais desafios demográficos. Suas populações cresceram às dezenas de milhões porque foram tão economicamente avançadas no início do primeiro milênio -quando até o império romano ficou para trás. No nascimento da modernidade européia, quando a tecnologia forneceu uma alavanca para populações menores melhorarem suas vidas, a Índia e a China tinham pessoas demais para isso.

O legado desse sucesso inicial sublinha tanto a escala da Índia quanto a polaridade de opiniões sobre o que é o país. A Índia está perto da primeira ou da última posição na maior parte das tabelas econômicas internacionais.

A Índia poderia ter sido muitas outras coisas - um país ainda maior, não dividido, mas também poderia ter sido menor, ou apenas um conjunto de formações ancestrais. Apenas o Império Britânico e a resolução dos líderes da luta pela independência garantiram que a idéia antiga, mas ainda assim amorfa, se tornasse uma única nação.

Sessenta anos depois, há um Estado indiano funcional, que é um poder crescente no mundo, apesar de suas enormes variações. Entretanto, há também o Estado indiano ineficiente, que não consegue cumprir o propósito social que a idéia de cidadania deveria fornecer.

Na classe média, há ainda um compromisso com uma Índia que tem um papel decisivo no cenário mundial - mas agora, em vez da solidariedade "não alinhada" e da história antiga, é por meio de softwares e finanças. Dez anos após a comoção causada pelos testes nucleares, a classe média acha natural o novo status da Índia; simplesmente assume que a Índia deve ser tratada como igual aos EUA e ao resto, e volta-se para as conversas de oportunidades econômicas.

Esse compromisso com sua própria idéia de Índia e seu papel central em seu crescimento econômico torna a classe média segura de si mesma. Mas, ao mesmo tempo, seu sentido de cidadania é fraco: como um todo, ela não adota um sentido de solidariedade aos pobres; freqüentemente não admite o papel do Estado em seu próprio crescimento ou sua capacidade de resolver qualquer um dos problemas do país; e, em geral, é politicamente apática.

O que explica essa introversão? A classe média, em todos os estágios de desenvolvimento, seja na Europa do século 19 ou hoje, não acredita nos que não cresceram com ela. No entanto, em sociedades mais homogêneas, os mais abastados tendem a cuidar mais dos que estão em pior situação. Sociedades altamente diversas, como a Índia, encontram mais dificuldades em institucionalizar tal sentimento fraternal.

A chave para a diversidade da sociedade indiana é o sistema de "jati" -casamentos entre grupos co-sangüíneos com ocupações hereditárias. Esses grupos, no entanto, também são colocados dentro da hierarquia antiga da "varna", ou sistema de casta - a divisão da sociedade em cinco camadas em termos de pureza ritual - sacerdotes, guerreiros, mercadores, trabalhadores e os que estão além da possibilidade de pureza e portanto intocáveis.

Durante os séculos, houve muitos esforços para estender um sentido de humanidade comum a todas as castas. O sistema de castas também permitiu um pluralismo sem paralelos na crença e na prática religiosa; de acordo com a lógica da pureza, o sacerdote brâmane não tem controle sobre as práticas além de sua jurisdição, o que permite uma diversidade emocionante de templos, festivais e deidades. Ainda assim, o conceito de "varna", que as pessoas são intrinsecamente puras ou impuras, enfraqueceu a noção de cidadania no subcontinente. Enquanto a constituição indiana de 1950 procurou pôr fim a tal divisão (que os britânicos haviam explorado), a noção de casta ainda leva à violência rural e à separação de grupos privilegiados.

Um problema no esforço de se entender a classe média indiana é que, apesar de estar claramente relacionada às castas, não está claro como: um desenvolvimento importante na Índia nos últimos 60 anos foi a dissociação da casta de sua base ocupacional e sua reconstituição como forma de identidade política.

Nas últimas décadas, as elites de castas superiores acostumaram-se a ver pessoas abaixo delas na hierarquia adquirindo poder econômico, especialmente desde a liberalização, no início dos anos 90. A nova classe média argumenta que, como não teve nenhuma ajuda das elites mais antigas, seu sucesso deveu-se a ela mesma, e deve servir de modelo para os pobres.

O ceticismo da classe média sobre a capacidade do Estado é compreensível, mas também está na raiz dos problemas da Índia. A premissa de muitos na classe média de que não devem nada ao Estado é simplesmente errada. A Índia cresceu economicamente em parte como resultado de um enorme investimento no ensino superior por sucessivos governos, desde Nehru.

Apesar de seu sucesso no ensino superior - e crucialmente, na Revolução Verde de produção de alimentos nos anos 60 - o Estado indiano é espetacularmente ineficiente. Muitos turistas, ouvindo falar na "Chindia" e no crescimento da China e da Índia, ficam chocados com a aparência desorganizada de tudo. A Índia não pode nem sonhar em sediar uma Olimpíada no futuro próximo, enquanto a China se atém rigorosamente ao seu cronograma de 2008. Um Estado mais eficiente - talvez menor - requer engajamento político dedicado dos que dirigem sua economia globalizadora.

A apatia política da classe média se deve em parte às diferenças na forma como a Índia do século 21 e Europa Ocidental dos séculos 18 e 19 se desenvolveram. Enquanto o crescimento da cultura burguesa ocidental do livre pensar precedeu o voto universal, a democracia indiana tem quase meio século a mais do que o nascimento de uma classe média vibrante. Então, lutar por poder político foi um elemento crucial para a cultura burguesia ocidental, na Índia os direitos políticos já eram tidos como certos e agora são negligenciados pelos que vêem sua prosperidade como resultado de seus próprios recursos econômicos.

Para a classe média, política é uma preocupação intelectual, não um imperativo ético. Freqüentemente, os mais politicamente ativos na Índia são os pobres não miseráveis: as pessoas que ganham entre US$ 1 e US$ 5 por dia (entre R$ 2 e R$ 10). São elas que tendem a dar maiorias aos partidos políticos. Isso porque suas vidas serão as mais provavelmente tansformadas pela ação do Estado.

Os partidos políticos que se concentram na reforma social - inclusive a aliança liderada pelo Congresso que venceu a eleição geral de 2004 - estão ganhando poder em muitas partes do país. O problema é que as instituições democráticas da Índia são desenvolvidas suficientemente para que os políticos fiquem tentados a se fixarem nelas, em vez de radicalmente transformá-las. Então, temos que esperar e ver se o sucesso eleitoral dos que estão fora da classe média pode tornar o Estado mais reativo às suas necessidades.

Apesar de todo o potencial para transformação que um otimista encontre na atividade política dos pobres, o que vai importar mais nas próximas décadas provavelmente ainda será o intenso ritmo do crescimento econômico.

O Estado democrático indiano não poderia ter imposto uma estratégia de controle populacional, em contraste com a eficiência clínica da China comunista. Mas agora, está claro que a China vai ficar velha muito antes de ficar rica, enquanto a jovem população indiana apreciará muito mais do crescimento sustentado deste século.

A questão é se as novas formas de atividade política e econômica combinarão para fazer do desenvolvimento menos uma questão de sorte com conseqüências não intencionais e mais uma questão de urgência moral e estratégia. Apesar de um exército de economistas apaixonados pelo desenvolvimento, isso ainda não aconteceu.

*Chakravarthi Ram-Prasad é professor de religião comparativa e filosofia na Universidade Lancaster, na Inglaterra. Deborah Weinberg

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