Iraque: Missão cumprida

Bartle Bull*

A questão sobre o que se fazer atualmente em relação ao Iraque precisa ser separada da decisão de derrubar Saddam Hussein quatro anos e meio atrás. Tal decisão passou a ser um assunto para os historiadores. Segundo qualquer padrão ético normal, o atual projeto da coalizão no Iraque é justo. O Reino Unido, os Estados Unidos e os outros aliados do Iraque estão lá como convidados de um governo eleito que recebeu um enorme mandato dos eleitores iraquianos de acordo com uma constituição legítima. A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o papel da coalizão em maio de 2003, e desde então essa autorização tem sido renovada anualmente, sendo que a ocasião mais recente foi em agosto último.

Enquanto isso, o outro lado nesta guerra é composto de alguns dos piores indivíduos da política global: baathistas, os nazistas do Oriente Médio; fundamentalistas sunitas, os principais oponentes do progresso na luta do islamismo com a modernidade; e o governo do Irã. Eticamente, é difícil encontrar uma causa mais transparente do que esta.

A grande questão para que se decida pela continuidade da luta no Iraque não diz respeito à moralidade e ao auto-interesse de apoiar uma esforçada democracia que é também um dos países mais importantes do mundo. A questão é saber se é possível ganhar esta guerra e se o Ocidente pode contribuir para que haja uma vitória.

Thaier al-Sudani/Reuters - 27.set.2007 
Homem observa casa destruída após explosão de carro-bomba em Bagdá

A questão fica muito mais fácil de ser respondida devido ao fato de, três anos e meio após o início da insurgência, a maioria das grandes questões no Iraque ter sido resolvida. Além do mais, elas foram resolvidas de maneiras que, em sua maioria, estão mais próximas dos cenários positivos imaginados no início do projeto.

O país continua intacto. Ele adotou as urnas. Criou uma constituição justa e popular. Evitou uma guerra civil generalizada. Não caiu sob o controle do Irã. Pôs um fim ao genocídio dos curdos e dos árabes das regiões pantanosas do sul. Acabou com o apartheid anti-xiita. Rejeitou a vingança maciça contra os sunitas. Conforme ficou demonstrado na grande eleição nacional de 2005 e nas ruidosas comemorações do sucesso da seleção iraquiana de futebol em julho, o Iraque sobreviveu à era Saddam Hussein com um senso de unidade nacional. Até mesmo os curdos - cujo compromisso relutante com a autonomia, e não com a independência total, não corre o risco de mudar - celebraram.

A situação no Iraque não provocou um apocalipse sectarista em toda a região. O país deixou de ser uma ameaça para o mundo ou para a região. Os únicos vizinhos ameaçados pelo status iraquiano de hoje são os líderes em Damasco, Riad e Teerã.

A missão no Iraque pode estar prestes a ser cumprida, mas é evidente que ela tem sido imperfeita e cara.

Compreender esta cara vitória é uma questão de entender a violência remanescente. Existem quatro fontes principais de violência política no Iraque desde à invasão. A "insurgência", que significa a violência sunita, composta de três destes quatro elementos: baathistas, fundamentalistas religiosos sunitas (aos quais chamaremos de wahaabis, devido ao mais importante dos seus parentescos próximos) e as tribos sunitas (a quarta fonte é a violência xiita, sobre a qual falaremos mais abaixo).

O baathismo, espelhado desde o seu nascimento, na década de 1940, no nacional socialismo alemão, é um movimento secular. O wahhabismo, lutando por um retorno aos dias puros do islamismo no século sete, é o oposto. Desde o início era óbvio que essas duas tendências, que atualmente lutam entre si em grande parte do Iraque sunita, não se entenderiam para sempre.

E era igualmente evidente que nenhuma das duas seria capaz de obter uma vitória na sua batalha pelo Iraque. Os baathistas desejam o retorno dos privilégios dos quais desfrutaram sob Saddam. Os wahhabis anelam por um retorno aos dias do profeta. Nenhuma das duas coisas acontecerá; para aquela parcela composta de 85% dos habitantes do país que não são árabes sunitas, essas formas de totalitarismo árabe sunitas seriam o pior começo possível. O poder sunita foi esfacelado pela invasão: o Iraque, finalmente reconhecendo um grupo três vezes mais numeroso do que o dos sunitas, tornou-se um país xiita; Bagdá, a capital herdeira do islamismo, é atualmente uma cidade xiita pela primeira vez desde 1534.

Os insurgentes sunitas reconheceram que faz pouco sentido combater um inimigo forte e cada vez mais hábil - os Estados Unidos - que está do lado certo do destino histórico do Iraque e que - ao contrário dos britânicos em Basra - responde aos percalços se empenhando com mais afinco. E isso faz ainda menos sentido quando se é uma minoria desacreditada, como os sunitas após 35 anos de baathismo seguido por uma insurgência desastrosa, e o inimigo é de fato o principal garantidor de um lugar justo para eles na mesa de negociação nacional.

Os sunitas jogaram os dados, desfecharam a batalha de Bagdá, e perderam. Agora estão suplicando por um acordo com o Iraque xiita.

Qual é a evidência disso? Neste verão, o gabinete do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, abordou ex-soldados e ex-oficiais baathistas e recebeu 48,6 mil pedidos de emprego nas forças armadas e policiais. Al-Maliki alistou 5.000 desses indivíduos, providenciou empregos civis para outros 7.000 e forneceu uma pensão integral ao restante.

Enquanto isso, lideranças baathistas disseram à revista "Time" que querem fazer parte do governo; a Brigada Revolução 1920 - um grupo insurgente sunita - estaria patrulhando as ruas de Diyala com a Terceira Divisão de Infantaria, e o Exército Islâmico Sunita no Iraque está anunciando à Al Jazeera que poderá negociar com os norte-americanos. Desde o verão, as notícias vindas da frente sunita têm apontado consistentemente para essa direção inevitável.

Já a história xiita é diferente. Tem havido duas amplas tendências na política xiita no Iraque: o campo pró-iraniano e o campo nacionalista. O Iraque possui dois grandes e tradicionais partidos xiitas pró-iranianos - o Partido Dawa, de al-Maliki, e o Conselho Islâmico Iraquiano Supremo (o ex-SCIRI). Eles combateram Saddam do exílio e passaram os anos difíceis no Irã. Contrário a estes dois partidos é o movimento al-Sadr, que - sob a liderança do pai de Muqtada al-Sadr, Mohammad Sadeq, morto pelas forças repressivas de Saddam em 1999 - combateu Saddam Hussein dentro do Iraque, e manteve intacto o sentimento iraquiano nacionalista e anti-iraniano. Desses grupos, somente o de al-Sadr mobilizou-se para lutar contra os norte-americanos.

O anúncio por parte de Muqtada al-Sadr de um cessar-fogo unilateral de seis meses em 29 de agosto último foi significante, mas não devido àqueles motivos mais aparentes. Al-Sadr na verdade deixou de combater os norte-americanos três anos atrás. Ele insurgiu-se duas vezes contra os Estados Unidos em 2004, mas desde o final da sua segunda insurreição, o seu Exército Mahdi passou a concentrar a sua violência contra os wahhabis e os baathistas, entrando também em confrontos freqüentes com outras facções xiitas.

O movimento de al-Sadr é fragmentado e imaturo. Os seus grupos periféricos menos legítimos têm atuado ativamente na "limpeza étnica" sectária. Muitos que possuem vínculos com o seu movimento trabalham com freqüência fora do controle do líder. Algumas dessas tendências continuam a direcionar a violência contra a coalizão, mas isso é algo insignificante quando comparado à força de uma verdadeira resistência sadrista, conforme pôde comprovar qualquer pessoa que se encontrava em Najaf ou na Cidade Sadr em 2004. Desde o segundo trimestre deste ano, as tropas norte-americanas encontram-se confortavelmente estacionadas na Cidade Sadr - a gigantesca favela de Bagdá que é a base de poder dos sadristas.

Em termos de política nacional, não restou nada pelo qual lutar. Os únicos iraquianos que ainda lutam por algo mais do que vantagens locais para facções específicas e domínio criminoso são os atores irracionais: os sunitas fundamentalistas, que consistem em 1.000 ou 2.000 combatentes, em sua maioria estrangeiros. Assim como outros ataques wahhabis contra o Iraque em 1805 e 1925, o atual terminará em um período suficientemente curto.

À medida que o Estado iraquiano em processo de amadurecimento assume o controle sobre as suas fronteiras, e os vizinhos sunitas reconhecem que é preciso negociar com um Iraque xiita, e o fluxo de combatentes estrangeiros e homens-bomba suicidas da Síria para o Iraque começará a diminuir. Mesmo hoje, apesar de todo o derramamento de sangue que causa, essa violência pouco afeta o cenário maior: homens-bomba explodem-se, dezenas de civis morrem, os xiitas em sua maioria se contêm e a vida dura no Iraque prossegue.

O argumento exposto neste artigo - de que com nada mais a ser resolvido por meio da violência política, os iraquianos podem agora se acalmar para usufruir da riqueza petrolífera - se baseia em duas premissas: o reconhecimento sunita do fracasso da sua insurgência e a necessidade destes de chegar a um acordo com o novo Iraque, e uma conjunção de interesses entre a coalizão, de um lado, e os curdos e os xiitas, do outro.

Nós ficamos bastante familiarizados com o General Petraeus e os seus números questionáveis relativos ao seu aumento de contingente. Será que a estratégia dos Estados Unidos reflete o fenômeno que eu descrevi? Os norte-americanos jamais argumentaram desta forma. Mas lendo nas entrelinhas, o pensamento norte-americano parece estar de forma geral de acordo com as conclusões deste argumento, ou mesmo com as suas premissas.

Petraeus já anunciou as primeiras retiradas de fuzileiros navais e soldados do exército para setembro e dezembro, respectivamente. O seu chefe, Robert Gates, o secretário de Defesa, manifesta publicamente a sua esperança de que haja uma retirada de 60 mil soldados no ano que vem. O presidente Bush também está prometendo reduções de tropas. Esses planos são um reconhecimento de que a tarefa no Iraque está prosseguindo rapidamente rumo a algo mais próximo a um trabalho policial iraquiano do que a uma guerra norte-americana.

* Bartle Bull é escritor e jornalista. Atualmente ele está escrevendo uma história do Crescente Fértil. Agora que a maior parte das facções sunitas buscam fazer um acordo, as grandes questões no Iraque foram resolvidas. O país continua geograficamente intacto, adotou a democracia e evitou uma guerra civil generalizada. A violência que persiste é em grande parte de natureza localizada e criminosa UOL

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