Para entender a junta

Nic Dunlop*

Em março passado, eu viajei para a nova capital de Mianmar, Nay Pyi Daw. Eu fazia parte de um punhado de jornalistas convidados para a parada militar anual da junta. Era a primeira vez que era concedido ao mundo exterior um vislumbre da cidade construída pelos generais. Situada no meio de um cerrado malárico, é um estranho confeito reluzente de hotéis oficiais, ministérios e moradias do governo situado nas planícies do centro de Mianmar (ex-Birmânia). A junta gastou bilhões construindo esta metrópole em grande parte vazia, cujo nome significa "Assento de Reis".

Aqui, os generais ficam em perfeito isolamento enquanto o restante do país sofre. Os gastos em saúde no país, segundo a ONU, são os mais baixos do mundo. A pobreza é disseminada e um terço das crianças com menos de cinco anos é desnutrida. Mas os gastos militares foram às alturas. Apesar da escassez crônica de eletricidade, que deixa grande parte do país quase em um apagão permanente, a nova capital da junta brilha com eletricidade fornecida 24 horas.

Atta Kenare/AFP - 27.mar.2007 
Than Shwe observa a guarda de honra durante o dia das Forças Armadas, em Nay Pyi Taw

Sob três grandes estátuas de reis-guerreiros, cerca de 15 mil soldados participaram da grande parada. As estátuas são de Anawrahta, Bayint Naung e Alaungpaya, celebrados por defenderem e expandirem o reino. Para os generais, eles representam um tempo glorioso antes da humilhação de Mianmar pelas mãos dos britânicos, que em 1885 colocaram fim a séculos de governo real e enviaram o último rei ao exílio na Índia.

Há um ditado em Mianmar de que as únicas cores na emissora de TV estatal são verde e laranja: verde representando os militares, laranja os monges. Todo dia, a população é bombardeada com imagens de generais se ajoelhando diante de monges impassíveis, entregando donativos de sabão, biscoitos, mantos de seda e outros bens. Isto é o que se passa por notícia em Mianmar. Neste país de budistas devotos, fazer donativos é uma forma dos militares demonstrarem suas credenciais budistas e, por extensão, legitimizar seu lugar como soberanos do país.

Muitos comentaristas externos sugeriram que o Exército nunca ousaria fazer uso da violência contra o Sangha (o clero budista). Qualquer resposta violenta por parte dos militares seria vista pelas pessoas comuns como um ataque deliberado contra a instituição mais sagrada do país. Como estavam errados.

Os protestos de setembro foram os mais significativos desde 1988, quando os militares esmagaram violentamente uma revolta dos estudantes, matando e ferindo milhares. Como em 1988, o protesto foi motivado por dificuldades econômicas: desta vez, o anúncio pela junta de um aumento de 100% no preço dos combustíveis. Ele foi liderado inicialmente por ex-ativistas estudantis, que foram rapidamente presos. Então os monges iniciaram seu protesto, muitos deles recusando donativos de pessoas ligadas às forças armadas, deixando suas tigelas viradas para baixo -o equivalente budista à excomunhão.

As tropas rapidamente intervieram. Soldados altamente armados começaram a invadir mosteiros, acompanhados de policiais portando rifles M16 de fabricação americana. Muitos foram mortos; milhares foram presos. Em questão de dias estava tudo acabado. A junta reconheceu nove mortes; outras estimativas colocam o número em centenas.

De volta ao controle, a junta parece mais entrincheirada do que nunca. Ela domina todos os setores da sociedade. Desde a repressão, os soldados desapareceram das ruas quase tão rapidamente quanto apareceram.

O exército de Mianmar é um produto da Segunda Guerra Mundial e, especificamente, do exército imperial japonês. Antes dos japoneses invadirem o país em 1942, um ativista estudantil birmanês chamado Aung San fez contato com eles, acreditando que ajudariam os birmaneses a conseguirem sua independência do Reino Unido. Aung San recrutou combatentes e, após os japoneses derrotarem os britânicos e tomarem o país, eles criaram o Exército de Defesa da Birmânia, juntamente com organizações civis voltadas a guiar o país rumo à independência.

Uma força de 3 mil homens foi recrutada e treinada por instrutores japoneses. Mas quando ficou claro que os japoneses não tinham interesse em conceder a independência, Aung San e seus homens se voltaram contra seus antigos aliados e se juntaram aos ex-inimigos, os britânicos. O Dia das Forças Armadas, a data mais importante no calendário da junta, marca o dia em 1945 em que o exército nacional da Birmânia se revoltou contra os japoneses.

Aung San posteriormente negociou a independência do Reino Unido. Em 1947, pouco antes dela ser concedida, ele e grande parte de seu gabinete foram assassinados por um rival, U Saw.

A memória de Aung San ainda é reverenciada por muitos. Mas hoje isto representa um certo embaraço para o establishment militar. Aung San acreditava que o exército não devia se envolver em política. Seu retrato, que costumava ser pendurado em lares e lojas, aos poucos desapareceu de vista. Sua filha, a líder da oposição Aung San Suu Kyi, desafiou abertamente a legitimidade do regime, descrevendo o atual impasse como a "segunda luta pela independência". A simples menção de seu nome aparentemente provoca acesso de raiva no líder da junta, Than Shwe.

Para o mundo exterior, os infortúnios de Mianmar são representados pela imagem de Suu Kyi e sua posição contra a ditadura. Mas esta é uma simplificação exagerada. Sua atraente batalha de bem contra o mal contra as forças armadas obscureceu outro conflito que é vital para o entendimento do papel dos militares -o conflito entre as minorias étnicas de Mianmar.

Mianmar é um dos países mais etnicamente diversos do mundo, com mais de 100 grupos étnicos distintos. Os principais grupos -Mon, Chin, Shan, Kachin e Karen- vivem nas áreas montanhosas. A maioria de Mianmar vive tradicionalmente nas planícies. A suspeita que habitantes da baixada e montanheses nutrem uns em relação aos outros é profunda. O fato de alguns destes grupos étnicos também serem cristãos, diferente da maioria budista, alimenta um ressentimento que continua até hoje.

A guerra civil em Mianmar -uma das mais longas da história- prossegue nas regiões mais remotas do país. Os militares aplicam uma política de terra arrasada nas áreas onde os grupos étnicos rebeldes operam, criando 1 milhão de refugiados. Aldeões são pressionados a transportarem suprimentos para o fronte ou usados como caça-minas humanos. Acredita-se que esta campanha de terror faça parte de um plano para livrar de rebeldes a área ao redor da nova capital.

A estrutura organizacional do exército e estilo de comando derivam diretamente do exército imperial japonês. Como ele, os militares de Mianmar se apóiam em um controle altamente centralizado somado a uma rígida disciplina e uma obediência absoluta à autoridade. Isto contrasta com sua impunidade em campo, onde atrocidades são cometidas rotineiramente. A postura de não questionar a autoridade, em uma sociedade profundamente conservadora, contribuiu para o longo domínio dos militares.

A decisão de transferir a capital de Yangun para Nay Pyi Daw foi alvo de muita especulação. Uma teoria é de que a mudança foi motivada pelo temor da junta de invasão pelos Estados Unidos, particularmente diante do Afeganistão e Iraque. Nay Pyi Daw fica centralmente localizada e vizinha de partes do país onde os rebeldes ainda operam. Ao transferir a capital para esta área, o regime seria capaz tanto de lidar com os rebeldes de forma mais eficaz quanto de melhor defender o país contra uma invasão.

Após anos trabalhando em Mianmar, foi estranho ser convidado ao coração do mundo dos generais. Ali estava eu em Nay Pyi Daw, me misturando com pessoas sobre as quais muito eu li e ouvi. O que me chamou a atenção foi quão comuns elas pareciam. Elas pareciam seguras de si e prestavam pouca atenção em seus convidados estrangeiros.

Após as tropas permanecerem em posição de sentido, houve silêncio enquanto aguardavam pela chegada de seu comandante supremo, Than Shwe. Uma Mercedes preta reluzente chegou e lá estava o ditador de Mianmar, com sua cabeça e ombros aparecendo pelo teto solar, com suas mãos esticadas à frente, segurando barras feitas especialmente para apoiá-lo.

Than Shwe subiu ao palanque e lá permaneceu sob o sol da manhã, cercado por oficiais com espadas. Sem gaguejar, ele fez um discurso censurando países como os Estados Unidos, que questionam o retrospecto de direitos humanos da junta. Ele prosseguiu lembrando suas tropas de como os britânicos praticaram uma política de "dividir e conquistar" entre os grupos étnicos, que lhes permitiu o controle da colônia, e comparou a onda de hostilidades dentro do país a varas de bambu desamarradas se espalhando".

Ele encerrou seu discurso prometendo esmagar "os elementos internos e externos destrutivos que obstruem a estabilidade e o desenvolvimento do Estado" -uma declaração cuja sinceridade ele teve a chance de demonstrar cerca de seis semanas depois.

*Nic Dunlop é fotógrafo e escritor. Ele está trabalhando em um livro sobre Mianmar. Um produto do exército imperial japonês, os militares de Mianmar dominam tudo. Após visitar a nova capital reluzente do país e se misturar com os generais, é mais fácil entender por que mantêm o poder há tanto tempo e por que devem ser parte de qualquer solução George El Khouri Andolfato

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