Um novo acordo com a Rússia?

Charles Grant*

É do interesse tanto do Ocidente quanto da Rússia chegar a um grande acordo em torno das questões que os dividem.

"Era mais fácil lidar com a União Soviética do que atualmente com a Rússia", disse um alto diplomata francês. "Os soviéticos às vezes eram difíceis, mas você sabia que estavam obstruindo tendo em vista atingir um objetivo. Agora a Rússia busca bloquear sistematicamente o Ocidente em todos os assuntos, aparentemente sem propósito."

As relações entre a Rússia e o Ocidente passam pelo momento mais espinhoso desde o colapso da União Soviética. A Rússia está bloqueando uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que autorizaria a independência de Kosovo sob tutela da União Européia (UE). Ela está frustrando os esforços dos Estados Unidos e da UE de impor mais sanções da ONU ao Irã. Ela diz que se os Estados Unidos prosseguirem com os planos para instalação de sistemas de defesa antimísseis na Polônia e na República Tcheca, ela apontará mísseis contra cidades européias. Ela bloqueou a Geórgia. Sua proibição de importação de carne polonesa levou a UE a abandonar as negociações de um "acordo de parceria e cooperação". E assim por diante.

Mas pode haver um método por trás da obstinação da Rússia. Algumas figuras influentes em Washington, incluindo Henry Kissinger, acham que a Rússia pode estar procurando por uma "grande barganha". O presidente Putin deu indícios de que pode estar aberto a tal barganha quando se encontrou com pesquisadores em Sochi, em setembro. "Se nossos parceiros querem que façamos algo, eles precisam ser específicos", ele disse. "Se querem que resolvamos Kosovo, vamos conversar sobre Kosovo. Se estão preocupados com os programas nucleares no Irã, vamos conversar sobre o Irã, em vez de falar sobre democracia na Rússia." Faz sentido: os Estados Unidos tendem a fazer exigências amplas para a Rússia sem priorizá-las.

A abordagem comum da UE deveria se concentrar nos interesses em vez dos valores, já que os governantes da Rússia não parecem interessados em valores políticos liberais. Assim, apesar da necessidade da UE defender os direitos humanos, ela não deve lutar pelas políticas internas da Rússia: ela carece de habilidade para moldá-las e a tentativa poderia ser contraproducente. Ela deveria tentar trabalhar com a Rússia em três áreas de interesse mútuo.

Uma é a energia, na qual Rússia e UE compartilham de interesses de longo prazo: a Rússia fornece quase metade das importações de gás da UE. Mas a dependência é de mão-dupla, já que os gasodutos da Rússia rumam para o Ocidente. Os europeus querem garantias de que a Rússia desenvolverá novos campos de gás, já que uma desigualdade entre demanda e a oferta russa provavelmente surgirá em poucos anos. A Rússia precisará de tecnologia e perícia ocidentais para desenvolver as reservas em seu extremo norte e leste. Os europeus também querem o direito de investir nos setores de gás e petróleo russos.

Os russos temem as medidas para liberalização do mercado de energia europeu. Eles gostam de lidar com quase-monopólios que combinam oferta e distribuição, como a Gaz de France e a Eon Ruhrgas. Mas a UE está lentamente caminhando para a separação da oferta e distribuição, o que impediria a Gazprom de comprar redes de distribuição. A UE deve assegurar à Rússia que a liberalização não impedirá, como ela teme, que a Gazprom feche contratos de longo prazo com empresas européias. A dependência mútua deveria encorajar ambos os lados a chegarem a um meio-termo.

A integração da Rússia no sistema financeiro global é uma segunda área na qual europeus e russos podem trabalhar juntos. Graças ao alto preço do petróleo, o governo e as principais empresas russas estão sentados sobre fundos no valor de várias centenas de milhões de dólares. Eles desejam colocar parte desse dinheiro em empresas estrangeiras. Neste ano, o "Financial Times" estimou o investimento estrangeiro direto por russos em US$ 140 bilhões. As empresas russas também querem levantar dinheiro no exterior, como muitas delas estão fazendo na bolsa de valores de Londres.

Mas a UE está preocupada com os "fundos soberanos" -fundos de investimento que são administrados por governos e que podem ter objetivos opacos- da Rússia, China e outros países, e pode tentar regulá-los. Ela deveria permitir a estes fundos o investimento em empresas européias, desde que sejam transparentes e operem independentemente de políticos. E a UE deveria apreciar a aquisição de suas empresas por russos, desde que suas regras sejam respeitadas e as empresas européias tenham direitos recíprocos.

A terceira área na qual UE e Rússia deveriam trabalhar juntas é sua "vizinhança comum". Isto pode ser difícil: alguns russos não aceitam que a UE tenha interesses legítimos nas antigas repúblicas soviéticas da Armênia, Azerbaijão, Belarus, Geórgia, Moldova e Ucrânia. Mas tanto a UE quanto a Rússia se beneficiariam caso esses países se tornassem estáveis, prósperos e bem governados. Temendo mais "revoluções coloridas" semelhantes às da Geórgia e Ucrânia, o Kremlin se opõem às forças democráticas em todos estes países, com base de que promoverão interesses ocidentais contra a Rússia -uma política que corre o risco de se tornar uma profecia que se autocumpre. A Rússia também teme o cerco pela expansão da Otan.

A UE tem apostado alto no futuro de Kosovo; ela não pode integrar o oeste dos Bálcãs até que o status de tal território seja resolvido. Ela será responsável por grande parte do dinheiro, soldados, policiais e administradores necessários para o funcionamento de qualquer plano de paz. A Rússia quase não tem interesse em Kosovo, fora ser uma carta para ser usada contra o Ocidente. A UE e os Estados Unidos acreditam que a opção menos ruim para Kosovo é a independência supervisionada, que é rejeitada pela Rússia.

Mas e se algo fosse oferecido à Rússia em troca? A decisão americana de implantar sistemas de defesa antimísseis na Europa -contra uma ameaça iraniana que ainda não existe- não foi sábia. A revolta da Rússia com tal implantação é legítima. Algumas ex-autoridades americanas alegam que tal implantação violaria o espírito das promessas feitas à Rússia nos anos 90: os Estados Unidos disseram que não teriam presença militar significativa nos países da Europa Central que estavam ingressando na Otan.

Os europeus deveriam pedir para Washington adiar indefinidamente a implantação -desde que a Rússia aceite a independência de Kosovo em troca. De qualquer forma, há importantes russos e americanos que desejam discutir como os sistemas de defesa antimísseis poderiam se integrar, e tais negociações precisam de tempo.

A Rússia poderá se mostrar indisposta em negociar tanto com os Estados Unidos quanto com a UE. Mas se sua política externa prosseguir na trajetória atual, ela perderá amigos ao redor do mundo. Também prejudicará o setor de energia e a perspectiva de suas principais empresas de se tornarem verdadeiras multinacionais. Se Putin realmente se importa com a maximização do poder russo, ele deve buscar uma grande barganha.

*Charles Grant é diretor do Centro para Reforma Européia, um centro de estudos com sede em Londres. George El Khouri Andolfato

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