Em busca de uma cidade menos quente

Matthew Lockwood*

As cidades se encontram no coração de nossos dilemas de mudança climática. Metade da população do mundo atualmente vive em cidades, um número que deverá crescer para 80% até 2050. Grandes concentrações de pessoas criam alvos vulneráveis para desastres climáticos. Eles não serão apenas repentinos e dramáticos (o furacão Katrina) mas também lentos e traiçoeiros (Xangai lutando com a salinização pela elevação do nível dos mares).

Se as cidades estão na linha de frente dos impactos da mudança climática, elas também são centrais para suas causas. As cidades, afinal, são as "consumidoras finais" supremas de energia, usando cerca de 75% do total mundial, em transporte, construção, indústria, no aquecimento, refrigeração e iluminação dos prédios. Responsáveis por 80% das emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa, os centros urbanos também deixam enormes "pegadas" ecológicas, ao sugarem alimentos e recursos de suas regiões vizinhas.

Jason Lee/Reuters - 26.out.2007 
Chinês atravessa ponte encoberta por nuvem de poluição em Pequim

Mas em teoria, as cidades deveriam produzir muitas das soluções que precisamos, tanto na adaptação às mudanças quanto na redução de futuras emissões. O aprendizado acontece de forma mais rápida nas cidades, e os moradores de cidades apresentam maior probabilidade de estarem abertos a mensagens políticas sobre a mudança climática. Além disso, no mundo desenvolvido, os moradores de grandes cidades são menores usuários per capita de energia e maiores usuários de transporte público do que os moradores do campo e dos subúrbios.

Londres, juntamente com Toronto, estabeleceu a C40, uma rede de 40 cidades globais que visa acelerar o processo de aprendizado sobre a mudança climática entre as cidades. Muitas prefeituras nutrem ambições que superam em muito as lentas negociações internacionais para um sucessor para o Protocolo de Kyoto. Assim, enquanto o governo americano ainda não aceita o conceito de metas obrigatórias de redução de gases do efeito estufa, a cidade de Nova York adotou uma meta de redução das emissões em 20% até 2010, tendo como base 1995. Melbourne, na Austrália (outro país que rejeitou Kyoto na esfera federal), deseja ter zero em emissões líquidas até 2020.

Quando se trata de reduzir as emissões de carbono nas cidades, os lugares óbvios para se começar são os prédios e transporte. O uso de energia em prédios é uma fonte predominante de emissões nas cidades pós-industriais. Cidades jovens e em expansão nos países em desenvolvimento têm a oportunidade de usar as mais recentes tecnologias de construção de baixo carbono para produzir "eco-cidades" suburbanas, desde que os recursos possam ser encontrados. Esta é a abordagem da China com Dontang, perto de Xangai, a primeira "cidade sustentável neutra em carbono" do mundo, atualmente em construção. As eco-cidades também foram adotadas pelo Reino Unido, com Gordon Brown prometendo 10 até 2020.

Mais amplamente, as regras de planejamento e construção podem ser usadas para promover padrões em todas as novas construções. Barcelona adotou a obrigatoriedade de todos os prédios novos acima de um certo tamanho usarem energia solar para aquecimento de água. Muitas cidades -incluindo Nova York e Berlim- estão introduzindo padrões para construção sustentável que são mais elevados do que os promovidos pelas esferas regionais e nacionais.

Mas nas cidades mais velhas, a grande maioria das emissões vem dos prédios existentes; a tarefa chave é "adaptar" medidas para economia de energia. Toronto adotou uma abordagem sistemática nesta área. Capital é disponibilizado para adaptação dos prédios da prefeitura com medidas de eficiência em consumo de energia em iluminação, aquecimento, informática e outras áreas, investimento que é pago com a economia resultante do menor uso de energia. O dinheiro recuperado vai para um fundo e então emprestado novamente para novos projetos. Abordagens semelhantes estão sendo amplamente usadas em outros lugares, de Phoenix, Arizona, ao governo escocês.

Muitas cidades também estão agindo para reduzir as emissões dos transportes, tanto incentivando pessoas a utilizarem o transporte público ou bicicletas, quanto pela utilização de combustíveis com menos carbono para suas frotas de ônibus e táxis. Enquanto isso, Londres foi pioneira no uso de cobrança por congestionamento no Reino Unido, juntamente com a expansão dos serviços de ônibus e melhor infra-estrutura para os ciclistas.

Quando a liderança municipal é comprometida e organizada, a questão chave é sobre poderes e recursos. É aí onde entram a liderança pessoal, aquisição, empreendimento público e política.

O elemento da liderança pessoal é essencial para qualquer ação. Isto é demonstrado não apenas por líderes municipais globais como Ken Livingstone, em Londres, e Michael Bloomberg, em Nova York, mas também por uma nova geração de prefeitos verdes nos países em desenvolvimento, como Marcelo Ebrard, da Cidade do México.

Além de ações simbólicas, como a instalação de painéis solares no telhado da prefeitura de Londres, o compromisso pessoal pesa na promoção de ação mais ampla por meio das operações municipais. O que conta como operação direta controlada pela cidade varia, mas geralmente inclui pelo menos os sistemas de transporte, a gestão do lixo e a polícia e o corpo de bombeiros. O desafio é reduzir o consumo de energia em geral nestes serviços.

Isto leva à aquisição. As prefeituras individuais possuem considerável poder de compra, mas juntas têm mais. Isto agora está começando a acontecer por meio de um novo projeto para medidas de economia de energia em prédios públicos de 16 grandes cidades (incluindo Mumbai, Seul, Houston e Londres), criado pelo C40 e apoiado pela Iniciativa Climática Clinton. O projeto reuniu as cidades às quatro maiores empresas de serviços de energia do mundo, que concordaram em reduzir os preços cobrados para adaptações que visam economizar energia.

Apesar das prefeituras serem capazes de agir para reduzir as emissões por meio de operações diretas e aquisição, elas geralmente correspondem a apenas uma pequena parte da contribuição de uma cidade para a mudança climática. Por exemplo, as emissões produzidas pelo transporte público de Londres representam menos de 5% do total da capital, grande parte da qual oriunda do uso de energia nos lares, escritórios e indústria. Este é o motivo da lei de energia com menor emissão de carbono por meio de empreendimento público -empresas municipais de energia - poder dar às prefeituras uma maior influência sobre o total de emissões. Mas apesar de algumas cidades européias terem conseguido fazer isto funcionar, o modelo não funciona bem em toda parte.

O maior impacto sobre as emissões da cidade certamente vem por meio de políticas que afetem a forma como os indivíduos e empresas usam a energia. A maioria das prefeituras tem algum controle sobre o uso de terrenos, planejamento, habitação e transporte particular, e algumas também fornecem energia e água, como discutido acima. Provavelmente as mais importantes delas sejam as políticas de planejamento e habitação. Estes poderes podem fazer a diferença entre novos projetos que lembrem as cidades compactas européias e o modelo "espalhado", onde o uso do carro está inevitavelmente agregado à vida diária, como em cidades americanas como Houston e atualmente nas margens de cidades de países em desenvolvimento, como Lima e Bangalore.

A liderança municipal atualmente é uma parte importante da paisagem política da mudança climática. É complexo obter reduções significativas de emissões por meio do uso de energia nas cidades, já que depende de quão desenvolvidos estejam os recursos. Mas muitos prefeitos estão pressionando seus governos nacionais a um maior compromisso em ações de combate à mudança climática na esfera internacional. À medida que os líderes municipais se tornam mais organizados, e usam suas próprias realizações como plataforma, tal ambição pode muito bem se concretizar.

* Matthew Lockwood é pesquisador sênior de mudança climática para o Instituto de Pesquisa de Políticas Públicas, um centro de estudos britânico. Muitas cidades têm metas ambientais muito mais ambiciosas do que os governos nacionais. Mas como estas metas podem ser concretizadas? George El Khouri Andolfato

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