Levando os esportes a sério

David Goldblatt*

Os esportes geram significados e prazeres de várias maneiras. O movimento e as coreografias de alguns deles evocam os mesmos prazeres da dança. E em muitos esportes a multidão é sem dúvida alguma o coro, que não só gera clima, comentário e renda, mas que também modela o tom e o rumo do jogo.

A oportunidade que isso proporciona para a dramatização coletiva de identidades e relações sociais, tanto de forma espontânea quanto organizada, não tem paralelo no campo da cultura popular global. As Olimpíadas, com todos os seus defeitos, continua sendo a mais significativa comemoração global de internacionalismo. Nenhuma linguagem ou religião tem um alcance geográfico e social tão grande quanto a participação e o consumo dos principais esportes mundiais.

Mas levar os esportes a sério parece ser algo meio contraditório. Todo esporte, por mais que tenha sido mercantilizado, regulamentado e organizado, é, no final das contas, apenas uma forma complexa de brincadeira. Usando-se como padrões de cálculo os critérios quantificáveis da utilidade, da eficiência e da segurança, os esportes não fazem sentido. Usar tacos de metal para lançar bolas a meio quilômetro de distância em paisagens esculpidas para que elas caiam em pequenos buracos é algo sério? Salto de esqui e luge? Até como idéias esses esportes são absurdos.

Os esportes exigem dos seus participantes e espectadores um salto de fé, uma suspensão da razão, um abandono de vários julgamentos e valores convencionais, como pré-requisito para que se aceite que esses jogos têm importância. O salto de fé nos conduz a um mundo livre da razão instrumental, no qual as pressões da sociedade moderna não possuem um lugar de direito. A idéia de que tal espaço possa existir em um mundo que parece deformado pelo alcance do dinheiro e do poder se constitui de fato em uma perspectiva séria.

Pode-se argumentar que os esportes, ainda que livres das formas convencionais da instrumentalidade, se focalizam de forma incansável e obsessiva no mais estreito e desprezível dos objetivos. Vince Lombardi, um técnico de futebol americano da década de 1950 que foi fantasticamente bem-sucedido, disse certa vez: "Ganhar não é tudo; é a única coisa". Mas essa é uma ficção que todos nós mantemos, um outro salto de fé que mantém os profissionais dos esportes motivados.

Um jogo que é totalmente dirigido para os resultados não é mais um jogo. Se ganhar um jogo de futebol é de fato a única coisa que importa, então não estamos mais jogando. A maioria dos esportes, na maior parte do tempo, diz respeito a perder ou empatar. Somente um time pode ganhar o campeonato a cada ano. Nós continuamos a sentir prazer com a derrota, as quase vitórias, os sucessos ocasionais e a mediocridade sombria.

Mas o jogo seriamente organizado não pode ser puramente espontâneo. Se quisermos assistir ao espetáculo e participar das suas grandes narrativas, precisamos de regras e de instituições que estabeleçam estas regras; necessitamos de infra-estrutura, estádios e atletas profissionais. O espetáculo exige financiadores; alguém precisa pagar o custo do circo. Os esportes atraem e precisam lidar com dinheiro e poder, e os financiadores estarão sempre procurando comprar ou tomar uma parcela da glória. Como podemos determinar qual é a linha que separa os reinos do poder e do jogo, o espaço econômico do social? A produção e o consumo dos esportes modernos são claramente políticos, apesar de com um "p" minúsculo.

Economistas e sociólogos deram os seus palpites sobre as origens e as conseqüências dos esportes, da globalização, da comercialização e do impacto de novas tecnologias. No Reino Unido, a voz lacônica e auto-reflexiva das bases que geraram a cultura de fanzine de futebol da década de 1980 pode agora ser encontrada no rádio e em outros setores da imprensa. Alguns poucos cronistas esportivos ampliaram os seus horizontes, geográfica e contextualmente, e buscaram algo a mais do que os mesmos e antigos vocabulários e narrativas.

Da mesma maneira, a política começou a aparecer de forma lenta e relutante nas bordas da imprensa esportiva britânica: as Olimpíadas de 2012 são um assunto acompanhado de perto. Os piores excessos do atual regime da Fifa foram expostos. Nos últimos meses, o controle estrangeiro sobre a Liga Nacional de Futebol transformou-se em uma grande história no Reino Unido, assim como o doping e o ciclismo. No entanto, só há um punhado de jornalistas investigando, noticiando e escrevendo sobre as questões referentes a dinheiro e poder, posse e regulamentação, impropriedade e corrupção.

A cobertura esportiva da televisão e do rádio, embora tenha melhorado bastante sob o ponto de vista técnico, e se tornado disponível em inumeráveis canais de divulgação, na maioria das vezes deslocou-se meramente do anódino e desajeitado para o anódino e astucioso.

E qual seria o aspecto de uma cultura esportiva mais saudável? Ela começaria com duas idéias. Primeiro, o esporte deveria ser tratado com a mesma seriedade dedicada às artes cênicas. Segundo, ele deveria ser julgado de acordo com os mesmos critérios de transparência, sustentabilidade e democracia que esperamos em outros setores da vida pública. Muitas coisas se seguem a partir disso, mas consideremos apenas quatro.

Primeiro, contemos as nossas histórias da maneira correta. Todos os esportes modernos deleitam-se nas suas próprias histórias e as utilizam para criar significados e prazeres contemporâneos. A manutenção de registros sistemáticos, que distingue a era moderna dos jogos do passado, fornece uma estrutura constante para comparações entre times e indivíduos de várias épocas. Narrativas de clubes, campeonatos e tradições de estilos de jogo proporcionam um rico nicho de interesse por competições esportivas. No entanto, tanto no idioma oficial quanto no popular, o que nos fornecem basicamente é uma história substituta: o mito desenraizado e manipulado, hermeticamente lacrado para não ter contato com o contexto político, social e econômico mais amplo no qual ele ocorreu. Os resultados são na melhor das hipóteses sombriamente sentimentais, e, na pior, não passam de acobertamentos obscenos de injustiças e contravenções passadas. Devemos insistir nas melhorias.

Segundo, será que podemos melhorar a conversação? Embora não exista nada de errado no fato de os profissionais esportivos tornarem-se comentaristas na mídia, não há também motivo para achar que eles detêm o monopólio da sabedoria nas questões esportivas, e tampouco que a glória esportiva passada possa compensar qualquer dose de trapalhadas atuais. No mínimo, tenhamos outras vozes em cena.

Terceiro, escritores e repórteres, políticos e platéias, participantes, espectadores e os seus vários representantes precisam se ligar nos atuais problemas epidêmicos referentes ao poder e ao dinheiro não regulamentados no esporte. O universo esportivo global está repleto de acusações e de evidências de chantagens, engodos, fraudes e corrupção.

Precisamos equilibrar a oportunidade do capital privado de gerar lucros a partir do esporte e as suas obrigações de se preocupar com os outros. O argumento tem início com o vínculo entre esporte profissional e a cultura esportiva mais ampla da sociedade - equipes de pubs, esporte escolar, ligas juvenis participando, vendo, seguindo e discutindo. Sem esse substrato, o esporte no seu nível mais alto torna-se impossível. Todas as organizações esportivas profissionais deveriam arcar com uma considerável responsabilidade pelas suas bases. A aposta em corridas de cavalos é um exemplo de uma transferência de renda privada de volta à estrutura esportiva; e outros exemplos devem ser levados em consideração.

Finalmente, em uma época na qual nenhum aspecto da vida social ou política pode se ausentar do debate sobre a mudança climática, o esporte necessita assumir a liderança. A Copa do Mundo, as Olimpíadas e todas as outras competições regionais e globais geram uma vasta quantidade de carbono emitido como resultado das reuniões de tanta gente em tantos lugares.

Os governos deveriam, de forma geral, estar se esforçando mais para fazer com que a indústria da aviação tenha maior importância, mas certamente uma fatia da renda de 500 milhões de euros gerada pela Liga dos Campeões, ou os bilhões que fluem para os cofres da Fifa, deveriam ser gastos com algum tipo de contrabalanceamento. Enquanto isso, todos os esportes que tem um impacto ambiental direto - especialmente esqui, corridas motorizadas e golfe - precisam fazer algumas reflexões profundas.

É claro que um dos argumentos mais fortes contra a proposta de se levar os esportes a sério é o histórico desalentador daquelas ideologias que tentaram fazer isso no passado: um cristianismo musculoso a serviço do imperialismo; variedades de darwinismo social e de ultranacionalismo desvirtuados para inclinar as nações para a guerra; o absurdo pão e circo do fascismo, o autoritarismo populista latino-americano e o comunismo europeu; o presunçoso e hipócrita internacionalismo do movimento olímpico. Mas abandonar tais políticas ou fingir que elas não têm importância não se constituem em respostas efetivas.

Uma alternativa, que procura reduzir a política no esporte ao seu devido tamanho, é imaginar isso como sendo um carnaval democrático em ação. O mundo dos esportes é aquele no qual a maioria de nós, em diferentes períodos e de diferentes maneiras, é participante, platéia e comentarista; é um mundo no qual podemos achar prazer na contradição, um espaço social que depende do Estado e do mercado, mas que sabe como mantê-los à devida distância. Esse espaço, afinal, não é exatamente o local no qual jogamos, e sim onde a boa vida deve ser vivida.

*David Goldblatt é escritor, telejornalista e professor. Os esportes nunca foram tão importantes, mas o significado e os atrativos das atividades esportivas ainda não são levadas a sério. É hora de os esportes contarem com o mesmo peso cultural das artes cênicas, e de serem julgados segundo os padrões normais da vida pública UOL

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