O preconceito contra os garotos

Charlotte Leslie*

Os pais há muito suspeitavam disso, os relatórios escolares forneciam indicações e os professores freqüentemente aceitavam o fato. Agora são as estatísticas que demonstram: a escola é um mundo de garotas. Uma pesquisa publicada neste verão pelo Bow Group, uma instituição britânica de pesquisas, revelou que os garotos ficam drasticamente para trás nas principais matérias desde o início de suas carreiras escolares - e que depois continuam em curva descendente. Quando adolescentes, uma minoria significativa deles abandona a escola e cai no crime, acabando em instituições para delinqüentes juvenis e, algumas vezes, na prisão.

Para um governo - como o britânico - que se propõe a estender a experiência de aprendizado até os 18 anos de idade, essas estatísticas deveriam ser motivo para reflexão. Os números apresentados pelo Bow Group mostram que aos sete anos de idade o número de meninas que atinge as metas educacionais do governo britânico é 9% maior do que o de meninos. Aos 14 anos, essa diferença é de 15%. Apenas 52% dos garotos obtêm cinco boas notas, contra 61% das meninas. E, no ano passado, 44% das meninas permaneceram com notas compatíveis com níveis A, contra 36% dos garotos - um número cada vez maior de escolas parece ser a última coisa que os meninos desejam.

Reuters - 14.nov.2006 
Garotos enfileirados em banheiro de jardim de infância em Baokang, na China

O desgosto dos garotos pelo ambiente escolar torna-se mais evidente caso se examine os dados relativos ao comportamento e à freqüência escolares. No ano passado, os garotos foram responsáveis por 79% das expulsões e por 72% das suspensões. Isso significa que mais de 250 mil garotos tiveram problemas tão sérios com a escola que foram expulsos.

Isso representa uma má notícia para qualquer pessoa envolvida com a tentativa de elevar os padrões educacionais. Mas parece claro que o problema com garotos na escola é um sintoma de uma questão maior: a rápida feminização das sociedades desenvolvidas. Existem três maneiras principais segundo as quais poder-se-ia afirmar que as virtudes masculinas tradicionais foram rebaixadas ou perderam a legitimidade. São elas a importância crescente das emoções e dos sentimentos na vida moderna, a deslegitimação do risco e da competição e o declínio da relevância da força física.

Primeiro, os mundos da educação e, cada vez mais, o do trabalho requerem mais habilidades interpessoais "suaves" e inteligência emocional do que no passado. Não quero me aventurar muito no debate para determinar se a superioridade feminina nessa área é cultural ou inata, mas, por ora, é verdade que o desempenho médio no "mundo dos fatos" e no "mundo dos sentimentos" difere acentuadamente entre os sexos. Simon Baron-Cohen, do Centro de Pesquisa Sobre Autismo da Universidade de Cambridge, chegou a sugerir que o autismo é um "exagero" do cérebro masculino normal.

Segundo, a explosão da cultura do litígio e a tirania das regras de saúde e segurança no sistema educacional desencorajam os atos de risco e a competitividade física, e isto tem um peso mais acentuado sobre as formas de comportamento masculinas.

Finalmente, os músculos não têm mais muita importância. As mudanças de tecnologias e de padrões de trabalho significam que a vantagem histórica dos homens - a sua força física - é cada vez mais um valor obsoleto no mercado de trabalho. Isso é sentido com especial intensidade em partes do país anteriormente dominadas pela indústria pesada, regiões nas quais existe um elevado número de escolas de desempenho inferior à média.

Esses fatores compõem o ataque em três frentes contra as virtudes masculinas: a preponderância do sentimento sobre o fato, da segurança sobre o risco e a redução da importância do vigor físico. Tem havido relutância em se discutir a questão da diferença entre homens e mulheres devido ao temor de que se seja acusado de cultivar estereótipos relativos ao gênero. Mas agora estamos presenciando os resultados tangíveis dessa inibição.

Não é por acaso que as meninas estão permanecendo na escola mais do que os meninos. A tendência que privilegia as questões de provas que se concentram em interpretações subjetivas, e não em análises factuais, favorece as meninas. A cultura anti-risco está manifesta na introdução de intermináveis módulos educacionais que podem ser repetidos. A proliferação dos deveres de casa tende a favorecer as mulheres, em detrimento dos garotos, que preferem o risco único da prova.

Se vamos obrigar as crianças a permanecer na escola até os 18 anos, temos que pensar bastante a respeito das conseqüências desses anos extras, caso contrário a diferença de desempenho entre meninos e meninas apenas tornar-se-á mais intensa. Quaisquer anos extras de freqüência escolar compulsória precisam começar a modificar o equilíbrio entre os sexos. Precisamos de uma maior avaliação das habilidades analíticas, mais competição e recompensas por se correr riscos, e mais desenvolvimento em esportes e qualificações mais exigentes sob aspecto prático.

Se o nosso mundo está se tornando mais feminizado e a masculinidade está sendo reformulada, isso é um motivo ainda maior para proporcionar aos garotos o melhor começo que eles possam ter. Especialmente para aqueles que acreditam na igualdade dos sexos.

* Charlotte Leslie é editora da revista "Crossbow", editada pelo Bow Group. Um relatório demonstra que a feminização da sociedade tem parte da culpa pelo problema de os garotos estarem se saindo mal na escola UOL

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