Verdades básicas sobre a ciência da Terra

James Lovelock*

Foi um raro deleite ler "Eating the Sun", de Oliver Morton, em Svalbard, arquipélago ártico que faz parte da Noruega e fica a 1.000 km do Pólo Norte. Um lugar perfeito para a leitura porque, em geral, está escuro, e assim ficará até a primavera, quando a cortina se levantar no palco onde o primeiro ato de aquecimento global está sendo encenado. Há pouco tempo, o gelo flutuante era grosso daqui até o pólo e o Canadá; no último verão, 1 milhão de quilômetros quadrados derreteram, deixando 70% do Oceano Ártico descongelado em setembro.

A mudança climática adversa torna este livro muito importante e oportuno -não apenas para cientistas, mas para qualquer um que possa pensar. Oliver Morton escreve de forma tão envolvente que parece uma boa biografia da Terra em nome do reino vegetal, traçando sua evolução da minúscula cianobactéria, há 3,5 bilhões de anos, até as árvores gigantes de hoje. Diferentemente de um texto botânico, "Eating the Sun" revela os mecanismos químicos complexos pelos quais a luz do sol é usada pelas plantas e como o sol é o poder por trás de tudo que importa na Terra.

O livro de Morton também fala da ciência da Terra, de minha teoria de Gaia e das vidas de cientistas mais envolvidos. Ele explica porque a teoria de Gaia -que afirma que os organismos vivos e seu entorno inorgânico evoluíram juntos como um único sistema vivo- ainda é vista como heresia contrária à ciência ortodoxa.

De meu ponto de vista, Morton é justo, especialmente porque muitas de suas testemunhas são defensoras apaixonadas da ortodoxia. Como sou velho e também herético, vejo a ciência moderna como a igreja medieval cristã, pesada com a teologia complexa da redução.

Observações e experimentos estão fora de moda; a maior parte das evidências hoje são tiradas do mundo virtual de modelos de computador. A técnica de inquisição é a revisão pelos colegas: um instrumento bem intencionado para separar a ciência boa da ruim que se tornou o grande mantenedor da sabedoria convencional.

O maravilhoso sobre a ciência é que a própria natureza é sempre o árbitro final. Com o tempo, a teoria de Gaia será confirmada ou negada por evidências da Terra. Infelizmente, não temos tempo. As evidências até agora sugerem que a Terra está em rápido movimento para um de seus estados de estufa quente estável, talvez como o de 55 milhões de anos atrás.

A chave para entender porque a Terra está ficando tão quente é compreender que, em algum sentido, está viva. Morton claramente apresenta uma visão de um planeta vivo, apesar desse planeta parecer excêntrico aos cientistas da vida. Assim, reconhecemos que a Terra não é uma mera bola de pedra como Marte e Vênus. Quando mudamos o conteúdo de dióxido de carbono do ar, a Terra, quando está saudável, responde neutralizando nossa poluição -feedback negativo. Agora, menos saudável, responde suplementando nosso aumento com o seu próprio -feedback positivo.

A temperatura aumenta rapidamente com cada adição de CO2 porque, depois de certa faixa, a temperatura e o CO2 estão diretamente relacionados e, em breve, o aquecimento da própria Terra vai exceder nossa influência, e será impossível deter o aquecimento. Felizmente para nós, a história da Terra sugere que o feedback positivo chegará a um parada natural, e a temperatura vai se estabilizar cinco graus acima da atual. Provavelmente, a idéia de que podemos estabilizar a temperatura em um nível conveniente, digamos, de dois ou três graus acima do nível pré-industrial, é uma ilusão dos modelos de computador.

Quando o feedback positivo começar, talvez haja pouco que possamos fazer a não ser tentar nos adaptar a uma Terra cinco graus mais quente. Quente o suficiente para tornar nosso mundo um vasto deserto e matar a maior parte das pessoas de fome.

O que torna esse livro tão bom são os retratos das personalidades principais feitos por Morton, assim como a forma como lida com as questões. Fiquei especialmente comovido de ser lembrado da rara figura de Bob Spicer. Spicer é um verdadeiro naturalista, que usa botas lamacentas, e não daqueles cuja visão é limitada por uma tela de computador, como o cientista ambiental que disse certa vez: "Com um clique do mouse eu posso mudar toda a Terra." Que excesso de confiança -nos apaixonamos por nossos modelos numéricos tão facilmente quanto Pigmalião por sua estátua de Galatea.

O mesmo acontece com as previsões e conclusões do conselho intergovernamental de mudança climática. Talvez venham dos mais talentosos climatologistas do mundo, usando amplos modelos globais, mas os próprios cientistas admitem livremente em particular que, apesar de desejarem modelos reais, eles não podem incluir elementos importantes como nuvens, oceanos e, acima de tudo, os ecossistemas reativos. Não houve tempo para isso, nem vontade, já que fizeram um modelo de um planeta morto, não vivo.

Poucos bons cientistas nos trazem o que a Nasa chama de "verdade básica" -os fatos sólidos nos quais podemos confiar. Cientistas assim são cada vez mais raros, enquanto aqueles que administram a ciência acreditam que o dinheiro da pesquisa é mais bem gasto em modelos e reuniões do que em experimentos sujos e perigosos e observações em campos distantes. Somos tribalmente hierárquicos, mas parece que perdemos os sistemas de verificações que antes faziam parte de nossa sociedade baseada em classe, que ridicularizava o igualitarismo, mas dava boas vindas ao mérito. Aqui em Svalbard hoje, como na ciência, ainda está escuro demais para ver além das luzes da estação de base.

*James Lovelock é autor de "A vingança de Gaia". "Eating the Sun" (comendo o sol) é um livro oportuno sobre ciências da Terra que considera a ortodoxia e a teoria de Gaia. Ele consegue ser justo com os dois lados, enquanto pinta quadros vívidos das principais personalidades do ramo Deborah Weinberg

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