África do Sul: a terrível escolha do CNA

Andrew Feinstein*

Jacob Zuma, o novo presidente do Congresso Nacional Africano, é um homem com peito de barril, rosto amplo que freqüentemente se abre em um sorriso brilhante. No lado direito do rosto tem uma longa cicatriz, testemunho de uma vida de luta e dificuldades. Chegando analfabeto à Ilha de Robben, uma prisão de segurança máxima, aos 20 e poucos anos, Zuma revelou não apenas uma grande capacidade de aprender, mas uma sagacidade política e dureza que depois de sua liberação elevaram-no a chefe da inteligência do CNA, em 1987.

Com o advento da democracia na África do Sul, Zuma tornou-se líder do CNA em sua província natal dominada pelos zulus, KwaZulu-Natal. Ele foi ministro de economia da província antes de se tornar vice do presidente Thabo Mbeki, em 1999.

Em 2005, entretanto, o assessor financeiro de Zuma Schabir Shaik, foi condenado a 15 anos de cadeia por corrupção, com base em um relacionamento de "simbiose mutuamente benéfica" com o vice-presidente. Mbeki demitiu seu antigo aliado, que logo enfrentou seu próprio julgamento por corrupção e também foi acusado de estuprar uma jovem amiga da família HIV positiva.

Jon Hrusa/EFE - 13.nov.2007 
Delegados do Congresso Nacional Africano durante sessão que elegeu novo presidente

Em maio de 2006, Zuma foi inocentado das acusações de estupro e, poucos meses depois, seu processo por corrupção foi derrubado por questões técnicas. Mesmo assim, os promotores estão se preparando para voltar a acusá-lo. Zuma e seus defensores alegam que essas dificuldades legais foram obra de Mbeki, para impedir Zuma de minar a possibilidade de um terceiro mandato do presidente como líder do CNA.

Mbeki, que é constitucionalmente proibido de servir um terceiro mandato como presidente da África do Sul quando seu atual mandato terminar, no início de 2009, esperava continuar como presidente do partido. Ele então poderia escolher um sucessor e continuar no poder por trás do trono presidencial.

Essa batalha pela liderança do partido rachou o CNA, gerando facções, divisão e ódio aberto que geraram a pior crise do movimento de liberação de Mandela, Tambo e Luthuli.

A vitória de Zuma é mais um reflexo dos fracassos de Mbeki do que das qualidades de Zuma. Enquanto Zuma é um populista, "homem do povo", Mbeki tem sido um tecnocrata distante e autocrático nos quase 10 anos que dirigiu o CNA.

Na modernização do CNA em partido governante, Mbeki transformou-o de um amplo templo de debate interno vibrante para uma loja fechada na qual um pequeno círculo de aliados confiáveis tomam decisões. Um mestre de intriga por trás das cenas, Mbeki raramente ouve a conselhos externos, toma críticas muito pessoalmente e difama os que considera estar contra ele.

Esse estilo de liderança infeliz levou um homem inteligente a muitas tolices importantes. Sua negação contínua que o HIV causa Aids custou dezenas de milhares de vidas sul-africanas desnecessariamente. A "diplomacia silenciosa" diante da tirania de Robert Mugabe em Zimbábue fez da Nova Parceria para o Desenvolvimento da África, de Mbeki, uma piada.

A área que Mbeki considera seu maior sucesso foi semente de seu fracasso político. Em uma tentativa de equilibrar a aceitação em uma economia conformista global com a necessidade de justiça social, Mbeki gastou significativo capital político impondo uma estrutura ortodoxa econômica ao país.

Apesar da dura oposição de aliados do CNA do movimento sindicalista e do Partido Comunista sul-africano, a estrutura sem dúvida restaurou a estabilidade e o crescimento para a economia anêmica do apartheid. Entretanto, não conseguiu fazer grandes estragos no desemprego formal do país de 30%. A educação independente de raça, a construção de moradias de baixo custo e o fornecimento de serviços básicos melhoraram as vidas da maior parte dos sul-africanos negros, mas muito lentamente.

Ao mesmo tempo, a política de reforço da economia negra viu a emergência de uma classe média, mas também foi distorcida e gerou uma pequena elite de oligarcas negros muito ricos, cuja maior parte é bem conectada politicamente.

A recusa de Mbeki de permitir um debate aberto nessas áreas de política importantes dentro do CNA foi chamada publicamente de insensibilidade arrogante diante do impacto do crime violento que vem maltratando o país. A paranóia de Mbeki cresceu junto com sua distância e isolamento. Ao reprimir a dissensão e criar uma mentalidade que "o líder sabe mais", ele gerou um ambiente de medo e clientelismo no qual a lealdade é a única moeda confiável.

Os defensores sindicalistas e comunistas de Zuma proclamaram-no "homem da esquerda" que vai mudar a política econômica em favor dos pobres. Mas nada em seu mandato como ministro de economia da província nem em seus poucos pronunciamentos programáticos até hoje sugeriu que seja esse o caso. Mesmo assim, ele muito rapidamente vai sofrer pressão desses aliados por um retorno ao seu apoio. Seus patrocinadores financeiros secretos provavelmente terão expectativas bem diferentes.

Essas escolhas contraditórias talvez sejam adiadas por um tempo, entretanto, porque mesmo que Zuma seja presidente do CNA, nada garante que terá a presidência do país nas eleições gerais de abril de 2009. Em novembro, Zuma perdeu dois recursos que tentavam suavizar aspectos das provas contra ele. As vitórias expandiram o caso, e os promotores estão confiantes, especialmente depois da condenação de seu assessor financeiro. Portanto, é provável que ele volte a ser acusado no próximo ano.

O cenário mais provável é que Zuma logo seja embrulhado em um processo de corrupção e, se for culpado, seja condenado à prisão sem direito a fiança e constitucionalmente proibido de concorrer à presidência do país. Com Mbeki desacreditado pela derrota, isso daria espaço político para um terceiro candidato emergir.

Somente quando Mbeki e Zuma forem removidos da disputa que o CNA pode esperar revitalizar a si mesmo e a política sul-africana. O país tem uma necessidade desesperada de um governo focado, iluminado e eficiente para abordar as catástrofes associadas de Aids, pobreza e criminalidade.

* Andrew Feinstein, ex-membro do CNA, é autor de "After the Party: A Personal and Political Journey Inside the CNA", ou "depois da festa: uma jornada pessoal e política dentro do CNA". A vitória de Jacob Zuma como presidente do CNA foi mais um reflexo dos fracassos do presidente Mbeki do que das qualidades do candidato. Enquanto Zuma é um "homem do povo" populista, Mbeki tem sido um tecnocrata autocrata distante Deborah Weinberg

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