Populismo ameaça liberalismo no centro e no leste da Europa

Ivan Krastev*

A mudança do liberalismo para o populismo no centro e no leste da Europa não é tão ruim como parece. Enquanto os ex-dissidentes dominam a política e os ex-comunistas dominam os negócios, o populismo dá uma voz aos derrotados do período de transição.

A era liberal aberta em 1989 na Europa Central decisivamente se fechou no curso de 2007. O restante da Europa finalmente despertou para o fato de o populismo e a intolerância florescerem na região. O ameaçador e populista governo de Jaroslaw Kaczynski na Polônia foi inesperadamente derrotado na eleição geral de outubro, mas o comportamento de seu partido Lei e Justiça, ao exercer o poder, serviu de alerta para o restante do continente sobre as sombrias tendências na Europa Central.

Segundo a pesquisa global Voice of the People de 2006, a Europa Central é atualmente a região do mundo onde os cidadãos são mais céticos em relação à democracia. Os partidos liberais fundados por antigos dissidentes têm sido marginalizados, o discurso liberal sobre direitos está desgastado e o liberalismo centrista sob ataque, como filosofia e método. As novas realidades na Europa Central são a polarização e o populismo.

A Hungria está em estado de guerra civil entre o manipulador governo pós-comunista (que provocou revolta no ano passado ao admitir que mentira "de manhã, à tarde e à noite") e a oposição populista anticomunista, que está de portas abertas para a extrema direita.

A coalizão eslovaca é uma estranha mistura de nacionalismo, provincianismo e defesa do bem-estar social. Na República Checa não houve grandes problemas com o governo no ano passado, e depois de eleições não-conclusivas, os partidos não conseguem montar um gabinete há quase sete meses.

Na Romênia, o presidente e a maioria parlamentar estão envolvidos em uma guerra aberta, com arquivos de polícia secreta da era comunista e arquivos de corrupção da era pós-comunista como armas preferidas. Na Bulgária, o nacionalismo extremado está crescendo e os partidos estabelecidos estão se acomodando em vez de combatê-lo.

Contexto histórico
As crescentes tensões entre a democracia e o liberalismo na Europa Central, a ascensão da "intolerância organizada," as crescentes exigências de uma democracia direta e a proliferação de líderes carismáticos capazes de mobilizar a ira popular - tudo isso clama por comparações com a crise da democracia na Europa entre as guerras mundiais.

E no entanto essa "interpretação Weimar" da crise na Europa Central é incapaz de descrever a real situação. Nos dias atuais na Europa Central, ao contrário da Europa da década de 1930, não existe uma alternativa ideológica para democracia. As economias dos países da região não estão estagnadas, mas sim florescendo. O padrão de vida está se elevando e o desemprego caindo.

A entrada dos países da Europa Central na UE e na Otan trazem uma salvaguarda para a democracia e as instituições liberais. As ruas de Budapeste e Varsóvia hoje estão inundadas não de formações paramilitares, mas sim de agitados consumidores em busca de uma liquidação final. E na última grande contenda eleitoral da região, na Polônia, o extremismo populista foi, no final das contas, decisivamente derrotado.

O paradoxo da Europa Central é que a ascensão do populismo é um resultado não dos fracassos, mas do sucesso do liberalismo pós-comunista. Ao apresentar suas políticas não apenas como "boas", mas como "necessárias", as elites liberais deixaram suas sociedades sem meios plausíveis para manifestar seu descontentamento. O período de transição foi marcado pelo excessivo controle da elite sobre os processos políticos e pelo temor de políticas de massas.

O acesso dos países do centro da Europa à UE em 2004 virtualmente institucionalizou a hegemonia da elite sobre o processo democrático. O Parlamento perdeu seu lugar como instância de importantes debates políticos e foi reduzido a uma instituição preocupada com a adoção da "acquis communautaire" (o acervo comunitário - base comum de direitos e obrigações dos países-membros) da UE. Para os cidadãos comuns, as democracias em transição eram regimes nos quais eles poderiam mudar o governo, mas não os programas.

No debate corrente, "populismo" geralmente se refere ou a um discurso emocional, simplista e manipulador dirigido aos sentimentos de coragem das pessoas, ou a políticas oportunistas, destinadas à "compra" de apoio. Mas será que deveria ser proibido nos programas democráticos apelar às paixões populares? E quem decide quais políticas são "populistas" e quais são "íntegras?"

Desigualdades
O que vemos na Europa Central e no Leste não é tanto uma crise de democracia, ou mesmo de liberalismo, mas o antagonismo popular em relação à política do período de transição. No período de transição, sociedades pós-comunistas tiveram sucesso na transformação pacífica do sistema comunista, na construção de instituições democráticas e de mercado, produzindo crescimento econômico e, finalmente,aderindo à UE. Ao mesmo tempo, a transição levou a uma rápida estratificação social que prejudica muitos e privilegia poucos. Vidas foram destruídas e esperanças traídas. O fato de que os maiores vencedores na transição tenham sido os instruídos e bem relacionados membros da antiga "nomenklatura" não acrescenta nada à aceitação moral da transição.

O pecado original das democracias pós-comunistas é que elas se instalaram não como o resultado do triunfo do princípio da igualdade social, mas como a vitória de um consenso anti-igualdade social unindo a elite comunista e a elite contrária, anticomunista. Os ex-comunistas eram contra a igualdade social por causa de seus interesses. Os liberais eram contra a igualdade por causa de sua ideologia.

Ao contrário da Alemanha de Weimar em 1933, um parâmetro melhor de comparação para os recentes acontecimentos na Europa Central é a Alemanha Oriental de 1968. Hoje, como em 1968, a crise veio depois de duas décadas de recuperação econômica e um período de amnésia. A turbulência era inesperada e assustadora. A crise em 1968 teve suas raízes não no fracasso das instituições democráticas, mas no sucesso do projeto de modernização da Alemanha Ocidental no pós-guerra e na democratização.

Nessa época, como hoje, falava-se a respeito do vácuo das instituições democráticas e na necessidade de uma revolução moral. Na Alemanha de então, como na Polônia de hoje, havia apelos por uma "nova república" e a rejeição das políticas de pragmatismo frio. Na época, como agora, existe uma importante transformação no contexto cultural e geopolítico e as pessoas exigem uma democracia mais direta.

Aqui, porém, acabam as semelhanças. A atual revolução tem a forma das sensibilidades conservadoras. Os novos "revolucionários" na Europa Central temem não o autoritarismo do estado mas o excesso de cultura pós-moderna e o colapso dos valores tradicionais. Eles são nostálgicos, não utópicos; defensivos, não visionários. Em 1968, o espírito da época era individualista, emancipatório e libertário.

Democracia na União Européia
Pensar em termos de 1968 nos convida a encarar a crise do liberalismo na Europa Central não como uma crise particular das democracias pós-comunistas, mas como um aspecto da transformação global da democracia na UE. O centro da crise não é um choque de princípios contrapondo a maioria democrática como incorporado pelos populistas contra o constitucionalismo liberal defendido pelos liberais. E em vez disso, o choque entre o racionalismo liberal representado pelas instituições da UE e pela revolta populista contra a irresponsabilidade das elites.

Para se prevenir de uma mobilização anti-capitalista, os liberais excluíram com sucesso o discurso anti-capitalista, mas ao fazer isso, abriram espaço para a mobilização política em torno de questões simbólicas e de identidades, criando as condições para sua própria destruição. A prioridade dada à consolidação do capitalismo sobre a democracia está no centro da ascensão da intolerância democrática na região. Quanto mais racionais se tornaram as políticas econômicas, mais se arraigou uma política eleitoral irracional. A exclusão da política econômica do processo democrático, combinada com a revolução nos meios de comunicação e entretenimento, corroeu as fundações racionalistas das políticas liberais.

A morte das grandes exposições ideológicas e da hegemonia de um centrismo de terceira via transformaram profundamente a política democrática. As eleições não oferecem mais uma escolha entre visões do mundo concorrentes; em vez disso, elas cada vez mais assumem a forma de referendos sobre as elites - e o assassinato ritual dos governantes no poder. Os escândalos exerceram um papel fundamental nessa transformação da política. A obsessão dos populistas pela corrupção é a expressão mais poderosa dessa nova compreensão do significado da política. As novas maiorias populistas concebem as eleições não apenas como uma oportunidade para escolher entre programas, mas como uma revolta contra minorias privilegiadas - no caso da Europa Central, as elites corruptas e moralmente corruptoras de "outros", tais como minorias étnicas ou sexuais.

O populismo não é mais meramente uma característica de certos partidos. É o novo requisito da política na Europa. O resultado é um tipo de política onde o principal conflito estrutural não é entre esquerda e direita ou entre reformistas e conservadores. O real conflito é entre elites que cada vez mais suspeitam da democracia e uma população enraivecida, cada vez mais hostil ao liberalismo.

*Ivan Krastev é presidente do Centro para Estratégias Liberais em Sofia, Bulgária Claudia Dall'Antonia

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