"Olhem quanta coisa eu consigo ver!"

Mark Cousins
da Prospect Magazine

No começo do cinema, o público devia se sentir gritando, "Olhem quanta coisa eu consigo ver!" A frase, e seu ponto de exclamação, expressam o prazer de descobrir novas categorias de experiência visual no cinema: descrições de viagens com imagem em movimento de camelos nas pirâmides ou o esplendor czarista na Rússia no final da década de 1890, close-ups das faces resplandecentes de algo chamado uma estrela do cinema no final da década de 1910; as arrebatadoras fantasias em Technicolor da década de 1930; os efeitos de "metal líquido" gerados por computador de "O Exterminador do Futuro 2" no início da década de 1990. A imagem do cinema começou com uma imitação monocromática descorada, imprecisa, trêmula da luminosidade da vista humana, e desde então tem avançado para transmitir tais detalhes visuais na tela.

Nos últimos anos, graças à tecnologia digital, tal progresso se acelerou ao ponto de que agora, eu grito "Olhem quanta coisa eu consigo ver!" pelo menos uma vez por ano. As tecnologias de filmagem e projeção atuais têm um poder sem precedentes de mimetismo visual. Talvez acelerar o cinema jamais venha a se equiparar às complexidades do nervo óptico de realmente testemunhar um acontecimento, mas estão chegando perto.

Digo isso porque acabo de assistir a "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", com os astros Brad Pitt como James e Casey Afflleck como Ford. Assim que começou, senti que estava em uma floresta do Missouri em 1881. A banda sonora trazia os cicios e zunidos do som daquela floresta e a fantasia era tão clara que eu me senti como se alguém tivesse lavado o vidro do meu carro ou dado melhores lentes de contato. Eu via a textura da casca nos tocos das árvores, o tecido das roupas dos personagens e os poros na pele dos atores com detalhes notáveis.

Vale a pena mencionar as razões técnicas para que isso acontecesse, pois isso mostra que o cinema está a meio caminho de sua grande transição de fotoquímica a digital. O filme foi rodado por Roger Deakins em super-35 mm, um método segundo o qual a área do negativo de 35mm geralmente reservada para a trilha sonora é em vez disso alocada para a imagem, permitindo cerca de um terço a mais de informação visual que o 35 mm padrão, ainda a norma do setor. Então, o filme foi escaneado para um computador, criando um intermediário digital. Como algumas das cenas foram filmadas com a luz do dia, isso permitiu a Deakins e à sua equipe que improvisassem esse intermediário, acrescentando luz aos rostos e outros elementos que poderiam, de outra forma ficar visíveis apenas parcialmente.

Finalmente, na apresentação da qual participei, o filme foi projetado digitalmente, removendo quaisquer dos pequenos balanços ("movimento de portão" ou "trama") que às vezes ocorrem em um projetor de filmes e são ampliados na tela e garantindo que o foco estivesse totalmente ajustado.

Nem o super-35, ou o intermediário digital nem as projeções digitais são completamente novas, mas quando são usados juntos, consegue-se uma resolução e pureza visual sem precedentes. Comparado a qualquer fotograma de "Jesse James," o belo filme de 1978 de Terrence Malick, "Cinzas do Paraíso" parece ter sido desenhado em suaves crayons pastel.

Mas a tecnologia é apenas metade da história. "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" baseia-se numa novela de 1983, com o mesmo nome, de Ron Hansen, que segundo diz Deakins, "está cheio de minúcias e realmente o transporta para o local da ação."

"O roteirista-diretor do filme, o neo-zelandês Andrew Dominik estava determinado a retratar esse relato pormenorizado e o faz de várias formas. As cenas são longas. Existem pausas entre falas do diálogo. A câmera em geral faz close nos rostos de Pitt e em particular, em Affleck. Nós percebemos os atores pensarem antes de falar. Não somente vemos os movimentos faciais, mas também os pequenos músculos em torno do canto de seus olhos. O personagem de Affleck é o super-fã do então legendário Jesse James. Nós acompanhamos, em close, como ele quase desmaia na presença de James, suas pálpebras baixando arrebatadamente, estáticas, como na escultura de Bernini, "O Êxtase de Santa Tereza."

Esse famoso encontro entre dois homens tem fascinado os cineastas há décadas e Dominik não quis filmar apenas os momentos dramáticos mais importantes. Ele estava interessado na delicada micropsicologia de todo o tempo que eles passaram juntos, mesmo que isso tenha se limitado a apenas sentar-se à mesa ou em torno de fogueiras.

O significado do livro estava nos seus detalhes - o cinema hoje pode fotografar o detalhe como nunca antes, e portanto Dominik, forçou um estúdio, adepto do star-system que adora ostentação, edição rápida e corridas de automóveis, a adotar um retrato nada habitual, resignado, pontilhista, de dois homens percebendo lentamente que o destino de cada um estava nas mãos do outro.

Vemos como Ford começa a se melindrar com o fato de que sua adoração obcecada não é correspondida. O devoto sente que, uma vez que o seu fervor "criou" Jesse, sua ira poderá eliminá-lo. E então Ford atira nele e Jesse colabora com sua própria morte, uma vez que está cansado de ser uma lenda, mas compactua ao que sabe que vai se tornar um fim legendário. Nós vemos esses pensamentos nos rostos de Affleck e Pitt. As minúcias "nos transportam para aquele mundo."

Talvez seja o ritmo lento que tenha feito com que o filme de US$ 30 milhões, estrelado por um dos atores mais famosos do mundo, arrecadasse menos de US$ 4 milhões nos Estados Unidos. Talvez seja o seu título afetadamente artístico. O fato de ser sobre a patologia da admiração dos fãs deve ser uma visão irritante para os admiradores de Brad, especialmente porque ele parece estar interpretando a si mesmo.

No entanto, apesar das reclamações de muitos dos críticos dos EUA e da Grã-Bretanha que é lento e tedioso, "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" é uma obra-prima e um pequeno marco na história do humanismo cinematográfico.

Desde "A Paixão de Joana D'Arc" (1928), pelo menos, os filmes tentaram nos levar para outro lugar, dentro das mentes dos personagens, constantemente olhando para os rostos. A tecnologia dos filmes nos permite manter esse olhar, e ir além dessa visita, mais claramente que nunca. Na era do Facebook, os filmes de rostos são espantosos.

Mark Cousins é o autor de "The Story of Film." A tecnologia digital está permitindo que o cinema capture a imagem humana com uma nitidez sem precedentes. Na era do Facebook, filmes com a face dos atores são espantosos. Tradução: Claudia Dall'Antonia

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