O que Gordon Brown deveria fazer na sequência de seu governo na Grã-Bretanha

David Goodhart*

Como é que o primeiro-ministro Gordon Brown pode acabar com a sensação de decadência e de falta de rumo que paira sobre o seu governo? Uma resposta para a mistura de má sorte e má ponderação que o tem mantido calado é prosseguir agindo como se nada tivesse mudado muito. E isto na verdade é algo menos tolo do que parece ser. Os estados de espírito mudam, um excesso de ativismo político dá a impressão de pânico, e, de toda maneira, a população ainda não parece estar inteiramente convencida quanto à alternativa conservadora.

Por outro lado, existe uma sensação de limbo político, de que a década Blair terminou, sem que entretanto nenhuma outra nova história emergisse para substituí-la. A meta de Brown em 2008 é modificar o discurso político, sem o auxílio de uma eleição, e fazendo isso de uma forma suficientemente decisiva para que as pessoas tenham mais uma vez a sensação de que existe um ímpeto político.

Existem diversas coisas no Reino Unido moderno que não funcionam muito bem; sendo que algumas delas estão além do alcance da política em uma sociedade liberal. Mas felizmente para Brown, há uma abundância de idéias políticas não utilizadas que poderiam mudar o país para melhor. O meu programa imaginário de reforma doméstica pode ser dividido em três partes: infra-estrutura, serviços públicos e constituição - mais cidadania.

Dylan Martinez/Reuters - 10.jan.2008 
O primeiro-ministro Gordon Brown (dir.) conversa com o jogador de futebol David Bekham

O Reino Unido não é mais muito talentoso quando se trata de grandes projetos de infra-estrutura. Uma razão para isso é o fato de o país ter alta densidade demográfica, o que torna a maioria dos projetos mais caros e legalmente complexos do que em países europeus comparáveis. Mas os grandes projetos - quando eles atendem nitidamente a um objetivo útil - agradam a imaginação nacional e dão uma sensação de que o país está falando para si próprio através das gerações.

Existe um projeto do qual o Reino Unido necessita bastante. Este é o único grande país da Europa que carece da sua própria ferrovia doméstica de alta velocidade. É absurdo que, a partir de Londres, sejam necessárias cinco horas para se chegar a Glasgow, e quase três quando o destino é Manchester. Birmingham deveria estar a uma hora de viagem, e Glasgow a no máximo três. Isso está relacionado a um outro grande projeto de infra-estrutura - a renovação do setor energético do Reino Unido. Aqui o governo já se encontra na rota certa, tanto no que diz respeito ao seu apoio à energia nuclear quanto ao seu novo entusiasmo pela exploração da energia eólica em usinas instaladas no oceano. Esta última opção, em particular, é algo que se harmoniza com as ansiedades de ordem ambiental e que poderia capturar a imaginação daquela que já foi uma nação marítima dotada de uma longa costa.

A segunda parte de um novo programa para o governo diz respeito ao que fazer a seguir quanto à reforma do serviço público. Este tem sido um campo político tão repleto de iniciativas governamentais que é difícil não se ter uma sensação de que tudo são idéias velhas, mesmo quando se diz algo novo e agradável. Falar menos e fazer mais poderia ser uma diretriz simples. Mas existe uma área importante e não reformulada na qual os cidadãos necessitam desesperadamente de mais opções - atendimento na área de clínica geral no serviço de saúde.

De forma mais genérica, atualmente a retórica sobre a reforma no serviço público deveria dizer menos respeito aos métodos - aqui o pragmatismo deveria imperar; reformas no estilo de mercado e alternativas onde elas funcionam - do que às pessoas que necessitam de serviços melhores, especialmente o terço da população que possui menor renda.

O conjunto final de reformulações diz respeito à reforma constitucional e à cidadania, e precisa ir bem além da proposta anêmica apresentada por Brown em julho. Essas reformas têm que abordar várias questões ao mesmo tempo: o antigo problema do excesso de centralização, o declínio da confiança e da participação na política, a questão West Lothian e, finalmente, a crença de que a cidadania britânica não é suficientemente valorizada ou protegida em uma era de migração em massa.

Mas as reformas constitucionais e de cidadania necessitam ser visíveis e "populistas". Uma dessas iniciativas seria a adoção de prefeitos eleitos diretamente, dotados de orçamentos modestos, em todas as localidades com mais de 50 mil habitantes. De uma só tacada isso tornaria a política de âmbito local mais significativa. Quando os prefeitos exercessem pressões para que as escolas, hospitais e forças policiais locais apresentassem melhor desempenho, entre outras coisas, eles atuariam como o elo que falta entre a política de âmbito local e os programas nacionais de investimentos.

A participação cada vez menor na política não é um desastre tão grande quanto imaginam muitos membros da classe política - a maioria das pessoas vê a política como um mal necessário, e não como uma forma de auto-expressão. Não obstante, se a participação nas eleições nacionais continuar diminuindo, haverá um problema de legitimidade política para o partido que estiver no governo.

Este é o momento de adotar o voto obrigatório. Isso poderia certamente incluir uma opção do tipo "nenhum dos candidatos ou partidos acima" para aqueles que desejarem protestar contra o sistema inteiro. Os eleitores poderiam também assinalar um quadrado para indicar que partido escolhem para receber verbas do Estado. Finalmente, com os dois grandes partidos enfrentando um declínio histórico e não mais conectados de maneira tão próxima a interesses ou ideologias nítidos, é hora de trocar a clareza e a eficiência do sistema de maioria simples pela maior justiça inerente à representação proporcional. Deveria haver um plebiscito sobre isso após a próxima eleição.

Finalmente, segundo as palavras de Jonathan Sacks, o rabino chefe, o Reino Unido passou a se parecer muito com um "hotel", no qual os cidadãos, tanto novos quanto velhos, mantêm uma relação em grande parte instrumental com o país e o Estado. Os direitos, deveres e rituais da cidadania necessitam ter um peso maior - de fato, existe uma argumentação bem fundamentada para se fazer com que a cidadania seja uma exigência normal para a residência quando o indivíduo ficar aqui por mais de cinco anos. Um feriado nacional britânico é algo que já passou da hora de ser instituído.

As medidas acima concluem as da era Blair ao mesmo tempo em que apontam para novas direções. Com exceção dos projetos de infra-estrutura, elas custariam pouco, se é que custariam algo. Algumas medidas beneficiam os conservadores, mas outras ajudam os trabalhistas. Tomadas em conjunto, elas seriam uma resposta a alguns dos problemas do Reino Unido e proporcionariam um senso de direção. E se Gordon não aproveitar a chance, eu ficaria feliz em ver o programa ser adotado pelo próximo governo conservador ou liberal-democrata.

*David Goodhart é editor da "Prospect" UOL

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