EUA correm o risco de se tornar uma plutocracia, defende intelectual

Michael Lind*

Quem ler na imprensa séria os artigos sobre a situação dos Estados Unidos poderá ser desculpado por acreditar que o país está rumando para uma série de crises profundas. Essa impressão é exacerbada pelo desaquecimento econômico e pelas eleições presidenciais primárias, nas quais os candidatos anunciam planos ousados para salvar a nação do desastre.

Mas até mesmo em períodos mais normais há três mitos onipresentes a respeito dos Estados Unidos que fazem com que o país pareça ser mais fraco e caótico do que de fato é. O primeiro mito, de natureza preponderantemente conservadora, é a idéia de que as rivalidades raciais e étnicas estão fragmentando os Estados Unidos. O segundo, que tem um cunho principalmente liberal, é o de que os Estados Unidos serão em breve conquistados pelos fundamentalistas religiosos. O terceiro mito, de caráter econômico e adorado pelos centristas, é o de que a aposentadoria dos baby boomers (indivíduos nascidos entre 1945 e 1964, período de grande crescimento demográfico nos Estados Unidos) levará o país à falência devido ao aumento explosivo dos custos das pensões e benefícios sociais.

Comecemos pela suposta "balcanização" dos Estados Unidos segundo raça e etnia. O mito da maioria não branca baseia-se no fato de tratar o termo "hispânico" como o nome de uma raça. Mas e se, em vez de colocarmos todos os hispânicos em uma mesma categoria (tanto os brancos quanto os não brancos), puséssemos todos os brancos em um só grupo (tanto os não hispânicos quanto os hispânicos)?

No censo de 2000, 48% dos hispânicos identificaram-se como "brancos", 2% como negros, 6% como pertencendo a duas ou mais raças e 43% como membros de "alguma outra raça". Vamos assumir, para fins de argumentação, que o padrão de auto-identificação racial dos hispânicos seja o mesmo em 2050. Se 40% da população hispânica em 2050 definir-se como "branca" e esse grupo for acrescentado à categoria branca não-hispânica, então o grupo formado pelos brancos não hispânicos e brancos hispânicos naquele ano corresponderá a 61,8% da população. Assim, em vez de um declínio da população branca não hispânica de 69,4% em 2000 para 50,1% em 2050, haveria uma redução mais moderada da maioria branca de 74,5% em 2000 para 61,8% em 2050.

Até mesmo isso subestima a proporção da população "branca" em 2050, por ignorar os casamentos inter-raciais. Embora menos de 10% dos hispânicos nascidos no exterior casem-se com indivíduos não hispânicos, por volta da terceira geração a proporção de casamentos com indivíduos de outros grupos étnicos sobe para 50%. Se os filhos de hispânicos e brancos não hispânicos forem tratados como brancos, então em 2050 a maioria branca será ainda maior.

Colocando juntas esses fatores, chega-se a uma mega-tendência que é contrária à crença generalizada: quando os imigrantes mais recentes, que ainda não foram assimilados, forem levados em consideração, a tendência de longo prazo dos Estados Unidos é para uma menor diversidade racial, cultural e lingüística.

Assim, os Estados Unidos não desmoronarão devido a questões étnicas, como a Iugoslávia ou o Iraque. Mas será que o país será tomado de assalto pelos fundamentalistas religiosos?

Muitos observadores externos têm a impressão que os norte-americanos estão se tornando mais religiosos, enquanto os europeus ficam mais seculares. Isto simplesmente não é verdade. Os norte-americanos são bem mais religiosos do que os europeus ocidentais, mas nos Estados Unidos, não menos do que na Europa, a tendência de longo prazo é para um maior secularismo.

Em um estudo de 2001 sobre os comportamentos religiosos dos norte-americanos, pesquisadores da City University de Nova York descobriram que a proporção de norte-americanos que não professam nenhuma religião aumentou de 8,16% em 1990 para 14,17% em 2000. Os norte-americanos que não têm religião alguma formam atualmente o terceiro maior grupo em termos de crença nos Estados Unidos, após os católicos e os batistas, e o número desses indivíduos, em torno de 30 milhões, é quase tão grande quanto o de batistas, que é de aproximadamente 34 milhões.

Além do mais, o número de norte-americanos que, ainda que acreditem em Deus, não pertencem a qualquer organização religiosa, passou de 46% em 1990 para uma maioria de 54% em 2000, segundo o estudo.

Quanto o assunto é o comparecimento de fato à igreja, e não as vagas crenças espirituais, a lacuna entre os Estados Unidos e a Europa diminui ainda mais. Segundo a pesquisa Gallup Millennium sobre posturas religiosas, o número de norte-americanos (neste caso os Estados Unidos mais o Canadá) que freqüentam a igreja pelo menos uma vez por semana é de 47%, comparado à média européia ocidental de 20%. E alguns especialistas dizem que esse número é exagerado, porque muitos norte-americanos sentem-se embaraçados em dizer aos entrevistadores que raramente freqüentam a igreja.

Assim, os Estados Unidos não estão mais propensos a tornarem-se uma versão protestante do Irã teocrático do que de transformarem-se em uma Iugoslávia. Mas, segundo as idéias convencionais, os Estados Unidos ainda correm o risco de ir à falência e de sofrer um colapso econômico como resultado dos custos iminentes representados pelas pensões governamentais pagas à geração de baby boomers aposentados. Mas quando os alarmistas falam sobre uma "crise de direitos sociais" nos Estados Unidos, eles misturam dois programas - o social security (sistema público de pensões) e o Medicare (o sistema de saúde pública).

O crescimento do social security, como parcela do produto interno bruto, será modesto até o final deste século, e se poderá corrigir qualquer déficit com pequenos ajustes na forma como este programa é pago.

Existe um problema maior com o Medicare, cujos custos, caso continuem aumentando como agora, devorarão um adicional de 10%, ou mais, do produto interno bruto até meados do século. Mas o problema orçamentário do Medicare é um reflexo da inflação nos custos do sistema de saúde que está afetando toda a economia dos Estados Unidos, tanto a privada quanto a pública. A má notícia é que não existe um consenso quanto às soluções para a inflação dos custos do sistema de saúde, e muito menos quanto às causas do problema. É muito mais fácil ignorar o câncer em difusão que são os custos do sistema de saúde do que se concentrar na dor de dente que é o financiamento do social security no longo prazo.

Alegações relativas a uma "crise" giram em torno de duas datas: 2017, quando o superávit do social security acabará e o programa tornar-se-á simplesmente um sistema de pagamento imediato, baseado na arrecadação anual de impostos; e 2041, quando as receitas obtidas com impostos serão menores do que os gastos. Mesmo em 2041, o social security será capaz de pagar a maior parte das suas obrigações. Então, a crise se resume ao fato de que os impostos terão que ser aumentados ou os benefícios reduzidos antes de 2041, a fim de suplementar um sistema de forma geral saudável.

Além do mais, o uso de datas como 2017 e 2041 transmite uma impressão enganosa de precisão a alegações que na verdade são extremamente dúbias. Isso fica explícito no fato de o governo dos Estados Unidos revisar regularmente a data do suposto apocalipse do social security, à medida que vai reavaliando as suas suposições.

É quase certo que os cálculos "intermediários" nos quais se baseiam as atuais estimativas sejam irrealistas. Eles assumem um baixo índice de crescimento da produtividade - de apenas 17% - nos Estados Unidos no decorrer dos próximos 50 anos. Isto é apenas um pouco mais elevado do que a média de 1,5% no longo período de baixo aumento de produtividade entre 1973 e 1995.

Mas de 1996 a 2006, o crescimento da produtividade dos Estados Unidos subiu, ficando na maioria dos anos entre 2% e 3%.

O aumento de produtividade sofreu uma redução após 2004, mas cresceu no último trimestre, chegando a 6,3%. Ninguém sabe se a retomada do elevado aumento de produtividade na última década foi uma anomalia ou o início de um novo padrão. O que importa é que se a produtividade norte-americana aumentar em um ritmo próximo da média histórica registrada de 1945 a 2008, o quadro para a solvência do social security será bem mais animador.

Caso não ocorra nenhuma catástrofe, em 2050 os Estados Unidos estarão muito mais integrados racialmente, permanecerão bastante homogêneos sob o ponto de vista cultural e lingüístico; e serão bem mais ricos, capazes de arcar facilmente com os custos do social security e de um sistema de saúde decente.

Por que existe tal lacuna entre as idéias convencionais a respeito do futuro dos Estados Unidos e as tendências reais? Parte da resposta envolve a tendência ao sensacionalismo que aflige toda a mídia comercial. Um outro fator é a distorção dos fatos por parte de grupos de interesses especiais. Por exemplo, o mito da crise do social security tem sido disseminado por, entre outros, indivíduos da indústria de seguros que gostariam de ver este bem-sucedido programa de pensões públicas privatizado.

Os Estados Unidos estão enfrentando grandes desafios - mas não se tratam daqueles desafios geralmente identificados. A balcanização racial e lingüística de longo prazo pode não ser um problema, mas a desigualdade de classes nos Estados Unidos está aumentando; atualmente há menos mobilidade social nos Estados Unidos do que na Europa. Os Estados Unidos não correm o risco de transformarem-se em uma teocracia, mas há o perigo de que o país se torne uma plutocracia. O social security não ameaça levar o país à falência, mas a inflação dos custos do sistema de saúde é um perigo concreto.

Os Estados Unidos não serão tão cedo eclipsados por uma outra superpotência, mas o país poderá se exaurir permitindo que os seus compromissos excedam os recursos que a população se dispõe a direcionar para a política externa. Quanto mais rapidamente os falsos problemas forem descartados, mais cedo os desafios genuínos para o futuro dos Estados Unidos serão identificados e enfrentados.

* Michael Lind é autor do livro "The American Way of Strategy" (algo como "Estratégia no Estilo Norte-Americano"). A economia dos Estados Unidos está sofrendo uma desaceleração, mas o cenário para o país no longo prazo é mais favorável do que muitos pensam UOL

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