Fosso entre cidadãos e políticos aumenta nas democracias européias

Paul Skidmore*

A filiação partidária nas democracias da Europa Ocidental caiu quase pela metade entre 1980 e 2000. A confiança da população britânica no governo caiu quase pela metade desde meados dos anos 70. Mas o declínio é mais rápido na Itália, e muito mais suecos, finlandeses, austríacos e alemães agora acham que seus políticos perdem contato com seus eleitores tão logo são eleitos do que há 30 anos.

A ubiqüidade da tendência em sociedades e sistemas políticos tão diferentes ressalta a principal objeção à sabedoria convencional sobre o desengajamento democrático -que é culpa dos governos e dos políticos. Alguns relatos se concentram em escândalos ou crises em particular que minaram a confiança da população. Outros destacam o declínio do desempenho dos governos. Segundo este ponto de vista, os cidadãos perderam a confiança no governo simplesmente porque o governo está fazendo menos para merecê-la.

O crescimento da decepção com a política dificilmente poderia ser contestado. Mas a extensão com que o desempenho ruim dos governos é responsável é muito mais questionável. Os governos podem fazer as coisas de modo diferente atualmente -dependendo mais de regulamentação e menos de controle direto- e em alguns casos fazem coisas diferentes -se tornando mais ativos em algumas áreas, menos ativos em outras- mas não está claro que no geral o desempenho deles deteriorou. Na verdade, segundo muitas medidas, os governos atualmente estão se saindo muito melhor do que seus antecessores uma geração atrás.

Logo, se o desempenho de políticos ou instituições políticas em particular, ou a saliência de crises específicas, não é a raiz do problema -qual é? Uma categoria mais plausível de explicação aponta as origens do desengajamento político na crescente riqueza e desenvolvimento econômico nas democracias maduras, e as amplas mudanças nos valores sociais que isto provocou. Estas mudanças, que foram documentadas pelo cientista político Ronald Inglehart, representam problemas para os políticos convencionais de pelo menos quatro formas.

A primeira é que os cidadãos estão mais acostumados a se virarem sozinhos. Eles têm mais liberdade do que a geração anterior sobre que empregos escolher, onde viver ou para onde viajar, sobre os bens que compram e a comida que comem, mesmo por quem se apaixonam. É fácil desprezar isto como "consumismo", mas reflete um desejo por maior autonomia e liberdade de expressão -um desejo que está na raiz de muitos dos projetos da esquerda e da direita há um século.

O segundo é que à medida que a urgência das necessidades materiais imediatas das pessoas diminuiu, as cobranças ao governo se tornaram mais variadas. Apesar da aspiração thatcherista de "recuar as fronteiras do Estado", os países europeus estão mais amplamente envolvidos em alguns aspectos de nossas vidas do que há 30 anos. Não se trata de uma conspiração burocrática; é uma resposta às exigências da população que não mais se concentram apenas nas questões básicas de empregos e impostos.

Estas questões permanecem importantes, mas se somaram a um conjunto mais amplo de preocupações "pós-materialistas" -do meio ambiente à política de identidade. Em meio a esta complexidade, os governos descobriram que se tornou muito mais difícil manter todos felizes.

O terceiro é o familiar "declínio da deferência". Com as sombras dos conflitos em massa e da insegurança econômica retiradas de suas vidas, o respeito da maioria das pessoas pelas formas tradicionais de autoridade pública diminuiu. Isto poderia ser menos problemático se fosse acompanhado por um declínio das expectativas em relação ao que a autoridade pública pode fazer. Mas na verdade ocorre o inverso: nós esperamos mais, e não menos, do governo.

O quarto é que várias instituições sociais que antes mobilizavam as pessoas a ingressarem na política, como os sindicatos e as igrejas, enfraqueceram. Novas organizações surgiram em seu lugar. Mas para atender mais eficientemente esta paisagem mudada de valores -cidadãos mais exigentes, com uma preocupação com uma diversidade maior de questões e com uma maior suspeita do governo- elas enfatizam um modelo de mudança social no qual o progresso vem da contestação do sistema em vez de trabalhar por meio dele.

Reunidas, estas mudanças apontam para o paradoxo no coração de nossa situação difícil: a ligação das pessoas com os valores democráticos nunca foi maior, mas isto é precisamente o que torna mais provável a decepção delas com as instituições democráticas formais. Há uma desconexão entre escolhas pessoais, que parecem fáceis, imediatas e diretas, e as escolhas coletivas, que parecem difíceis, lentas e enroladas.

Mas resolver uma parte do quebra-cabeça expõe outra. Por que esta desconexão parece se revelar mais dolorosamente em alguns países do que em outros? A resposta parece ter algo a ver com a cultura democrática.

A idéia de que a eficácia das instituições democráticas depende da cultura que as cerca é antiga. Mas há uma tendência de contar com uma explicação restritiva, tocquevilliana, para a origem dessa cultura. É claro, a vibração da vida associativa importa, mas como explicação sobre onde os hábitos democráticos e expectativas podem se desenvolver, é incompleta.

Em particular, ela ignora a contribuição potencial para a renovação democrática de uma variedade mais ampla de ambientes cotidianos nos quais as pessoas de fato vivem suas vidas, de suas famílias e locais de trabalho às repartições públicas. Ao dar mais poder para as pessoas do modo certo nestes domínios, alguns países parecem ter feito um melhor trabalho do que outros em aumentar o engajamento e o apetite da população por processos democráticos mais formais.

"The Everyday Democracy Index" de Paul Skidmore acabou de ser publicado pela Demos, um centro de estudos britânico. Cidadãos nas democracias ricas estão ficando mais céticos em relação ao governo e mais exigentes, levando a uma "crise de desengajamento". Isto não será revertido por reforma institucional -é melhor se concentrar na vida cotidiana da democracia George El Khouri Andolfato

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