Sem o temor nuclear, é hora de Ahmadinejad explicar a economia do Irã

De Christopher de Bellaigue*

A política interna normal foi retomada em Teerã depois das recentes declarações dos Estados Unidos de que o Irã abandonou, em 2003, seu programa de armas nucleares. Os muitos opositores de Ahmadinejad tentarão agora fazer com que ele responda por seus fracassos na área econômica.

Graças ao relatório de dezembro do National Intelligence Estimate (Estimativa de Inteligência Nacional) —o trabalho de nada menos que 16 agências do governo dos Estados Unidos— nós sabemos, ou achamos que sabemos, que o Irã tinha um programa de armas nucleares até 2003. O presidente Mahmoud Ahmadinejad saudou o relatório, como a justificativa de sua postura intransigente, enquanto outros manifestaram respeitosa indignação à sugestão de que a República Islâmica tivesse um programa ativo de armas nucleares até 2003. Por trás das disputas para ver quem tinha razão, houve um grande suspiro de alívio. Antes da publicação da estimativa, a vida pública iraniana estava sendo cada vez mais dominada pelas tensas e cáusticas disputas sobre o enfoque dado por Ahmadinejad à diplomacia nuclear, disputas das quais o presidente gostava e normalmente ganhava. Mas agora, menos de dois meses antes de os iranianos irem às urnas para eleger um novo parlamento, o presidente está em terreno menos firme: sua administração da economia.

Mesmo ao companheiros conservadores denunciaram sua política econômica como dissipadora de recursos e inflacionária, enquanto os reformistas, ou o que ainda restou deles, receiam que venham a ser barrados em seus direitos de crítica por uma instituição com poder de veto, não eleita, o conselho dos guardiães, e analisam o mérito de uma lista unificada de candidatos. Depois do relatório, a política interna foi retomada no Irã, e com isso vem a lembrança de que esse integrante do "eixo do mal" é mais democrático que qualquer outros dos países que estavam no itinerário árabe do presidente Bush.

Ahmadinejad tomou para si a questão nuclear, e conquistou notoriedade ao sugerir, logo depois de assumir o cargo, que Israel seria "varrido do mapa" mas ele pouco teve a dizer sobre assuntos internacionais durante a campanha para as eleições de 2005; chegou ao poder prometendo restabelecer um governo íntegro, redistribuir as receitas do petróleo iraniano ao cidadão comum e retornar o país ao imaculado estado revolucionário que ele desfrutava, como diz a história, na década de 1980.

Desde 2005, a receita anual de petróleo do Irã cresceu fortemente para mais de US$ 50 bilhões anuais, e as vastas somas foram direcionadas para os pobres por meio de subsídios, investimentos em projetos nas províncias e empréstimos pessoais dos grandes bancos públicos. Ahmadinejad fez pesadas retiradas no fundo de estabilização criado por seu predecessor reformista, Mohammad Khatami, como um proteção contra a recessão econômica. Grande parte do investimento de Ahmadinejad, além disso, não foi muito produtivo. O líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, defendeu que a atual taxa de crescimento do Irã —em torno dos 6%— precisa aumentar.

Enquanto isso, a inflação disparou. Segundo o banco central, em outubro passado ficou em 19%, e novas altas são esperadas. O preço das moradias cresceu ainda mais rápido, elevando os aluguéis para um nível bem acima das posses de recém-casados e beneficiando os especuladores que tanto enfureciam Ahmadinejad no passado.

O presidente costumava descrever a inflação como uma maligna ficção sonhada por seus opositores; sua reação de desprezo às queixas sobre o preço dos alimentos foi um hostil convite para que os membros do parlamento, da rica região norte de Teerã, fossem comprar seus tomates na própria vizinhança modesta. Só em novembro passado ele admitiu que seu governo não teve condições de reduzir a inflação à meta de 2008 de menos de 10%, endossada pelo líder supremo.

O presidente continua a se eximir da responsabilidade pela crise —todos e tudo, ao que parece, têm culpa, menos ele: Khatami; a obstrução do parlamento; o preço cada vez mais elevado das importações.

Classe média no chão, oposição no ar

A aparente indiferença de Ahmadinejad aos efeitos da inflação indispôs a classe média iraniana em cidades como Teerã, Isfahan e Mashhad. Esses iranianos aprenderam a agir como consumidores sob Khatami e, em menor extensão, seu predecessor, Akbar Hashemi Rafsanjani. De suas casas, que não têm mais condições de manter, muitos funcionários administrativos e empregados do setor privado vêem seus salários encolherem em termos reais e o preço da carne e das frutas subir mais rápido que a inflação, enquanto uma misteriosa e rica elite de especuladores consegue retornos fabulosos sobre seus investimentos imobiliários.

A precariedade da vida da classe média iraniana é bastante aparente, e o alvo de inveja, as televisões de plasma e os vistosos carros estrangeiros, são abundantes sob o regime flexível de importações do país. Nas palavras de Mohammad Atrianfar, um proeminente crítico de Ahmadinejad, "A oposição está no ar."

Talvez sim, mas não foram os votos da classe média que levaram Ahmadinejad ao poder, e atrai-la não será uma prioridade durante sua campanha de reeleição no próximo ano. Ahmadinejad é um populista de terceiro mundo nos moldes de seu amigo Hugo Chávez, e seus eleitores continuam sendo os pobres e os despossuídos.

Pouco à vontade entre os sofisticados de Teerã, o presidente faz assíduas incursões nas províncias. Longe da capital, em cidades que dificilmente receberiam um ministro, à vontade, com seu gabinete de acompanhante, Ahmadinejad é a principal atração, adulando grandes multidões com promessas de investimento, recebendo pedidos em pedaços de papel como um primeiro-ministro medieval e atiçando um frenesi milenar por meio de sua devoção ao Mahdi, o imã oculto do Islã Shiita, cujo retorno à Terra irá proclamar a justiça e paz perfeita.

Os métodos inconstantes de Ahmadinejad e a política econômica não convencional fizeram com que perdesse o apoio do parlamento controlado pelos conservadores, e ele tem a oposição vigorosa de políticos importantes como Khatami e Rafsanjani, junto de dois antigos líderes da Guarda Revolucionária, dois ex-negociadores nucleares e um grande grupo de importantes aiatolás.

Ele tem sido criticado por dar pouca importância aos efeitos da pressão norte-americana sobre os bancos internacionais, que cada vez mais restringem o crédito para negócios com o Irã, e sobre as empresas ocidentais de energia, que pararam de investir nos setores de gás e petróleo do Irã. Mas Ahmadinejad ainda desfruta do apoio, embora ambíguo, do líder supremo.

Fala-se que Khamenei estaria preocupado com o desempenho de Ahmadinejad no campo econômico, e ele certamente ficou descontente com o recente afastamento de Ali Larijani, o pragmático negociador chefe do Irã, em favor de um companheiro pouco conhecido. Recentemente, ele ficou ao lado do parlamento contra o presidente em uma disputa sobre falta de gás durante uma frente fria que causou dezenas de mortes. No geral, porém, o líder supremo continua a elogiar o governo em público, e a proteger o presidente no nível provado, e isso provavelmente porque Khamenei, um conhecedor profundo do sentimento público, valoriza a constante popularidade de Ahmadinejad —sem citar sua lealdade à liderança suprema e aos valores da revolução.

Sim, Ahmadinejad está com a palavra. Sua influência sobre a política, porém, é limitada, pois ele está inclinado para as partes democráticas da constituição estranhamente bifurcada do Irã, e não poderá desfrutar mais de dois mandatos consecutivos de quatro anos. O líder supremo, supremo para toda a vida, não será incomodado por tais pormenores, é ele que se deve observar, para ter uma idéia do curso que o Irã poderá seguir.

*Christopher de Bellaigue é o autor de "In the Rose Garden of the Martyrs: A Memoir of Iran," em tradução livre, "O Roseiral dos Mártires: Memória do Irã" Claudia Dall'Antonia

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