Mentor de Barack Obama para política externa defende saída rápida do Iraque

Jonathan Power

Aos 79 anos de idade, Zbigniew Brzezinzski continua sendo a figura irritada e rude que era quando foi assessor de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, de 1977 a 1981. Naquela época ele era visto como o homem que gradualmente dissuadiu Carter de manter as suas convicções mais pacifistas. Brzezinzski foi responsável pelo tom de confronto quanto o desrespeito aos direitos humanos na União Soviética. Ele argumentou na Casa Branca que os Estados Unidos deveriam armar os guerrilheiros afegãos mujahedeen para que estes combatessem os soviéticos, antes mesmo que o Exército Vermelho invadisse o Afeganistão.

Atualmente ele exerce um importante papel de conselheiro na campanha presidencial de Barack Obama, e tornou-se o crítico mais cáustico da política externa do presidente George W. Bush.

Prospect - O fim da Guerra Fria foi uma oportunidade perdida?
Zbigniew Brzezinzski -
Na era Yeltsin poderíamos ter feito mais para estimular a Rússia a iniciar uma relação com o Ocidente, ou até mesmo para enredá-la nessa relação. Isso poderia ter reduzido a atual nostalgia do Kremlin em relação ao status imperial do qual gozavam. Mas não se sabe se a Rússia estava pronta para tal relação. Aquele foi um período de grande confusão, incerteza e humilhação, portanto poderia não ter sido fácil criar uma estrutura potencialmente duradoura.

Prospect - Existe um perigo de que a Rússia possa tornar-se novamente um adversário militar?
Brzezinzski -
Eu duvido. E por um motivo: para ser um adversário militar dos Estados Unidos em escala global, a Rússia precisaria ter algum tipo de missão, uma causa ideológica. Isso me parece improvável. Além disso, a capacidade da Rússia é bem menor do que era antes. A sociedade russa tem mais expectativas para si em termos de desenvolvimento sócio-econômico, e é mais difícil negar isso em um contexto no qual os russos desfrutam do atual acesso fácil ao mundo externo. Esta postura recente de Putin é uma espécie de machismo infantil. É algo que atrasa a futura associação da Rússia com o Ocidente. Mas eu não creio que Putin tenha feito algo que nos dê motivo para preocupações sérias.

Prospect - Na sua opinião quais poderão ser as conseqüências caso Dmitri Medvedev torne-se presidente da Rússia e Putin o seu primeiro-ministro? Além de todas as outras considerações, Medvedev não seria muito jovem e inexperiente?
Brzezinzski -
Todo esse arranjo não passa de uma farsa constitucional. De qualquer maneira, poderia se afirmar que Putin era muito jovem e inexperiente quando tornou-se presidente.

Prospect - No seu último livro, "Second Chance" ("segunda chance"), você critica bastante Bush pai e Bush filho, bem como Clinton.
Brzezinzski -
Bush pai teve uma oportunidade única de resolver um grande problema regional e dar início a uma solução bilateral para um outro problema. O problema regional era o Oriente Médio. Bush não aproveitou todas as oportunidades que teve após a expulsão de Saddam Hussein do Kuwait, especialmente no que se refere ao problema palestino-israelense. Segundo, embora tenha sido diplomaticamente eficiente em lidar pacificamente com a desintegração do bloco soviético, ele não definiu nenhuma visão mais ampla que poderia ter cativado o ideário russo e ter incutido em Yeltsin e na sua equipe uma maior confiança de que poderiam fazer parte do Ocidente. É bem verdade que ele pode ter pensado em tomar essas atitudes em um segundo mandato.

Clinton foi muito mecanicista e egocêntrico no que diz respeito ao clima nacional russo em um momento de grande oportunidade. Mas devemos nos lembrar que o eleitorado dos Estados Unidos escolheu um congresso republicano que reduziu os impostos pagos pelos ricos e transformou o compromisso norte-americano para com o bem-estar da comunidade global em algo que está mais para retórica do que para a realidade. O meu capítulo sobre Bush filho é intitulado "Liderança Catastrófica". Ele caracterizou-se por uma distorção impressionante da realidade, que foi propagada demagogicamente a fim de mobilizar o apoio da população dos Estados Unidos para uma guerra desnecessária. E na minha opinião existe um risco de que a dimensão dessa guerra possa até aumentar mesmo após a saída de Bush.

Prospect - Se o sucessor de Bush for um democrata, o que você aconselharia a ele ou a ela para pôr um fim a essa situação?
Brzezinzski -
Eu rogaria ao presidente que tomasse medidas no sentido de fazer com que a guerra no Iraque tivesse uma conclusão política sem atrasos. Primeiro, começar a conversar com todos os líderes iraquianos, e não apenas com aqueles da Zona Verde, a respeito de estabelecer uma data para a saída dos Estados Unidos. Isso focaria a atenção dos iraquianos na tarefa de lidar com os seus conflitos internos de forma mais responsável. Segundo, abordar todos os vizinhos do Iraque para manter conversações regionais sobre a prestação de assistência relativa aos problemas iraquianos após a nossa partida. Todos os vizinhos, incluindo a Síria e o Irã, têm um papel para evitar que o Iraque exploda. E, além disso, tentar garantir a participação de outros países muçulmanos - Marrocos, Egito, Argélia - para prestar assistência ao Iraque pós-ocupação.

Terceiro, garantir que haja um grande esforço internacional, provavelmente envolvendo as Nações Unidas, para promover a reabilitação da sociedade iraquiana.

E paralelamente um esforço mais sério para negociar com os iranianos e uma tentativa mais determinada de pressionar Israel e os palestinos a firmarem uma paz real, e não um armistício insustentável.

Prospect - O mais perto que já estivemos de um acordo de paz amplo entre Israel e os palestinos foi durante o governo Clinton em Camp David. No entanto, o próprio ministro das Relações Exteriores de Ehud Barak disse que se fosse Arafat teria rejeitado as propostas oferecidas por serem muito vagas. Como é que você avalia Camp David?
Brzezinzski -
Não concordo com a sua afirmação de que aquilo foi o mais perto que estivemos do sucesso. Creio que Camp David 1, no governo Carter, chegou muito mais perto disso porque algo de substancial se seguiu às negociações - o primeiro tratado de paz entre Israel e um Estado árabe, o Egito. Foi isso que tornou possível o tratado de paz posterior entre Israel e Jordânia, o que significa que não existe a possibilidade de uma guerra árabe conjunta contra Israel.

Já as negociações Clinton-Barak-Arafat jamais chegaram perto de uma solução - as propostas feitas foram tão exigentes que teria sido muito difícil para Arafat aceitá-las integralmente. Creio que ele foi tosco ao dar a impressão de que estava rejeitando as propostas, quando na verdade estava paralisado. O povo norte-americano sequer entendeu que as negociações continuaram após a conclusão de Camp David.

Prospect - Vamos retornar ao Irã - a animosidade remonta à sua época, à época de Carter. Você cometeu o erro de deixar que as suas preocupações quanto à tomada dos reféns fossem anunciadas de forma desproporcional pela mídia. Essa foi a raiz da animosidade entre Estados Unidos e Irã. Segundo, após a eleição de 1997 no Irã, Clinton, temendo lobbies israelenses e iranianos no cenário doméstico, preferiu não se aproximar de um presidente iraniano mais moderado. Os Estados Unidos não jogaram com inteligências as suas cartas iranianas.
Brzezinzski -
Eu creio que você está mais correto no seu diagnóstico do fracasso de Clinton no que na sua ênfase na crise dos reféns. A crise criou um descontentamento legítimo dos Estados Unidos. O problema foi a queda do xá, e estava relacionado a algo que na época não foi bem compreendido - o legado da derrubada de Mosaddeq na década de 1950, que com o passar do tempo levou a uma coalizão dos Estados Unidos com o nacionalismo iraniano. Nós provavelmente fomos mais manipulados pelos britânicos do que percebemos na decisão de remover Mosaddeq - a sua briga de verdade era com os britânicos. Mas após a sua deposição, nós nos envolvemos em grande escala. Tornamo-nos os beneficiários do prêmio na forma de petróleo, porque os britânicos não recuperaram a sua posição proeminente. Depois viramos o alvo do nacionalismo iraniano.

Quando surgiu o desafio representado pela questão do xá, nós procrastinamos. Deveríamos ter agido com mais rapidez - ou apoiando o xá em uma tentativa de reprimir a oposição, a fim de prevenir o retorno de Khomeini, e a seguir embarcar nas reformas; ou descartando o xá muito rapidamente. Em vez disso procuramos seguir uma rota intermediária, o que criou ambigüidade.

Prospect - Mas você foi o arquiteto disso.
Brzezinzski -
Eu fui um dos co-arquitetos. Eu preferia a primeira rota. Outros preferiam a segunda. A combinação das duas não foi produtiva. Agora enfrentamos o mesmo dilema no Paquistão. Não gostamos de uma ditadura militar, mas será que temos certeza de que o populismo, talvez mesclado de fanatismo islâmico, seria melhor? Zbigniew Brzezinzski, assessor de segurança nacional do presidente Jimmy Carter - e atualmente um dos mentores de Barack Obama para política externa - discute o papel dos Estados Unidos no mundo, a urgência de assegurar uma saída rápida do Iraque e a razão pela qual Washington nunca entendeu o Irã

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