Tradição explica reinvenção do autoritarismo na Rússia moderna

Lesley Chamberlain*

Em meus dois últimos meses de renomada observação da Rússia, eu me deparei com duas suposições que parecem bastante erradas. Uma é a de que a Rússia não é mais movida pela ideologia, apenas pelo dinheiro. A outra é de que a herança da Rússia é incontestavelmente ocidental. A história da Rússia não apóia nenhuma das alegações.

A ideologia da Rússia moderna é movida pelo senso da Rússia de seu lugar no mundo. Esta ideologia tem menos a ver com o fim do comunismo e mais com a necessidade de definição da identidade russa. Ela está impregnada na cultura de que a Rússia deve a si mesma uma autodefinição clara, e que o resto do mundo deve notar. O problema que define a história intelectual russa é até que ponto o país é, ou deve ser, ocidental; e se não for, e daí?

Todo estudante de história russa conhece alguma história engraçada ou trágica que ilustra a ambivalência da Rússia em relação ao Ocidente. Catarina, a Grande, nascida na Alemanha, ficava dividida entre as normas mais civilizadas de sua cultura nativa e as necessidades da poderosa terra estrangeira da qual se tornou imperatriz. Daí sua ambivalência em relação ao Iluminismo -ao mesmo tempo em que flertava com seus luminares, ela esmagava quaisquer sinais de pensamento liberal na Rússia.

Em toda geração russa desde o final do século 18, é possível encontrar casos de intelectuais em postos mais ou menos altos que, quando confrontados com alguma idéia ocidental percebida como hostil à Rússia, descartaram seu liberalismo e se comportaram como o Estado exigia que fizessem. Uma figura típica no século 19 foi Sergei Uvarov, que como ministro do ensino regulava o grau de abertura da Rússia para o Ocidente nos anos 1830 e 1840. Edward Lucas, em "The New Cold War" (a nova guerra fria), seu novo alerta para que o Ocidente acorde para o renascimento da Rússia totalitária, cita Uvarov como o primeiro codificador de uma ideologia de Estado russa que, com seus dogmas centrais de ortodoxia, autocracia e nacionalismo, sobreviveu até hoje.

O que mudou Uvarov de um liberal europeu para um policial russo? Afinal, ele foi o homem que fundou a Universidade de São Petersburgo e o ensino moderno russo semidemocrático. Eventos salientes em sua capitulação ao realismo político russo incluem a perspectiva de uma carreira arruinada e um temor genuíno de desordem política e social, inspirada na Rússia retrógrada pelos ideais progressistas ocidentais.

A luta entre as tendências ocidentalizantes e eslavófilas na cultura russa continuou por toda a era soviética. Vista por certos olhos russos, este foi um período de ocidentalização no qual a Rússia modernizou sua sociedade, política e economia, mas ao seu próprio modo, envolvendo um alto grau de disciplina centralizada. Para eslavófilos modernos como Soljenitsin (autor de Arquipélago Gulag), Stalin foi um ocidentalizador que prejudicou a essência religiosa da Rússia. Nenhuma dessas visões opostas transmite uma idéia da Rússia como um país livre no sentido ocidental.

Os últimos 20 anos na Rússia, e a aparente reinvenção atual do autoritarismo, podem consternar os liberais ocidentais, mas no contexto da história do país faz um sentido perfeito a necessidade da existência de um Putin, de que seja enormemente popular, e o de poucos se importarem com o fato dele ter manipulado sua própria sucessão para que continuasse no poder. A tradição russa tem uma palavra escrita por cima dela: ordem.

Se alguém quisesse algo além de patriotismo e ordem, poderia então se voltar ao eurasianismo. Esta ideologia, inventada como uma alternativa para o comunismo soviético por intelectuais exilados nos anos 20, concebia a Rússia como uma potência continental, que extraia sua força de sua posição geográfica e recursos naturais e compartilhava o domínio do mundo com os Estados Unidos. O fato desta visão binária estar morta é provavelmente mais preocupante para a Rússia do que percebemos, e assim que Putin iniciar seu trabalho como primeiro-ministro, as relações da Rússia com potências não-Ocidentais será uma área a ser observada.

* Lesley Chamberlain está escrevendo uma biografia de Sergei Uvarov. Aqueles que querem considerar a Rússia como ocidental ignoram sua profunda ambivalência histórica em relação ao liberalismo George El Khouri Andolfato

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