A nova intelligentsia da China

Mark Leonard*

Estamos acostumados à influência cada vez maior da China no mundo da economia - será que ela também poderá reformular nossas idéias a respeito de política e poder? A história do despertar intelectual da China está sendo bem menos documentada. Nós acompanhamos atentamente as idas e vindas da vida intelectual americana, mas quantos de nós podemos citar um escritor ou pensador chinês contemporâneo?

Dentro da China - em fóruns do partido, mas também nas universidades, em "think tanks" semi-independentes, em jornais e na Internet - se propaga o debate a respeito da direção do país: economistas da "nova esquerda" debatem com a "nova direita" sobre desigualdade; teóricos políticos discutem sobre a relativa importância das eleições e o domínio da lei; e no reino da política externa, os "neocons" da China discutem com internacionalistas liberais a respeito de uma estratégia global.

Os pensadores chineses tentam conciliar metas rivais, explorando de que forma poderão desfrutar dos benefícios dos mercados globais e ao mesmo tempo proteger a China da destruição criativa que poderão desencadear em seu sistema político e econômico. Alguns outros tentam contestar o mundo plano da globalização dos Estados Unidos com uma versão chinesa de um "mundo murado".

Paradoxalmente, o poder dos intelectuais chineses é amplificado pelo sistema político repressivo da China, onde não existem partidos de oposição, nem sindicatos independentes, nem discordância pública entre políticos, e os meios de comunicação existentes mais dão apoio ao controle social do que promovem a prestação de contas política. O debate intelectual nesse mundo pode tornar-se um substituto para a política - no mínimo porque é mais pessoal, agressivo e emocional que qualquer outra coisa que a política formal consegue congregar.

Embora seja verdade que não existe uma discussão livre sobre o fim do domínio do Partido Comunista, independência do Tibete ou os acontecimentos na Praça da Paz Celestial, há um debate relativamente aberto em importantes jornais e revistas acadêmicas a respeito do modelo econômico da China, sobre como sanear a corrupção ou lidar com questões de política externa, tais como Japão ou Coréia do Norte.

Então, estaria a intelligentsia chinesa tornando-se cada vez mais aberta e ocidental? Muitos dos conceitos em discussão - incluindo, claro, o próprio comunismo - são importados do Ocidente. E uma forma de pensar mais independente, no estilo ocidental de discurso pode estar vindo à tona, como resultado do milhão de estudantes que estudaram fora da China - muitos no Ocidente - desde 1978; menos da metade retornou, mas esse número está subindo.

No entanto, não se deve esquecer que a formação de um "intelectual" na China continua muito diferente que no Ocidente. A educação ainda está focada nas contribuições práticas à vida nacional e apesar de uma grande e continuada expansão, apenas cerca de 20% das pessoas entre 18 e 30 anos estão matriculadas em universidades. Além disso, todas essas pessoas serão atentamente monitoradas quanto à possibilidade de dissidência política, com aulas ainda compulsórias de "educação política".

A nova direita estava no centro das reformas econômicas da China nas décadas de 1980 e 1990. Mas a vida hoje ficou mais dura para os economistas por trás desse sistema.

Depois de 30 anos adotando os melhores argumentos com idéias importadas do Ocidente, a China voltou-se contra a nova direita. Pesquisas de opinião mostram que esse é o grupo menos popular na China. Cresce a inquietação pública quanto aos custos da reforma, com protestos de trabalhadores demitidos e há a preocupação quanto às demolições ilegais e salários não pagos. E as idéias de mercado estão sendo contestadas por uma nova esquerda, que defende uma forma mais branda de capitalismo. Uma batalha de idéias contrapõe o Estado ao mercado; as províncias do litoral às do interior; os ricos aos pobres.

A filosofia da nova esquerda é um produto da relativa riqueza da China. Agora que o mercado está conduzindo o crescimento econômico, eles perguntam o que deveria ser feito com a riqueza. Deve continuar sendo acumulada nas mãos de uma elite ou será que a China pode gerar um modelo de desenvolvimento que beneficie todos os cidadãos? Eles querem desenvolver uma variante chinesa da social-democracia.

O equilíbrio do poder em Pequim está sutilmente se encaminhando para a esquerda. No final de 2005, o presidente chinês Hu Jintao e o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao publicaram o "11º plano qüinqüenal", o seu projeto para uma "sociedade harmoniosa".

Pela primeira vez desde que a era das reformas se iniciou em 1978, o crescimento econômico não foi descrito como a meta prioritária do Estado chinês. Em vez disso, eles falaram da introdução do bem-estar social com promessas de um aumento de 20%, em relação ao ano anterior, nos fundos disponíveis para aposentadoria, benefícios para desempregados, seguro-saúde e licença-maternidade. Para a China rural, eles prometeram o fim dos impostos arbitrários e melhor saúde e educação. Também se comprometeram a reduzir em 20% o consumo de energia.

O 11º plano qüinqüenal é um gabarito para um novo modelo chinês. Para a nova direita, mantém a idéia de uma experimentação permanente - um processo gradual de reforma em vez de uma terapia de choque. E aceita que o mercado vai conduzir o crescimento econômico. Para a nova esquerda, traz a preocupação com o conceito de desigualdade e o meio ambiente e uma busca por novas instituições que possam associar cooperação com competição.

Uma das características mais surpreendentes da vida intelectual chinesa é a forma como os intelectuais a favor da "democracia", que exigiram eleições nas décadas de 1980 e 1990, mudaram suas posições sobre a reforma política.

Pensadores chineses argumentam que todas as democracias desenvolvidas enfrentam uma crise política: o comparecimento às eleições está caindo, a fé nos líderes políticos declina, os partidos perdem membros e o populismo está em alta. Eles estudam as formas que os líderes ocidentais usam para examinar detalhadamente os partidos políticos e introduzem novas técnicas para chegar até as pessoas, tais como referendos, pesquisas de opinião ou júris de "cidadãos".

O Ocidente ainda tem as eleições multipartidárias como parte central do processo político, mas complementou-as com novos tipos de deliberações. A China, segundo os novos pensadores políticos, fará as coisas pelo contrário: adotando eleições mas de forma menos importante e tornando as consultas públicas, encontros de especialistas e pesquisas a parte central da tomada de decisões.

Essa idéia foi vigorosamente descrita por Fan Ning, cientista político da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Ele comparou a democracia no Ocidente a um restaurante com menu fixo, onde os clientes podem escolher a identidade do chefe, mas não têm escolha sobre os pratos que ele decidir cozinhar para eles. A democracia chinesa, de sua parte, sempre inclui o mesmo chefe - o Partido Comunista - mas os pratos políticos a serem servidos podem ser escolhidos "à la carte".

As autoridades certamente parecem dispostas a fazer experiências com todos os tipos de inovações políticas. No pequeno distrito de Zeguo, na cidade Wenling, eles até mesmo introduziram uma forma de governo por grupos representativos. Mas o principal critério a conduzir a reforma política parece ser o de não se constituir em ameaça ao monopólio do Partido Comunista sobre o poder. Será que uma forma mais participativa de autoritarismo pode evoluir para uma forma legitima e estável de governo?

No longo prazo, o Estado de partido único da China pode muito bem desmoronar. No entanto no médio prazo, o regime parece estar desenvolvendo técnicas cada vez mais sofisticadas para prolongar sua sobrevivência e antecipar-se à insatisfação. A China já mudou os termos do debate a respeito da globalização, ao mostrar que regimes autoritários podem trazer o crescimento econômico. No futuro, seu modelo de ditadura deliberativa pode provar que Estados de partido único podem trazer também um grau de legitimidade popular. E se as experiências da China com consultas públicas funcionarem, as ditaduras em todo mundo vão se inspirar em um modelo que permite a sobrevivência de países com único partido em uma era de globalização e comunicação de massa.

* Mark Leonard é o autor de "What Does China Think?" Apesar do interesse global na ascensão da China, ninguém está prestando muita atenção em suas idéias e em quem as produz. No entanto, a China tem uma classe intelectual surpreendentemente dinâmica cujas idéias podem vir a se mostrar um autêntico desafio à hegemonia liberal do Ocidente Claudia Dall'Antonia

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