UOL Notícias Internacional
 

13/03/2008 - 00h08

Felicidade se aprende na escola

Prospect
Adam Phillips*
Se há uma coisa da qual estamos convencidos agora, é que somos criaturas em busca de prazer que querem minimizar a dor e a frustração em nossas vidas. Nós somos criaturas que, talvez diferente de qualquer outro animal, buscam a felicidade. Mas felizmente, e infelizmente, a outra coisa que sabemos é que o prazer, como a felicidade, não é tão simples como gostaríamos que fosse.

Discussões sobre o que torna uma vida boa, e se a virtude pode ser ensinada, são tão antigas quanto a investigação humana esclarecida. Mas a felicidade agora é uma coisa, e então precisamos ter alguma idéia do que a busca pela felicidade se trata; se a educação pode mudar uma pessoa (isto é, quão abertas as crianças estão às influências e de que forma); e o que a frase muito apreciada, "faça alguém feliz", pode significar.

Almeida Rocha/Folha Imagem - 23.fev.2007 
Sala de aula de escola municipal localizada no Jardim Nakamura, periferia de São Paulo

Como a felicidade é subjetiva -que o que nos torna felizes é um tipo de chave para nosso senso de nós mesmos- nós não precisamos definir. Nós não precisamos dizer para as pessoas o que elas já sabem. Mas as crianças estão no processo de descobrir pela primeira vez o que as torna felizes. Para isto, como para tudo mais, elas dependem dos adultos que cuidam delas. E há uma experiência fundamental ligada ao prazer que todo pai e professor tem com suas crianças: você não pode dizer para uma criança que não está tendo prazer, apenas dizer que não deveria.

Pense em uma criança pequena beliscando alegremente sua irmã mais nova, ou urinando no tapete. As crianças freqüentemente têm prazer com coisas que os adultos não querem que tenham prazer. Assim, se acreditarmos que a educação deve tornar a criança feliz, o que queremos dizer é: a educação deve torná-las felizes de formas que nós adultos aprovemos. Nós somos os donos da definição aceitável de felicidade.

Se a pergunta original -a pergunta de Platão- foi "a virtude pode ser ensinada?", e ela se tornou "a felicidade pode ser ensinada?", nós poderíamos nos perguntar qual é a diferença, qual seria a diferença entre a escola tentar tornar as pessoas boas e tentar torná-las felizes? Uma das diferenças mais óbvias é que ser bom nem sempre torna as crianças (ou adultos) felizes. Mas se a educação deve torná-las felizes, que tipo de moralidade ela vai ensinar, tanto implícita quanto explicitamente, a serviço deste ideal?

A escola teria que dizer a coisa paradoxal: nossas regras são feitas para ser quebradas porque nós sabemos que, pelo menos para alguns de vocês, apenas a transgressão os fará se sentirem plenamente vivos, e que para alguns esta é a única felicidade autêntica. Ao promover a felicidade na escola, nós estaríamos promovendo a emoção em vez da segurança, pelo menos para alguns. Nós diríamos -e isto poderia ser uma coisa boa- não evite situações que possam fazer você se sentir culpado, mas aprenda a suportar a culpa. Não se trata da promoção da felicidade em si promover o risco; mas ela confronta os adultos com a questão perene de se, e em que situações, preferem a segurança à emoção, ou vice-versa, para as crianças.

A busca da felicidade pode potencialmente dar tanto para crianças quanto professores uma visão moral mais complexa. Como os professores não podem saber de antemão o que tornará uma criança feliz, eles serão incapazes de construir e impor uma moralidade que tornará ele ou ela feliz. Seria um bom começo para iniciar a formação de nossa moralidade a partir do entendimento do que torna as pessoas felizes, em vez de uma forma de antecipar esta descoberta para elas.

A escola pró-felicidade seria na melhor das hipóteses uma escola pró-improvisação moral. Isto colocaria um fardo pesado mas interessante sobre os professores. A felicidade pode ser boa como um ideal porque muda nossos pontos de vista sobre a moralidade; ela permitiria que as crianças na escola tivessem uma versão mais intrigante do que a moralidade pode envolver. Mas a felicidade como uma exigência moral -você tem que ser feliz e está fracassando se não for- é perniciosa.

Se a pressão para ser feliz é incapacitante -o que a criança sob pressão para ser feliz fará com sua infelicidade?- a oportunidade de ser feliz, ou de encontrar o que a torna feliz, só pode ser uma coisa boa. Mas aproveitar as oportunidades de felicidade pode ser algo moralmente complicado, e pode envolver uma certa infelicidade (pense na criança na escola preferindo um amigo em vez de outro, ou querendo estudar matérias que seus pais desaprovam).

Os promotores da felicidade, por exemplo, freqüentemente subestimam quanta inveja a felicidade provoca, e quanto isto é um problema para os invejosos e invejados; a felicidade como um ideal se encaixa muito facilmente na crença contemporânea de que uma boa vida é simplesmente uma vida invejável. Assim, me parece que uma coisa que a educação pode fazer é ajudar as crianças a encontrarem uma linguagem que possa fazer justiça aos prazeres e problemas que a felicidade envolve -e fornecer um ambiente no qual possam começar a ter uma idéia dos conflitos nos quais a felicidade pode envolvê-los. Se, como John Lennon disse, a vida é o que acontece enquanto você está fazendo outros planos, então a felicidade é igual -talvez na mesma medida.

*Adam Phillips é um psicanalista e escritor.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h10

    -0,20
    3,263
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h16

    0,19
    63.885,22
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host