A esquerda que está fracassando na Europa

Ernst Hillebrand

Os partidos de centro-esquerda da Europa Ocidental estão batendo em retirada. Eles perderam o poder em vários países nos últimos anos, até mesmo naqueles locais nos quais governaram com certo sucesso. A centro-esquerda parece destinada a sofrer uma derrota na Itália, e perdeu o rumo no Reino Unido. Quatro dos cinco países nórdicos - sociedades social-democratas por excelência - contam agora com chefes de governo conservadores. O Partido Social-Democrata Alemão está no poder como parceiro menor da coalizão governista, mas é ameaçado por um novo partido que se situa mais à esquerda; na França o campo socialista está caótico.

Será que isso é apenas o oscilar normal do pêndulo político, ou o resultado de algo mais profundo e mais preocupante para a centro-esquerda?

É perigoso tentar tirar conclusões gerais a partir da experiência com um conjunto tão variado de países. Mas uma coisa pelo menos parece clara. Esse fato marca o fim de um ciclo político-ideológico; do projeto tecnocrático centrista conhecido com a "terceira via" no Reino Unido e o Neue Mitte na Alemanha. Ele foi desenvolvido mais explicitamente no Reino Unido - baseado parcialmente em idéias tomadas emprestadas dos democratas de Clinton -, mas teve influência em toda a Europa.

Esse projeto possibilitou que os partidos de centro-esquerda se estabelecessem como a força política dominante na Europa na segunda metade da década de 1990. A expectativa dos eleitores e as condições políticas e econômicas globais haviam mudado desde meados da década de 1980, e os partidos de centro-esquerda mostraram-se aptos a adaptar-se a essas mudanças. As várias manifestações do projeto tinham isso em comum: uma combinação de políticas fiscais e econômicas liberais moderadas e uma insistência na continuidade do papel do Estado, incluindo o Estado de bem-estar social, e uma postura liberal-progressista quanto às questões culturais - prova de um espírito "progressista" duradouro.

As reformas do mercado de trabalho e a reorganização dos benefícios de assistência foram conjugadas a uma aceitação da desregulamentação e a políticas competitivas promovidas pela União Européia (e, em alguns países, à privatização). Os partidos de centro-esquerda apresentaram-se às novas classes médias como gerentes efetivos do capitalismo.

Ao mesmo tempo, foram designados grandes papéis à educação - de fato, ela pareceu quase assumir o lugar da política fiscal redistribucionista como o principal instrumento da reforma social. A idéia era que, com o passar do tempo, o investimento na educação ajudaria a resolver os problemas da justiça social, do desemprego e da competitividade.

A partir de meados dos anos noventa, essa estratégia possibilitou aos partidos de centro-esquerda vencer eleições e governar com relativo sucesso. Atualmente, porém, essa atração apagou-se - um número muito grande de questões tornou-se demasiadamente difícil de se resolver dentro da estrutura desse modelo. Vejamos os seguintes exemplos.

- A globalização e a europeização afetaram para pior a situação econômica relativa dos trabalhadores europeus. Os governos da terceira via pouco puderam fazer para modificar isso. A parcela salarial - a proporção dos salários na renda doméstica - caiu na União Européia nos últimos 25 anos de 72,1% para 68,4%. Paralelamente a isso, o número das pessoas empregadas aumentou - a taxa de emprego subiu de 61,2% em meados dos anos noventa para os atuais 64,5%. Isso significa que mais trabalhadores estão dividindo uma quantidade relativamente menor de renda salarial.

- Ao mesmo tempo, os principais partidos de centro-esquerda da Europa continental não conseguiram cumprir as suas promessas de que a criação de um espaço social e econômico mais integrado no coração da União Européia beneficiaria os cidadãos comuns. Hoje muitos europeus estão céticos em relação a uma maior integração ou até mesmo se opõem a ela. Por mais sucesso que a União Européia tenha tido em criar uma área de paz e de estabilidade política, há que se reconhecer que o seu desempenho na tentativa de promover crescimento econômico e emprego não foi tão bom.

- A "revolução da educação" também desapontou. O desemprego entre os jovens na Europa é de 18,7%. A mobilidade social não melhorou e os índices de conclusão do segundo grau na União Européia pouco mudaram em 20 anos.

Há sinais de que nas sociedades ocidentais está ocorrendo uma lenta mudança de valores que os partidos de centro-esquerda parecem não compreender. Em alguns países o zeitgeist parece ter se tornado mais uma vez conservador: pesquisas de opinião indicam uma lenta mudança rumo aos valores tradicionais. O liberalismo sociocultural e o relativismo de valores que caracterizaram as sociedades ocidentais "hedonistas" nas décadas recentes (e que os reformadores tecnocratas podiam apresentar como indicadores de sua natureza "progressista") são cada vez mais vistos como problemáticos ou não funcionais.

Como resultado desses problemas e contradições, os partidos de centro-esquerda em diversos países alienaram-se de uma parte substancial da sua tradicional base eleitoral - eles não falam mais a sua linguagem nem compartilham as suas preocupações. Os partidos de centro-esquerda estão organizacionalmente ausentes das áreas problemáticas de várias grandes cidades européias. É através dessa lacuna que os novos movimentos populistas de direita - e alguns movimentos populistas de esquerda (especialmente na Alemanha) - estão abrindo caminho.

A impressão entre o eleitorado é que esses movimentos enfrentam os problemas cotidianos que os principais partidos, especialmente os de esquerda, ocultam ou suprimem. Partidos populistas de centro-direita estão atualmente enraizados na França, na Itália, na Áustria, na Suíça, na Bélgica, na Dinamarca e na Holanda. A sorte eleitoral deles oscila, mas a parcela de eleitores que apóia os partidos de direita é significativamente superior do que era nas décadas de 1960 e 1970.

A centro-esquerda necessita de um novo projeto político-ideológico que a torne capaz de vencer novamente eleições. Para usar a velha linguagem, ela precisa ser ao mesmo tempo mais "esquerdista" quanto às questões de justiça social (sem retroceder para o velho e fracassado estadismo) e mais "direitista" quanto aos problemas culturais e de identidade.

O projeto tem que livrar-se do economismo da terceira via sem abrir mão do "terreno intermediário". Não pode haver um retorno às idéias dos anos setenta e oitenta. O que se faz necessário é um discurso que não só reconheça as ambições da população - esse foi um dos pontos mais fortes da terceira via -, mas também se preocupe com os seus temores e confusões.

Ele precisa acabar com a estigmatização explícita de certos grupos - "os perdedores do processo de modernização"; "os defensores de interesses velados" - e reconhecer que o declínio do trabalho manual e das comunidades da classe trabalhadora deixou uma minoria significante de pessoas à deriva.

Como se não bastassem tais dilemas, a esquerda enfrenta um desafio adicional: a direita, também, está modernizando-se. Nos últimos anos ela deu adeus, pelo menos retoricamente, ao radicalismo neoliberal e empenhou-se em recapturar o terreno intermediário. Essa reorientação equivale a um reconhecimento implícito do sucesso da centro-esquerda em inserir elementos centrais do seu projeto político nas sociedades ocidentais.

Uma contra-estratégia da centro-esquerda precisará operar em diversas frentes, mas o papel do Estado deve ser um dos temas. Se existe uma diferença entre as visões da nova direita e da nova esquerda, ela encontra-se na questão do futuro papel do Estado no fornecimento de serviços e bens públicos, e na criação de chances de vida individuais e coletivas em sociedades desiguais. Em períodos de incerteza, a idéia de um Estado forte e capacitador deve ser mais atraente do que um sistema no qual os bens públicos são separados para os setores filantrópicos e comerciais. Mas é claro que esse deve ser um Estado que responda aos cidadãos, e que não tema inovar quanto à forma de fornecer serviços - o Estado velho, inerte e burocrático não é amigo da esquerda.

A centro-esquerda precisa decidir o que será retido e o que é inapropriado e ultrapassado. É hora, mais uma vez, de um exercício sério de revisionismo.

* Ernst Hillebrand é cientista político. Ele é diretor da representação da Fundação Friedrich Ebert em Paris, a fundação partidária do Partido Social-Democrata Alemão. O projeto de reforma tecnocrática eleitoralmente bem-sucedido de centro-esquerda da década de 1990 parece ter perdido o rumo. A esquerda necessita de uma história nova - acima de tudo para os seu núcleo de apoio -, mas que não retorne ao estatismo fracassado dos anos 1970

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