Regime de Hugo Chávez na Venezuela está em um declínio terminal

Michael Reid*

Por sorte, tudo acabou como um mero melodrama e não uma tragédia. Depois que as forças armadas da Colômbia mataram um líder dos guerrilheiros das Farc ao bombardear um campo além das linhas da fronteira, no Equador, no dia 1° de março, Hugo Chávez da Venezuela enviou soldados e tanques para sua própria fronteira com a Colômbia e ameaçou lançar seus bombardeiros Sukhoi, recentemente comprados.

O Equador, a Venezuela e a Nicarágua romperam relações diplomáticas com a Colômbia —para restabelecê-las dias depois em meio a fortes abraços e apertos de mão na reunião regional de cúpula latino-americana em Santo Domingo.

Entre outras coisas, esse episódio mostrou até que ponto o severo presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, foi isolado nas Américas. George W. Bush foi o único líder a manifestar o apoio inequívoco a um governo para o qual dá uma ajuda de cerca de US$ 700 milhões por ano. Liderada pelo Brasil e pelo Chile, a Organização dos Estados Americanos repreendeu a Colômbia pela violação da soberania do Equador.

E, no entanto, ao se observar mais atentamente, é possível ver uma dinâmica mais importante em ação na América Latina. É Chávez que rapidamente está perdendo terreno na região. Outros governos o ignoraram mesmo quando ele manifestou sua solidariedade ao presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa. A exagerada mobilização de Chávez, em resposta a uma disputa que não envolveu seu país pareceu expor um crescente desespero.

Chávez teve a sorte de governar a Venezuela durante um boom do petróleo para o qual não existe nada comparável desde a década de 1970. Sob sua administração, as receitas do governo com o petróleo mais que triplicaram. Graças ao petróleo, o produto interno bruto da Venezuela cresceu em índices de dois dígitos entre 2003 e 2006.

Chávez gastou parte desse dinheiro inesperado em programas sociais conhecidos como "misiones": que incluem uma cadeia de supermercados geridos pelo governo chamada Mercal, um programa de alfabetização e um sistema segundo o qual médicos cubanos prestam serviço em bairros pobres.

Ele também usou sua riqueza com o petróleo para tentar comprar influência no exterior —mais visivelmente em Cuba. A ajuda venezuelana permitiu a Fidel Castro recuar em algumas das reformas baseadas na economia de mercado que foi forçado a adotar na década de 1990 depois do colapso de seu patrocinador soviético.

Tudo isso deu alguma plausibilidade às alegações de Chávez de que estava liderando um movimento continental em defesa dos pobres, uma revolta contra o que ele diz ser a submissão histórica da América Latina aos Estados Unidos. Tais acusações pareceram ter recebido mais apoio quando outros esquerdistas radicais assumiram o poder na América Latina em 2006— Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia e Daniel Ortega na Nicarágua.

Outros fatores entraram em ação nesses países: na Bolívia e no Equador, os ressentimentos étnicos dos indígenas dos Andes e o fracasso dos corruptos partidos tradicionais; e na Nicarágua, divisões entre os moderados. Com tudo isso, esses três líderes correram para os braços de Chávez e Castro.

No entanto a importante linha divisória na América Latina de hoje não é entre a esquerda e a direita. É entre autocratas tais como Chávez e reformistas democráticos exemplificados em formas diferentes, no Brasil, Chile e México (pode-se acrescentar o Peru e a Colômbia a essa relação).

Os reformistas sejam de esquerda, direita ou centro, estão tentando usar a globalização e a democracia para superar a extrema desigualdade de renda e a pobreza generalizada na América Latina. Os autocratas estão reprisando o nacionalismo latino antiquado e populista no estilo de Juan Perón da Argentina, amalgamado a contemporâneos antídotos antiglobalização e uma anacrônica idolatria ao debilitado Fidel Castro.

A temática em questão são as visões da história da região, radicalmente diferentes: sejam quais forem suas outras diferenças, Chávez, Castro, Correa e semelhantes aderem à teoria da dependência— a historicamente questionável idéia de que o relativo fracasso da América Latina é o resultado de sua submissão aos Estados Unidos— embora os reformistas estejam tentando erigir as instituições democráticas necessárias para superar as falhas da região, geradas internamente.

Minhas recentes viagens à região convenceram-me de que essa controvérsia passou para um novo estágio, no qual o regime de Chávez começa a implodir. Isso traz novos riscos de violenta agitação— o regime chavista ainda tem muito dinheiro e muitas armas, incluindo 100 mil Kalashnikovs recentemente comprados da Rússia. Mas isso também dá sustentação à esperança de que o desafio autoritário à democracia liberal na América Latina pode mostrar-se relativamente transitório.

O ponto crítico dessa batalha ideológica ocorreu no dia 2 de dezembro de 2007, quando Chávez foi derrotado no referendo sobre mudanças constitucionais que teriam transformado a Venezuela e um governo quase totalitário. Foi a primeira derrota em 10 votações nacionais e é difícil de exagerar o seu significado. Ele perdeu porque dessa vez, 3 milhões dos 7,3 milhões que haviam votado nele um ano antes ficaram em casa, enquanto a dividida oposição encontrou um novo vigor e unidade.

Passei a semana anterior ao referendo visitando os bairros pobres tanto de Caracas como ao longo da costa do Caribe da Venezuela. A apatia e desilusão entre muitos chavistas eram evidentes. Chávez administrou mal o boom do petróleo. A inflação está fora de controle. Os controles de preços e a interferência política levaram à escassez de alimentos. A produção de petróleo está em queda. A corrupção é corrente, assim como os crimes violentos (Caracas é atualmente a capital mais violenta da América do Sul). E as tão alardeadas "misiones" estão fracassando. Muitos dos supermercados Mercal estão fechados.

Em fevereiro, o governo precisou enviar 100 soldados para Sabaneta, a cidade natal de Chávez, para restabelecer a ordem depois que uma furiosa multidão saqueou a filial local da Mercal em protesto contra a corrupção. Em um artigo devastador na atual edição da Foreign Affairs, Francisco Rodriguez, um ex-chavista que foi o principal economista da Assembléia Nacional da Venezuela, refuta as alegações do governo de ter abolido o analfabetismo e diz que a queda na pobreza existe unicamente em função do preço do petróleo.

Chávez ainda tem cinco anos no cargo. Mas a derrota no referendo estabeleceu limites claros para seu poder e permanência. Haverá uma eleição em novembro, e a oposição provavelmente romperá seu quase monopólio de poder no governo dos Estados e nas prefeituras das cidades mais importantes.

Os novos limites sobre o poder de Chávez têm grandes implicações para os acontecimentos em Cuba. Certamente não foi coincidência o fato de, dias depois da derrota de Chávez no referendo, Fidel Castro ter dado a primeira indicação de que iria deixar o cargo de presidente da ilha. Ele concretizou isso em fevereiro, formalizando a transferência do poder para Raúl Castro, seu irmão (só um pouco) mais novo.

Fontes muito bem relacionadas em Havana dizem que Raúl, um burocrata discreto e respeitável, pessoalmente desdenha o narcisismo volátil de Chávez. Mas as chances de o regime cubano implantar com sucesso sua aposta nas reformas econômicas graduais como forma de manter o controle político dos comunistas são constrangedoramente dependentes da ajuda Venezuela, que totaliza cerca de US$ 2 bilhões por ano, e assim continuará com a sobrevivência de Chávez no poder.

Cuidadosamente, Raúl está tentando diversificar os laços econômicos de Cuba: ônibus chineses substituíram as antigas geringonças soviéticas, enquanto Luiz Ignácio Lula da Silva do Brasil esteve em Havana em janeiro para assinar acordos comerciais e de investimentos.

O Brasil é o mais claro contraponto a Chávez e Castro. Sob Lula e seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso, o país combinou uma democracia cada vez mais fortalecida - com muitos defeitos óbvios, certamente— com a estabilidade econômica. A economia do Brasil cresceu 5,4% no ano passado, a inflação foi de apenas 3,5% e graças em parte a uma política social mais eficaz, a pobreza tem diminuído estavelmente e a renda está sendo distribuída de forma mais igualitária do que em qualquer outra época nas três últimas décadas.

Chávez atraiu toda a atenção na América Latina nos últimos anos— mas seu apelo para que as Farc sejam reconhecidas não encontrou eco algum, nem mesmo em Cuba. De Londres a Massachusetts, ele conquistou a lealdade de ingênuos em política, incluindo Naomi Campbell e Oliver Stone entre os mais recentes. Mas a real história do progresso humano e a luta sustentável contra a pobreza na região pode ser encontrada, com uma forma menos glamorosa, nas favelas brasileiras, nos vilarejos mexicanos e nas áreas pobres do Peru.

*Michael Reid é editor de Américas na revista The Economist Claudia Dall'Antonia

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