Grupo desafia consenso sobre existência de armas de destruição em massa no Iraque

Tom Chatfield*

Durante os cinco anos desde a invasão do Iraque, mais de um bilhão de dólares e milhões de horas de trabalho foram gastos na busca de sinais da existência de armas de destruição em massa e de programas relacionados a este tipo de armamento no Iraque. O Grupo de Inspeção do Iraque (ISG), liderado pelos Estados Unidos, foi criado em maio de 2003, e iniciou os seus trabalhos a partir do ponto em que a Comissão de Monitoramento, Verificação e Inspeção das Nações Unidas, chefiada por Hans Blix, havia parado pouco antes da invasão. Em 30 de setembro de 2004, o ISG divulgou aquele que ficou conhecido como Relatório Duelfer (o nome do documento é uma referência a Charles Duelfer, o chefe da equipe quando o trabalho foi concluído). A conclusão da equipe, expressa no relatório, foi que não havia nenhum estoque de armas biológicas, químicas ou nucleares à época da invasão em 2003; que a capacidade nuclear do Iraque havia se degradado após 1991; e que, embora Saddam Hussein pretendesse reiniciar o seu programa de armas de destruição em massa quando as sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) fossem suspensas, ele não havia coordenado nenhuma estratégia neste sentido.

Antes mesmo da publicação do Relatório Duelfer, já havia surgido um movimento contrário às informações de inteligência originais relativas às armas de destruição em massa iraquianas. Em janeiro de 2004, o então diretor do ISG, David Kay, renunciou, e afirmou em um depoimento ao Comitê do Senado para as Forças Armadas dos Estados Unidos que as informações de inteligência anteriores à guerra sobre as armas de destruição em massa iraquianas "estavam totalmente erradas" - embora ele tivesse também observado em uma entrevista concedida ao jornal "The Daily Telegraph" pouco após a sua renúncia: "Sabemos, com base em interrogatórios de ex-autoridades iraquianas, que uma grande quantidade de material foi para a Síria antes da guerra, incluindo alguns componentes do programa de armas de destruição em massa de Saddam".

Essam Al Sudani/ AFP -4.abr.2008 
Iraquiano verifica danos causados supostamente em decorrência de ataque aéreo dos EUA

Foi em parte em resposta à renúncia e às declarações de Kay que, em 6 de fevereiro de 2004, o presidente Bush formou aquela que é comumente conhecida como Comissão de Inteligência sobre o Iraque - uma investigação independente das informações de inteligência utilizadas para justificar a Guerra do Iraque.

A comissão apresentou o seu primeiro relatório em 31 de março de 2005, e concluiu incisivamente que a comunidade de inteligência estivera "totalmente equivocada em quase todas as suas avaliações anteriores à guerra a respeito das armas de destruição em massa do Iraque", e que erros de análise, de coleta e de disseminação de conhecimentos provocaram avaliações erradas e um exagero geral quanto ao quadro de todos os programas iraquianos de armas de destruição em massa".

No entanto, ainda há aqueles que acreditam que provas desprezadas pelas investigações oficiais, ou que não estavam disponíveis para os investigadores, demonstram não só que as armas de destruição em massa de fato existiam no Iraque em 2003, mas também o local para onde foram enviadas. Três indivíduos em especial volta em meia trazem esta versão à tona: John Loftus, um advogado da Flórida, ex-promotor do Departamento de Justiça e escritor agraciado com o prêmio Pulitzer, que em 2006 criou um evento anual conhecido como Intelligence Summit (uma conferência sobre inteligência), que se tornou um foco de atração para os que discordam das conclusões oficiais sobre o Iraque e as armas de destruição em massa; David Gaubatz, um investigador civil que trabalhou para a Força Aérea dos Estados Unidos no sul do Iraque de abril a julho de 2003; e John Shaw, ex-vice-subsecretário de Defesa, que esteve no Iraque, incumbido de procurar os programas de armamentos de Saddam Hussein após a invasão.

De acordo com Loftus - cuja pesquisa foi publicada mais recentemente em novembro de 2007 na revista online "FrontPage" -, um quarto das armas de destruição em massa de Saddam Hussein foi destruído devido à pressão exercida pela ONU em meados da década de 1990; um quarto foi vendido a vizinhos árabes da metade ao final daquela década, um outro quarto foi removido, em sua maioria para a Síria, nos últimos meses que antecederam a invasão, e o quarto restante - incluindo componentes de laboratórios de armas nucleares de Saddam - ainda estava no Iraque no dia em que teve início a invasão.

Um ponto central para as alegações de Loftus são os "documentos da libertação do Iraque" - cerca de 50 mil arquivos, vídeos e fitas de áudio descobertos no Iraque em 2003, consistindo em grande parte de registros do governo baath desde a década de 1980 até o momento da invasão.

As fitas incluem discussões entre Saddam Hussein e autoridades graduadas, que se gabavam de que o Iraque possuía tanto a intenção quanto o conhecimento técnico para reconstituir os seus programas ilegais de armas. Outros documentos citados por Loftus aparentemente registram a intenção de comprar ou desenvolver precursores químicos para armas, incluindo os gases de ataque ao sistema nervoso Tabun, VX e Zyklon B. Alguns desses documentos seriam recentes, referentes a outubro de 2002. Outros abordariam o treinamento de "pelotões químicos" e o fornecimento de "veículos de chuveiros móveis" para descontaminação.

É claro que tais alegações estão longe de se constituírem em provas - e ao mesmo tempo a grande quantidade de documentos e a falta de controle de qualidade significa que não é impossível descartar erros de tradução e uma escolha seletiva e tendenciosa de relatórios. No entanto, o mais impressionante talvez seja o fato de haver pouca coisa nesses documentos que contradiga diretamente o quadro pintado pelo Relatório Duelfer de uma nação ansiosa por recomeçar a produção de armas de destruição em massa, sem contar com um programa coordenado nem com reservas significativas de matéria-prima, mas persistente no seu desejo de ludibriar a fiscalização.

Porém, Luftus argumenta que a sua pesquisa, conjugada aos depoimentos de Shaw e de Gaubatz, se constitui em um "mosaico convincente de provas". David Gaubatz, foi um dos astros do último Intelligence Summit, em março de 2007. Gaubatz, que fala árabe, chegou ao Iraque em abril de 2003, como investigador civil da força aérea. Através dos contatos locais que logo obteve, ele alega ter sido levado a quatro amplos "depósitos" de armas de destruição em massa - câmeras subterrâneas de concreto próximas e, em dois casos, abaixo, do Rio Eufrates. Ele disse que os seus informantes acreditavam que os locais serviam para a armazenagem de armas de destruição em massa.

Os seus relatórios detalhados sobre esses locais foram encaminhados às forças armadas dos Estados Unidos, mas aparentemente sumiram em circunstâncias misteriosas. Ele disse que as quatro câmeras subterrâneas haviam sido saqueadas quando foram oficialmente investigadas. As alegações de Gaubatz atraíram uma certa atenção da imprensa, mas não foi possível confirmá-las, já que ele não chegou de fato a entrar nas câmeras.

Já as alegações de John Shaw foram apresentadas no primeiro Intelligence Summit, em 2006. De acordo com o seu relato - tornado público em outubro de 2004 -, oficiais de inteligência ucranianos que atuavam no Iraque registraram a ação de forças especiais "Spetznaz" russas transferindo armamentos para a Síria na véspera da invasão de 2003, sob a supervisão do ex-diretor russo de inteligência Yevgeni Primakov.

Shaw afirmou ter visto documentos ucranianos cruciais - sem entretanto ter tido permissão para ficar com eles. Mas ele me disse que esses documentos lhe foram revelados diretamente por Ihor Smeshko, à época diretor da inteligência ucraniana, e pela sua equipe, e que os papéis traziam detalhes específicos sobre as unidades russas, sobre o número de pessoas que as integravam e as datas em que agiram. Embora as suas fontes não tivessem alegado que armas químicas e biológicas tivessem sido removidas, Shaw afirmou não ter dúvida de que ambos os tipos de armamentos estavam presentes.

Shaw alegou que a operação foi comprovada tanto por testemunhas locais quanto por fotografias de satélites norte-americanos, que mostrariam caminhões seguindo em comboio ao longo da estrada que margeia o Eufrates e passando pela fronteira síria.

O ex-chefe do Estado Maior israelense Moshe Yaalon, que também se pronunciou no Intelligence Summit de 2006, disse que o seu governo concorda com a tese de Shaw. Os russos, no entanto, afirmam que todos os detalhes de tais alegações são falsos. Da mesma forma, os serviços de inteligência dos Estados Unidos dizem que as alegações feitas por Shaw são fruto de operações israelenses de desinformação. Isto apesar de o Relatório Duelfer ter advertido que a ISG não podia descartar a movimentação limitada de materiais vinculados a armas de destruição em massa para a Síria. Pouco após ter tornado as suas acusações públicas, em outubro de 2004, Shaw foi obrigado a deixar o cargo, aparentemente por "extrapolar a sua autoridade".

Embora seja fácil refutar as teorias de Loftus, a insistência dele em ressaltar os aspectos internacionais da história das armas de destruição em massa chama atenção para fatos cruciais ausentes da maior parte das investigações posteriores no Iraque: até 2003 o Iraque contava com meios para a aquisição de materiais proibidos, possuindo uma lista assustadora de contatos que iam da França até a Coréia do Norte; e Saddam Hussein via uma grande importância estratégica tanto em possuir como em dar a impressão de que possuía armas de destruição em massa.

Atualmente são as armas nucleares que chamam mais atenção e que ameaçam mais. Se o Irã conseguir se juntar a Israel como uma potência nuclear dentro dos próximos dez anos, a proliferação de armamentos atômicos poderia estender-se ao Egito, à Turquia e à Arábia Saudita. O Irã, o Paquistão e a Coréia do Norte demonstram como programas nucleares podem ser gerenciados sigilosamente por um pequeno número de indivíduos dedicados e que possuem contatos internacionais. E isto é apenas a proliferação nuclear patrocinada por Estados: a possibilidade de que grupos terroristas usem materiais nucleares representa um espectro de horrores ainda mais complexo.

Sem dúvida aqueles que tentam desafiar a história oficial a respeito das armas de destruição em massa do Iraque deixam muitas perguntas sem respostas, ou insatisfatoriamente respondidas. Por que, se Saddam tinha armas de destruição em massa, estas não foram utilizadas para defender o seu país? Por que, caso a remoção de armas de destruição em massa do Iraque tenha sido acobertada, tão pouca gente apareceu para fornecer provas da existência de tal operação? Qualquer nova teoria precisa responder a estas perguntas e explicar os acontecimentos de forma mais satisfatória do que os relatórios oficiais - e, neste aspecto, o campo dos que acreditam na existência das armas de destruição em massa iraquianas não passa no teste de credibilidade.

O caos e os horrores do Iraque pós-invasão demonstraram sistematicamente as inadequações do planejamento e da inteligência que antecederam a ação norte-americana. Mas eles revelam também as instabilidades efervescentes suprimidas por um regime brutal que tinha a intenção de se apresentar como prestes a obter armas nucleares, biológicas e químicas. São estas as armas que muitos países, facções regionais e grupos extremistas ainda estão ansiosos por obter - uma verdade persistente que foi perdida de vista em grande parte dos relatórios dos últimos cinco anos.

A busca por armas de destruição em massa pode ter acabado no Iraque, mas, em termos globais, ela apenas começou. E sem uma rigorosa estratégia global de inteligência capaz de atrair apoio nacional e internacional, o Ocidente poderá continuar condenado a repetir todas as tolices cometidas no Iraque: uma perseguição de sussurros no deserto.

*Tom Chatfield é editor assistente da revista "Prospect". UOL

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