O mito de uma nova guerra fria

Stephen Kotkin*

Dois mitos em colisão abriram um abismo de equívocos em relação à Rússia. O primeiro é o mito ocidental de que o caos e o empobrecimento a que o país foi submetido sob Boris Yeltsin conduziram a uma democracia rudimentar, que o presidente Vladimir Putin levou adiante para destruir. Quando alguma coisa chega a ser desfeita tão facilmente, provavelmente é porque não era ela que deveria ter sido destruída. Ainda assim, o mito do fracasso da democracia na Rússia uniu os nostálgicos da Guerra Fria, que sentem a falta do inimigo, com uma nova geração de observadores da Rússia, muitos dos quais participaram sinceramente do ilusório projeto de construção democrática da década de 1990 na Rússia e agora estão desiludidos.

O segundo é o mito, do lado russo, de que a KGB seria a instituição ainda da era soviética, incorruptível, patriótica e em condições de restabelecer a ordem. Isso credita à entourage de subordinados de Putin a liberalização econômica que foi, na realidade, colocada em ação pelo pessoal não pertencente à KGB que estava em torno dele.

Cada um desses mitos deixa o outro lado profundamente exasperado. Quando uma grande maioria de russos aceita ou mesmo aplaude a concentração de poder de Putin, observadores anglo-americanos suspeitam não apenas de ignorância mas de amor ao autoritarismo. (Infelizmente, aos russos jamais foi apresentada uma democracia genuína e o domínio da lei coexistindo com padrões mínimos de vida.) Quando comentaristas estrangeiros e acadêmicos exaltam a Rússia de Yeltsin, que alcançou o exíguo PIB de US$ 200 milhões e sofreu a humilhação internacional, ao mesmo tempo em que denunciam a Rússia de Putin, que tem um produto interno bruto de US$ 1,3 trilhão e reconquistou estatura global, a maior parte dos russos detecta não só falta de compreensão como animosidade.

Vamos fazer uma pausa aqui. Admitir que Putin tenha herdado uma situação problemática, originada do desenfreado roubo que grassava internamente e do desgoverno regional não é fechar os olhos ao seu governo de estilo KGB, que em geral tem sido difícil de entender e algumas vezes responsável por seu próprio fracasso. Mesmo que muitos altos funcionários russos sejam escrupulosos e competentes, o Estado continua corrupto demais, como em muitos outros lugares em todo o mundo. Nos altos escalões, funcionários privilegiados tomaram conta (e ainda tomam) de participações em empresas de primeira linha. Em todos os níveis o oficialismo agora busca suas recompensas reproduzindo a repressão e manipulação do Kremlin.

Mas a Rússia também está cada vez mais próspera, com uma economia de mercado voltada para o consumo e uma orgulhosa e florescente sociedade de classe média. Essa combinação de um sistema político instável, relativamente fechado pode parecer incompatível - mas é o que existe.

No livro "The New Cold War: How the Kremlin Menaces Both Russia and the West" (A Nova Guerra Fria: Como o Kremlin Ameaça Tanto a Rússia Quanto o Ocidente, em tradução livre), Edward Lucas - correspondente para a Europa Central e do Leste na revista The Economist - argumenta que a Rússia está agressivamente engajada em uma guerra global por prestígio, com seus vastos recursos naturais e montada em dinheiro. E embora os EUA e a Grã-Bretanha tentem enfrentar o poderoso urso, a Alemanha está aderindo e a China possivelmente está "cooperando".

Essa é a nova teoria do dominó de Lucas: caso se permita que Rússia prossiga com sua prepotente rota no Cáucaso e nos Bálcãs, então ela se voltará para o centro da Europa, até mesmo para o Oeste da Europa e para o Ártico. Mais uma vez, no entanto, o leitor pode retornar a Lucas para tranqüilizar-se. O Kremlin, ele escreve, "sistematicamente superestima as próprias cartas." Reagindo indignado aos vários projetos de gasodutos no Kremlin, Lucas concluiu que "a maior dúvida para a Europa na próxima década provavelmente será como lidar com uma Rússia que tem falta de gás." È muito para o uso da energia como arma. "A Rússia está "confusa," escreve Lucas. "Ficará satisfeita em ser notada." Mais: "ela compensa sua real debilidade mostrando uma aparente força."

Lucas reconfirmou que a longa, complexa era de missões civilizatórias acabou. Os fardos do homem branco, as novas ordens mundiais, programas grandiosos de desenvolvimento, os imensos e inúteis projetos de ajuda ao estrangeiro, fortalecimento da sociedade civil - adeus a tudo isso. Gostemos ou não, a geopolítica eficiente do século 21 não pode mais se restringir a forçar os outros a ser como você, mas deve envolver a aceitação de novos países que emergem. Seu conselho para administrar a suposta nova Guerra Fria se limita a dois meros passos. O primeiro é jogar fora "nossas" ilusões e admitir a realidade russa. O outro é abandonar a ingênua idéia de que o Ocidente pode influenciar a política interna da Rússia.

"Nós estamos" o próprio Lucas conclui, "de volta à era da política das grandes potências." Bem-vindo ao século 18. Ainda assim, há uma exceção muito importante aqui. Os grupos políticos de Londres, Berlim e até mesmo de Bruxelas vão encontrar um modus vivendi com a Rússia assim como com a China, enquanto se apegam em casa aos seus valores liberais e democráticos. Mas será que Washington, a capital de um país que existe apenas desde a era das missões civilizatórias e em última análise deve sua existência aos puritanos, sobreviverá a um mundo sem cruzadas determinadas pela sua própria vontade? Nos EUA, a própria caracterização da Rússia, independente de sua conduta, é tratada como nada menos que um tema da identidade americana.

Quantas vezes os Estados Unidos poderão "perder" a Rússia? Uma quantidade ilimitada, ao que parece. Mas pode haver esperança: alguém finalmente registrou em interessantes detalhes o movimento duradouro e de inspiração religiosa dos americanos, para transformar a Rússia.

No livro "The American Mission and the 'Evil Empire': The Crusade for a 'Free Russia' since 1881", (A Missão Americana e o 'Império do Mal': A Cruzada por uma 'Rússia Livre' Desde 1881, em tradução livre), David S. Foglesong, professor da Rutgers University, demonstra que americanos poderosos insistiram na possibilidade, até mesmo necessidade, de levar seus ensinamentos à Rússia e depois, quando a Rússia fracassou em se transformar em algo parecido com os Estados Unidos, retrocederam e condenaram a traiçoeira índole nacional ou seus líderes - mais recentemente Putin.

A original intenção do autor é mostrar que bem antes da Guerra Fria, a Rússia era encarada como uma espécie de gêmeo imaginário dos Estados Unidos, objeto de desejo, condescendência e hipocrisia na peregrinação em busca do destino americano - sem muito para exibir como resultado de tais esforços dentro da Rússia.

O documento reconhece que fracassaram os esforços de Washington para transformar Moscou em um sócio (minoritário) da pauta global da América. Então o relatório recomenda uma "cooperação seletiva" em temas frente aos quais Moscou poderia supostamente ser persuadido a seguir as indicações dos EUA. Ao mesmo tempo, o relatório admite que os EUA enfrentam uma difícil tarefa na antiga missão de tentar resgatar a Rússia do autoritarismo.

E ainda assim, apesar do quanto vital a Rússia parece ser para os Estados Unidos - na irracionalidade do relatório, exatamente por causa dessa própria necessidade - a democratização da Rússia precisa continuar como meta da política externa dos EUA. "Para ir além de meras manifestações a respeito do retrocesso da democracia russa, aconselha o relatório, "o EUA devem aumentar - não reduzir - os fundos da Lei de Apoio à Liberdade, concentrando-se particularmente em organizações comprometidas com eleições livres e justas nas eleições para o Parlamento e a presidência em 2007 e 2008."

Ainda mais influente foi um ensaio publicado no início deste ano na Foreign Affairs, "O Mito do Modelo Autoritário: Como a Repressão de Putin Restringe a Rússia", de Michael McFaul e Kathryn Stoner-Weiss. É um apelo pela união dos sitiados americanos promotores da democracia, ansiosos para reconquistar o terreno perdido após o Iraque. Os dois autores esforçam-se para mostrar que a Rússia de Putin é autocrática se comparada à democracia "eleitoral" de Yeltsin, e que a autocracia de Putin não teve nada a ver com o sucesso econômico da Rússia.

Esse argumento é uma falácia. O que está em questão não é a autocracia, mas as muitas medidas de liberalização econômica que foram aprovadas durante o primeiro mandato de Putin (a radical revisão fiscal, redução da burocracia, propriedade privada da terra) assim como a manutenção de rígida disciplina fiscal e estabilidade macroeconômica.

O fato de McFaul e Stoner-Weiss terem necessidade de lutar sua batalha em defesa da democracia no campo econômico não ajuda sua causa. Quando afirmam que o aumento da participação do Estado nos últimos anos desacelerou o desempenho econômico da Rússia, eles subestimam o grau em que até recentemente, o crescimento russo foi ajudado pela extração das últimas gotas do sangue dos investimentos da era soviética, uma tática que deixou de funcionar. Além disso, excluindo-se as duas gigantes da energia, Rosneft e Gazprom, o aumento da participação do Estado nas empresas da Rússia não é espetacular.

Aconteça o que acontecer no futuro, está claro que o mundo não tinha conhecimento de economias de mercado autoritárias tão grandes como a da Rússia ou a da China desde, bem, desde a Alemanha nazista e seu aliado, o Japão. Mas as autoritárias Rússia e China de hoje não são militarmente agressivas. E ainda assim, para Edward Lucas, tais países também dificilmente seriam derrotados em guerra e ocupados, de forma que os pares de Michael McFaul e Kathryn Stoner-Weiss poderão ter sucesso em uma nova cruzada pela democracia, tão bem relatada por David Foglesong.

*Stephen Kotkin é diretor do programa sobre estudos russos e eurasianos na Princeton University. A Rússia não era uma democracia liberal sob o governo de Yeltsin, nem retornou ao totalitarismo sob Putin. Mas a antiga preocupação americana de inspiração religiosa sobre a "perda" da Rússia está novamente no centro dos debates. Claudia Dall'Antonia

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