Nobel da Paz cria o negócio social para eliminar a pobreza mundial

Mark Hannam*

Muhammad Yunus é um homem modesto que tem muitos motivos para ser imodesto. Em meados da década de setenta, ele começou a fornecer pequenos empréstimos aos pobres de Bangladesh e, em 1983, criou um banco, que chamou de Grameen (que em bengali significa "da vila"). O Grameen prosperou, e atualmente emprega 25 mil pessoas. Todos os anos ele fornece um total de US$ 500 milhões em pequenos empréstimos, preponderantemente para mulheres. Este modelo de "microcrédito" foi copiado em todo o mundo em desenvolvimento e, em 2006, Yunus e o Banco Grameen foram laureados conjuntamente com o Prêmio Nobel da Paz.

Não se contentando em formar um único empreendimento, Yunus criou uma série de companhias com a logomarca Grameen a fim de fornecer alimentos e serviços baratos aos pobres: telefones celulares, empréstimos a estudantes, roupas de malha, uma fábrica de tecidos, uma clínica de olhos e, mais recentemente, uma joint venture com a companhia francesa Danone para vender iogurte barato a crianças da zona rural. Yunus também redigiu um manifesto defendendo o seu estilo de iniciativa empresarial, que ele chama de "negócio social". Ele alega que este tipo de negócio fará com que seja possível acabar com a pobreza no mundo, e em um período mais curto do que a maioria das pessoas acha possível. Sendo assim, esta é uma idéia grandiosa, ainda que ele só esteja parcialmente certo quanto à escala dos benefícios envolvidos.

Yunus duvida da capacidade dos governos, multinacionais, instituições filantrópicas e organizações não governamentais para a obtenção de melhorias radicais e sustentáveis dos padrão de vida dos pobres e, em vez disso, volta-se para os negócios. Os negócios sociais, conforme Yunus os descreve, geram lucros, mas não os distribuem. Os investidores recuperam o seu dinheiro, mas nada mais do que isso: nada de dividendos ou ganhos de capitais. Todos os lucros são reinvestidos na expansão do negócio, no desenvolvimento de produtos ou na redução dos custos. É um capitalismo sem garras e presas.

A questão não é tornar os ricos mais ricos, mas possibilitar que os negócios cresçam de tamanho e, desta forma, gerem um impacto maior no mundo. Segundo as palavras de Yunus, a idéia é "permitir que os indivíduos que trabalhem para o negócio deixem a sua assinatura no planeta".

A história de vida de Yunus sugere que ele demorou um certo tempo para descobrir qual seria a sua própria assinatura no planeta. Ele nasceu em 1940, em Chittagong, uma cidade na extremidade leste da Baía de Bengala. O seu pai era um ourives bem-sucedido, e a mãe era conhecida pela sua natureza caridosa, algo que Yunus afirma ter tido um profundo efeito sobre ele.

Ele estudou economia na Universidade de Dhaka, antes de conseguir uma bolsa Fulbright que permitiu que obtivesse um doutorado em economia na Universidade Vanderbilt, no Tennessee, em 1970. Ele lecionou nos Estados Unidos durante alguns anos antes de retornar ao recém-independente Bangladesh, em 1972, tendo assumido rapidamente o cargo de diretor do departamento de economia da universidade em Chittagong, a sua cidade natal.

Durante a onda de fome em Bangladesh de 1974-75, Yunus começou a emprestar pequenas somas do seu próprio dinheiro aos moradores da vila. Isto o ensinou que o acesso ao capital é essencial para que os pobres atinjam a auto-suficiência. O Banco Grameen, e, subseqüentemente, toda a idéia de negócio social, desenvolveu-se a partir desta constatação simples.

A idéia de que uma companhia precisa lutar tanto por sucesso financeiro quanto por impacto social não é nova. Jonathan Swift ajudou a criar fundos para empréstimos de pequena escala na Irlanda no século 18. O que o Banco Grameen fez foi transformar essa idéia em uma proposição empresarial verossímil, e encorajar outras pessoas pelo mundo a seguir esse exemplo.

Os sistemas de microcrédito consistem tipicamente no empréstimo de pequenas cifras - às vezes de apenas US$ 30 ou US$ 40. A idéia é encorajar as pessoas às quais o acesso ao crédito é normalmente negado, devido à falta de caução ou de histórico de crédito, a usarem os empréstimos para darem início a pequenos negócios ou desenvolverem negócios já existentes. Os bancos de microcrédito costumam cobrar juros que dão a impressão de serem muito elevados: 50% ou mais anualmente. Mas comparadas às alternativas - que no caso dos pobres das zonas rurais geralmente significam agiotas predadores, que podem cobrar 400% de juros por um empréstimo, ameaçando recorrer à violência caso o pagamento da dívida não seja feito no prazo estabelecido - as condições dos empréstimos de microcrédito são sem dúvida atraentes. Segundo o Banco Grameen, o seu índice de liqüidação das dívidas é de 98%.

Uma outra característica de vários sistemas de microcrédito é o foco nas mulheres, que são freqüentemente discriminadas pelos fornecedores tradicionais de crédito. A recuperação do dinheiro investido pelos bancos de microcrédito depende da pressão individual que pode ser aplicada através de redes formadas por amigos ou familiares, e as mulheres muitas vezes são pontos centrais dessas redes. Cerca de 95% dos empréstimos concedidos pelo Banco Grameen foram dados a mulheres.

Quando Yunus começou a emprestar em meados da década de 1970, nem as principais instituições financeiras nem as organizações de desenvolvimento achavam que o microcrédito tinha grande possibilidade de funcionar em larga escala. Mas, ao final de 2005, havia mais de 3.000 organizações do tipo operando em todo o mundo, fornecendo crédito a cerca de 110 milhões de pessoas. A maioria dessas instituições - cerca de 85% - fica na Ásia, mas também existem sistemas significativos do gênero na América Latina e na África.

Mas o microcrédito também pode fazer uma diferença para as pessoas que sofrem de exclusão financeira nas cidades do Ocidente. O Banco Grameen acaba de abrir uma filial em Nova York, que empresta dinheiro a imigrantes que não participam do sistema bancário tradicional dos Estados Unidos.

As organizações de microcrédito estão tendo um efeito real sobre os pobres? Elas são capazes de crescerem suficientemente para alcançar todos os pobres? Em uma pesquisa recente sobre o impacto do microcrédito, os economistas Karol Boudreaux e Tyler Cowen argumentam que, embora o microcrédito possa alcançar menos resultados do que alegam os seus defensores mais entusiasmados, as conquistas possibilitadas pelo sistema são reais: "O microcrédito pode ajudar certas pessoas, que talvez ganhem US$ 2 por dia, a ganharem algo como US$ 2,50 por dia. Isso pode não parecer um aumento drástico, mas quando a pessoa ganha US$ 2 por dia, trata-se de um grande passo à frente. E o progresso não é o estado natural da humanidade; o microcrédito é importante mesmo quando ele não faz nada mais do que impedir o declínio".

À medida que as organizações de microcrédito crescem, o impacto cumulativo dessas pequenas melhorias nas vidas dos pobres começa a agregar-se a uma mudança concreta na economia global. Na primeira conferência sobre microcrédito, realizada em Washington, D.C., em 1997, chegou-se a um acordo quanto à meta de fornecer empréstimos de microcrédito a 100 milhões das famílias mais pobres do mundo até 2005 - um objetivo audacioso, tendo em vista que a meta anterior era inferior a 10 milhões de famílias. A meta só foi alcançada no final de 2006, mas o simples fato de ela ter sido atingida já foi um fato impressionante. Isso também sugere que existe potencial para o crescimento rápido dos negócios sociais, caso estes apresentem produtos apropriados e um modelo de negócios que forneça tais produtos de forma sustentável.

Tendo em vista os níveis crescentes de afluência no Ocidente, vários jovens trabalhadores podem se dar muito mais ao luxo de priorizar as necessidades dos outros, bem mais do que podiam os seus avós . Eles também também acreditam que as companhias bem intencionadas deveriam ser tão tolerantes com a ineficiência como são os melhores negócios maximizadores de lucros. Os fins são importantes, mas não os meios.

Ninguém ainda pode afirmar com certeza que o setor de negócios sociais poderá algum dia ser tão bem-sucedido quando Yunus alega que ele será. Mas mesmo que esse sistema atenda apenas parte das expectativas, isto ainda seria um grande feito. A maior façanha de Yunus nos últimos 30 anos foi criar uma série de instituições de negócio sociais que funcionam. Yunus deixou a sua assinatura distinta sobre o planeta; e ele agora quer que outros façam o mesmo.

*Mark Hannam é diretor da Fair Finance, uma companhia de microfinanciamento com sede em Londres. O economista bengalês Muhammad Yunus ajudou milhões de pessoas ao lançar o sistema de microcrédito. Agora Yunus tem uma nova idéia - o negócio social -, que ele acredita que poderá eliminar a pobreza mundial UOL

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