Lobby israelense liberal desponta nos EUA

Gershom Gorenberg*

Ao lado de um pequeno número de outros grupos, o Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (Aipac) é visto em geral como sendo a voz dos judeus israelenses e americanos dentro da política dos EUA. Mas o Aipac é com certeza muito mais agressivo em relação à política do Oriente Médio do que a maioria dos judeus americanos. Apesar de ser muito difícil medir o grau exato de sua influência, ele é, segundo consta, um lobby efetivo no Congresso americano. E reage com notória beligerância quando desafiado.

Porém, seu foco persistente nas necessidades de curto prazo por segurança em Israel acaba prejudicando a necessidade de longo prazo do país por um acordo de paz viável. Por quE, então, não existe um lobby israelense pacifista contra-Aipac? Antes de tentar responder a essa pergunta, vale a pena tentar estabelecer com clareza como funciona o lobby existente.

A partir da avaliação de alguns relatórios publicados e declarações de fontes de Washington - que preferiram permanecer anônimas nesta reportagem -, um estudo bem feito concluiria que o Aipac conseguiu convencer os membros do Congresso de que eles podem receber muito mais doações de campanha se fornecerem ajuda e armas para Israel. A análise, além disso, mostraria quase certamente que os políticos têm medo de impor condições a essa ajuda - como, por exemplo, excluir desse valor a quantia que Israel gasta nos assentamentos dos territórios ocupados.

A pesquisa também seria capaz de revelar que nem sempre o Aipac sai vitorioso - como quando não conseguiu evitar que Ronald Reagan vendesse aviões de patrulha Awacs para a Arábia Saudita em 1981.

Até agora os lobistas têm conseguido apenas uma influência relativa sobre as relações exteriores. A política americana em relação ao Oriente Médio é limitada pelos interesses básicos dos EUA, ainda que estes não sejam tão evidentes ou consistentes entre si. É mais fácil, e até mais barato, para os EUA manterem Israel forte do que defender o país diretamente. Mas Washington também precisa acomodar seus aliados árabes.

De acordo com fontes que conhecem como funciona o lobby no Capitólio, o Aipac tenta manter a política dos EUA quase que inteiramente voltada para as necessidades de segurança, para proteger um Israel em permanente estado de guerra. Mesmo quando o próprio governo de Israel tentou promover a paz, o Aipac criou dificuldades. Em 1995, por exemplo, o comitê esteve por trás de uma medida no Congresso para mudar a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Dentro da política dos EUA, o Aipac não representa a visão dos judeus americanos. Em 2004, apenas 24% dos judeus votaram para o presidente Bush, de acordo com pesquisas feitas logo após a votação. Mas quando Bush falou na convenção da Aipac no começo do ano, os delegados o interromperam 67 vezes com ovações e gritos de "mais quatro anos".

A inclinação mais liberal dos judeus também se aplica aos assuntos do Oriente Médio. A pesquisa anual de opinião mais recente feita pelo Comitê Judaico Americano mostrou que a maioria (46% contra 43%) dos judeus americanos é a favor do estabelecimento do Estado palestino. O apoio para a guerra do Iraque é cada vez menor entre os judeus do que entre os americanos em geral. A pesquisa do CJA mostrou que a maior parte dos judeus americanos (57% contra 35%) são contra a ação militar dos EUA para conter o programa nuclear do Irã.

No que diz respeito ao Aipac, uma de suas principais preocupações no legislativo é promover uma posição beligerante em relação ao Irã. O site da organização celebrou seu papel na aprovação da emenda Kyl-Lieberman no ano passado, uma resolução do Senado em relação ao Irã. Entre outras providências, a emenda rotulava a Guarda Revolucionária iraniana como organização terrorista. As críticas democratas à resolução dizem que ela pode abrir as portas para que o governo Bush entre em guerra contra o Irã. Mesmo assim, 76 dos 100 senadores votaram nela - o que significa a maioria mesmo entre os democratas.

A preocupação dos políticos americanos em agradar o Aipac fica bem mais clara durante as campanhas eleitorais. O status de lobista do comitê implica que ele não pode diretamente levantar dinheiro para os candidatos, ou apoiá-los financeiramente. Então, em vez disso, ele trabalha juntamente com 50 comitês de ação política - organizações que de fato levantam dinheiro e fazem doações.

Uma das formas para que um político ganhe a aprovação do Aipac é publicar seu posicionamento em relação a Israel, como fez Hillary Clinton num texto que postou em seu site no ano passado. Ela começa elogiando Israel como "uma fonte de inspiração do que a democracia pode e deve ser". Afirma que "o direito de Israel (...) por uma Jerusalém não dividida como sua capital (...) não deve jamais ser questionado". E defende "o direito de Israel de construir uma barreira de segurança", sem mencionar que essa barreira atravessaria território ocupado, o que consideraria que os assentamentos israelenses na Cisjordânia são de fato anexados a Israel.

De fato, o conteúdo do documento não menciona assentamentos, ocupação ou mudanças capazes de ajudar a política israelense. Em Israel, o texto a posicionaria firmemente na direita política.

O rival de Hillary na nomeação do Partido Democrata, Barack Obama, tem sua própria estratégia política em relação a Israel, que começou com um esboço de discurso que ele deu em um fórum da Aipac. Surpreendentemente, entretanto, seu texto inclui uma promessa de "trabalhar para que os dois Estados vivam lado a lado em paz e segurança". Obama também foi mais assertivo em pedir uma mudança de estratégia em relação ao Irã, incluindo conversações diretas com o país.

Um conselheiro da campanha de Obama enfatiza que o Aipac não disse nada contra o senador. Mas Malcolm Hoenlein, vice-presidente executivo da Conferência de Presidentes das Grandes Organizações Judaicas, disse ao jornal israelense Haaretz que "há uma preocupação legítima em relação ao espírito da campanha (de Obama)", um comentário que teve a intenção de causar ansiedade.

Obama fez um esforço claro para mostrar que pode ser tão pró-Israel quanto Hillary - por exemplo, quando mandou uma carta para o representante dos EUA nas Nações Unidas, Zalmay Khalilzad, em janeiro insistindo para que qualquer resolução do Conselho de Segurança em relação à crise de Gaza "condenasse clara e inequivocamente os ataques de foguetes contra Israel". A carta não disse nada sobre o isolamento da Faixa de Gaza promovido por Israel. (Ao ser entrevistado pela reportagem, o conselheiro de Obama notou que as pesquisas após as votações das primárias mostraram que seu candidato estava tão bem quanto Hillary entre os eleitores judeus, talvez até melhor.)

Uma bênção do Aipac é sem dúvida importante para alguns doadores e eleitores judeus - aqueles para quem Israel é a principal preocupação política. Mas eles são uma pequena minoria. A maioria dos outros judeus doadores apóia uma agenda liberal mais ampla - em relação ao Iraque, à economia, ao aborto, ao meio ambiente e outros assuntos. Mas nos encontros com os candidatos, é pouco provável que mencionem suas visões sobre Israel.

A primeira tarefa de uma iniciativa contra-Aipac seria fazer com que os doadores judeus pacifistas - que apóiam o fim da ocupação, uma solução que inclui a criação do Estado palestino e um papel mais ativo dos EUA para chegar a esse objetivo - expressem suas visões mais explicitamente, para que os políticos parem de considerar o Aipac como representante do apoio judeu.

Há mais de um ano, há rumores de que um "lobby israelense liberal" está na iminência de se formar. Os planos agora estão aparentemente no caminho de um lançamento, de acordo com fontes relacionadas ao projeto.

O novo grupo irá enfrentar muitos desafios, em parte porque os judeus liberais dos EUA estão mais inclinados a se preocupar com assuntos gerais da política americana do que com temas etnocêntricos. Eu sugeriria que o primeiro princípio de um novo lobby deveria ser estabelecer a paz como principal objetivo estratégico de Israel, baseada em uma solução de dois Estados com os palestinos, e que os EUA sirvam a suas próprias necessidades ajudando Israel a chegar lá.

Afinal, o objetivo de Israel é ser parte do Oriente Médio, e não um posto militar em conflito com a região. Apoiar os israelenses mais belicosos ou as políticas americanas agressivas significa prejudicar ambos os países. Uma voz liberal é necessária em Washington para divulgar essa mensagem. Talvez essa seja uma nova esperança para uma solução "deus ex machina". Se for isso, esse anjo chegará depois de um longo atraso.

*Gershom Gorenberg é autor do livro "The Accidental Empire: Israel and the Birth of the Settlements, 1967-1977." ("O Império Acidental: Israel e o Nascimento dos Assentamentos, 1967-1977.") O poder do "lobby israelense" nos Estados Unidos é difícil de ser mensurado. Mas suas posições beligerantes são conflitantes com a visão e os interesses da maioria dos judeus americanos. Então por que não há um lobby mais pacifista para se contrapor a ele? Eloise De Vylder

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