Dubai: uma fantasia árabe

Katharine Quarmby*

Dubai está no Oriente Médio, mas poderia estar em qualquer parte.
Praticamente a única coisa que liga este lugar ao passado são as vestimentas tradicionais, ainda usadas pelas pessoas que vivem lá. Os edifícios são, de maneira geral, de um moderno estilo futurista.

Culturalmente, é uma zona tranqüila em comparação com o austero tradicionalismo que impera na vizinha Arábia Saudita ou no Irã.

A ascensão de Dubai é fenômeno extraordinário. Antes um lugar atrasado, agora se constitui na conurbação de crescimento mais acelerado em todo o mundo, onde se encontra um quinto de todos os guindastes do mundo. É o sonho de um corretor de imóveis, lotada de novos empreendimentos de luxo - e um imã para os novos ricos internacionais.

Comenta-se que diversos jogadores de futebol da Inglaterra, incluindo David Beckham e Michael Owen, têm casa de luxo Palms Islands - as ilhas construídas pelo homem no oceano.

O edifício mais alto do mundo, o Burj Dubai, com mais de 160 andares, aguarda o seu término - embora não possa manter seu recorde por muito mais tempo, pois os planos para a construção da torre Al Burj, que pode chegar a 200 andares, já estão quase terminados. Um hotel sob a água está em construção assim como um novo aeroporto.

Os turistas estão chegando: mais de meio milhão de britânicos todos os anos, quase o mesmo da Arábia Saudita e cerca de 300.000 tanto da Índia quanto do Irã. A cidade espera 10 milhões de visitantes até 2010, mais que os 3,5 milhões do ano passado. Tudo isso apesar de não ter palácios antigos ou ruínas - apenas sol, mar, areia, compras e arranha-céus.

Ao mesmo tempo, Dubailand - a resposta do Oriente Médio à Disneyland - se presta a uma espécie de metáfora para toda a aventura: uma grandiosa importação de coisas sem origem definida em uma confusão de marcas e idéias globais, criadas para transformar a região no potentado do deserto.

A Dubai Inc., o título honorífico escolhido pela dinastia tribal que dirige o país para apresentar a si própria, tem um acordo não oficial - conhecido como "a barganha em vigor" - com os 1,3 milhão de habitantes do país: aceitem a limitação das liberdades que nós forneceremos o trabalho e a renda.

Os nascidos no país, que são 15% da população, recebem moradia e educação gratuita, mas não têm reais direitos democráticos. Os expatriados - 85% da população e 95% da força de trabalho - têm ainda menos direitos.

A liberdade de imprensa é restrita. As mulheres - mais de duas para cada homem - não gozam de igualdade com os homens, embora sua posição seja melhor que em outros países do Oriente Médio. Mesmo assim a maior parte dos moradores aceita isso como condição para se viver em uma das cidades mais vibrantes do mundo.

O sucesso da cidade, como admite a maior parte dos habitantes, deve-se ao espírito visionário da família Maktoum. No final dos anos 1960, partindo do princípio que Dubai tinha poucos recursos naturais, os líderes do emirado adotaram várias decisões que acabaram levando à construção do Jebel Ali, um porto de alto calado, o maior do Oriente Médio, localizado junto a uma grande usina de alumínio. A aposta compensou, uma vez que o porto, o maior do Oriente Médio, ajudou Dubai a se consolidar como o centro comercial indispensável na região.

Hoje em dia o porto e as docas secas estão entre os mais movimentados no mundo. Dubai registrou uma taxa de crescimento mais acelerada que a da China e a da Índia na década passada, e agora tem a renda per capita mais elevada que Cingapura. Sua riqueza, ao contrário de grande parte do resto dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e de outros países do Oriente Médio, não depende do petróleo, que contribui com apenas 5% de sua economia, em comparação com os 36% para o total dos EAU.

Pelo menos três quartos da receita nacional de Dubai vem do setor de serviços (imóveis, turismo e varejo). O setor financeiro responde por 10% da economia, e Dubai está na vanguarda do moderno sistema financeiro islâmico, graças à fundação do Dubai Islamic Bank em 1975, o primeiro banco totalmente comercial a se harmonizar aos princípios da Sharia.

Os Emirados Árabes Unidos - uma federação de sete emirados, entre os quais Dubai e Abu Dhabi são os mais importantes - ficaram independentes em 1971. Até então, os Países da Trégua - Trucial Oman - como os emirados eram conhecidos anteriormente, eram protetorados britânicos.

desde meados do século 19, quando os xeques no poder no Golfo Pérsico firmaram acordos com os britânicos em troca de proteção aos seus serviços de embarque.) Eles agora são governados por um conselho supremo de emires, ou governantes hereditários, que indicam a si próprios para os principais cargos.

Segundo um acordo informal entre os emires, o governante de Abu Dhabi, o maior dos sete emirados e o principal produtor de petróleo dos EAU, é o presidente dos EAU, e o governante de Dubai - atualmente o xeque Mohammed Bin Rashid AL-Maktoum, filho do fundador do país - é vice-presidente e primeiro-ministro. Mas o alcance do governo federal é limitado e os emirados reservam consideráveis poderes para si mesmo, incluindo o controle sobre os direitos de mineração.

Com seus arranha-céus e frenética acumulação de riqueza, emirados tais como Dubai e Abu Dhabi tornaram-se símbolos do tipo de modernidade agressiva que parece tê-los separado do restante da região. Mas no que se refere a um avanço democrático, os EAU se ajustam aos desoladores padrões do Oriente Médio.

Os partidos políticos estão proscritos e não houve eleições de qualquer tipo até dezembro de 2006, quando os sete governantes dos emirados selecionaram 6.595 cidadãos para eleger metade do conselho federal nacional - um "comitê consultor" sem poderes.

Os pedidos de reformas que existem tendem a vir da população de expatriados, entre os quais nem todos participaram dos lucros do crescimento de Dubai. Na verdade, existe uma acentuada divisão entre a força de trabalho de estrangeiros de Dubai na qual se incluem os ricos empresários do Irã, Arábia Saudita, Europa e outros, e os imigrantes pobres que se concentram no setor de construção civil, e vêem principalmente da Índia, Bangladesh e Paquistão.

Esse último grupo - que chega talvez a 250.000 - trabalha por salários miseráveis em condições perigosas e mora em dormitórios apinhados na periferia da cidade. Seu trabalho é o motor da expansão de Dubai e mesmo assim eles não se encaixam na história que Dubai conta sobre sua vertiginosa transformação.

Dubai é a Suíça do Oriente Médio - útil para todos e, portanto intocável. Os americanos precisam de um aliado no Golfo. Os iranianos usam Dubai como paraíso para transações em dinheiro sem registro, assim como, supostamente, a Al Qaeda. B. S. A. Tahir, mão direita de A. Q. Khan - o cientista nuclear paquistanês que durante anos planejou a proliferação de uma rede internacional nuclear clandestina - operava de Dubai. Dubai é aloja de conveniência do Oriente Médio, e quem quer bombardear a loja da esquina?

E mesmo que as forças de segurança de Dubai tenham condições de controlar o fundamentalismo, pelo menos por enquanto, Dubai enfrenta outros perigos. Sua economia não depende diretamente das receitas da produção de petróleo, mas grande parte do dinheiro que flui para a região vem do petróleo. O boom imobiliário deve-se quase inteiramente a entradas de petrodólares sauditas e iranianos, e se o preço do petróleo despencar, Dubai será seriamente afetado.

Outra vulnerabilidade é a dependência de Dubai do gás barato que vem do Qatar, sustentando todo o projeto de desenvolvimento. Finalmente, existem as preocupações com o meio ambiente. Não só Dubai está empregando vastas quantidades de energia para construir seus campos de golfe e pistas de esqui, como também é particularmente vulnerável aos efeitos da alteração climática.

Se as temperaturas se elevarem, Dubai poderá tornar-se quente demais para os mimados e exigentes turistas - mesmo com todo aquele ar-condicionado. Se os níveis do mar aumentarem só mais um pouco, as ilhas artificiais de Dubai e a orla litorânea poderão ser retomadas pelo mar. Os recifes de coral dos EAU, uma das principais atrações, já foram afetados como resultado do aquecimento global.

E cada vez mais surgem alternativas a Dubai. Abu Dhabi abriu setores imobiliários que poderão ser adquiridos por estrangeiros e está gastando bilhões em hotéis de luxo. A Arábia Saudita está no processo de construir um projeto imobiliário de US$ 26 bilhões - a Cidade da Economia do Rei Abdullah.

Na verdade, dificilmente Beckham e Owen levantarão acampamento para o reino de Wahhabi (a Arábia Saudita) mas o Bahrein e o Qatar atraem os ocidentais com seus hotéis de luxo e toleram o álcool e as roupas ocidentais - e também foram mais longe na rota das reformas políticas. Mesmo o Irã faz planos para comercializar sua própria ilha resort, Kish.

Por enquanto, porém, Dubai, com seus hotéis de luxo, mercado em funcionamento e tolerância com os hábitos ocidentais, é o lugar para onde os habitués de praia e os fanáticos por compras querem ir. Lá se vende o estilo árabe-light para aquelas pessoas que gostam de ir às compras, mas se sensibilizam em ver o deserto e também segurar falcões.

*Katharine Quarmby está escrevendo um livro de memórias sobre sua longa busca pela família nascida no Irã. De poeirento posto comercial avançado, o emirado de Dubai transformou-se em líder auto-proclamado de uma ressuscitada civilização árabe. Sem uma democracia, tudo depende do trabalho de imigrantes de origem humilde. Continuará um oásis de tranquilidade no Oriente Médio por muito tempo? Claudia Dall'Antonia

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