Aí vem o "segundo mundo"

Parag Khanna

O termo "segundo mundo" caiu em desuso. Ele costumava indicar os países do mundo socialista; hoje eu uso a frase para me referir aos países do Leste Europeu e da Ásia Central, da América Latina, Oriente Médio e Sudeste Asiático que são ricos e pobres, desenvolvidos e subdesenvolvidos, pós-modernos e pré-modernos, cosmopolitas e tribais - tudo isso ao mesmo tempo. Não é uma situação temporária entre o terceiro e o primeiro mundos, mas uma condição permanente em que os vencedores e perdedores são escolhidos por coletividades como cidades e corporações, mais que Estados inteiros.

Eu passei a maior parte de 2005-2007 viajando por mais de 40 países do segundo mundo, e a mensagem que escutei constantemente é que cada país pretende mudar seu futuro a sua própria maneira, e não segundo o "consenso de Washington" ou qualquer outro plano de ação estrangeiro. Ministros do Cazaquistão defendem o "modo cazaque", diplomatas indianos enaltecem o "modo indiano", autoridades brasileiras confiantemente adotam o "modo brasileiro". Todos querem que a globalização seja seu patrono, e não os EUA. Todos podem ter grandes fraquezas internas, mas todos são atores no novo mercado geopolítico em que a Europa e a China oferecem pacotes de ajuda, comércio e assistência militar pelo menos tão atraentes quanto o americano. Por que alinhar-se com um patrono, quando se pode jogar de todos os lados para obter o que se deseja? O comércio da Índia com a China está florescendo, enquanto a primeira recebe muitas de suas armas da Rússia e mantém um acordo nuclear com os EUA. O não-alinhamento é passado; esta é a era do multialinhamento.

Existe uma vasta camada intermediária de segundo mundo entre o núcleo do primeiro mundo e a periferia do terceiro. Em seu recente ensaio na revista "National Interest", "World Without the West" (O mundo sem o Ocidente), Steven Weber citou o regionalismo asiático e os novos blocos de aliança como a Organização de Cooperação de Xangai (SCO na sigla em inglês). Mas isso não tem a ver apenas com a ascensão da China e da Índia. Também é uma história de países produtores de petróleo ao redor do mundo, pequenos Estados árabes com grandes fundos de riqueza soberanos e outros Estados regionais oscilantes, do Brasil à Malásia. De muitas maneiras, esses "mercados emergentes" já emergiram; eles recebem a maior parte do investimento direto estrangeiro do mundo, detêm a maior parte de suas reservas monetárias e estão rapidamente desenvolvendo mercados de consumo cujas preferências os produtores ocidentais não podem ignorar.

O segundo mundo está abalando a ordem ocidental de maneira mais visível em órgãos econômicos como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio. Os direitos de voto no conselho do FMI estão mudando, enquanto cada ano traz novas exigências de que nem a liderança do FMI nem a do Banco Mundial sejam escolhidas automaticamente por Washington, Londres ou Paris. As duas instituições hoje são apenas órgãos de ajuda e assessoria para a África, já que as nações asiáticas pagaram suas dívidas - e estão lançando seu próprio Fundo Monetário Asiático -, enquanto o Brasil e a Argentina, que já foram os dois maiores devedores do FMI, aceleraram seus pagamentos atrasados (a Argentina com a ajuda de US$ 2,5 bilhões de Hugo Chávez) e lavaram as mãos do consenso de Washington. Na OMC, está cada vez mais claro quem tem de fazer as concessões para que a rodada de Doha avance: o Ocidente.

Mas o fenômeno do segundo mundo é mais que econômico. Considere a reforma do Conselho de Segurança da ONU, onde Brasil, Índia, África do Sul e Nigéria são os principais candidatos a novos assentos permanentes. Depois há a acima citada Organização de Cooperação de Xangai, uma jovem aliança liderada por China e Rússia, às vezes chamada de "Otan do Oriente". Ela define termos de comércio, padrões de negócios e políticas de contraterrorismo e narcóticos para toda a Ásia Central. O Irã, Afeganistão e Paquistão logo se tornarão membros. Na última cúpula da SCO, a Rússia e outros pediram uma conferência internacional para discutir opções para estabilizar o Afeganistão - implicando que a Otan havia falhado.

O segundo mundo está reformulando o mundo, mas não o controla. O que se pode sentir de maneira igualmente poderosa é o relativo declínio dos EUA e a crescente assertividade da UE e da China. Talvez não seja um mundo multipolar - certamente não no sentido militar -, mas esses três representam sistemas imperiais diferentes cuja gravidade está atraindo o segundo e o terceiro mundos. Já se pode sentir o atrito em áreas do segundo mundo como a América do Sul, onde a crescente presença econômica da China, especialmente na Venezuela e no Brasil, enfraqueceu a doutrina Monroe dos EUA - de que a América Latina está na esfera de influência exclusiva dos EUA -, provocando uma silenciosa visita de autoridades americanas a Pequim para advertir que não devem minar a democracia na região.

Está na hora de parar de fingir que os EUA ficarão no topo até que surja um rival claro para desafiar diretamente seu predomínio. Veja seu histórico de política externa: fracasso no Iraque e no Afeganistão, fracasso em erradicar a Al Qaeda ou em criar a paz na Palestina, fracasso em avançar nas negociações de comércio global ou em reconciliar-se com a América Latina - e a lista continua. A atual cautela sobre intervenções e redemocratização é motivada não por um súbito esclarecimento, mas pelo choque do fracasso. Os EUA estão acordando para a diplomacia e o poder mole porque o poder duro falhou e não resta alternativa.

Para colocar em ordem a casa dos EUA não bastará um único dia de posse em janeiro de 2009. O Departamento de Estado está falido em tal medida que as pessoas de fora não conseguem avaliar. E ninguém parece saber como restaurar o prestígio americano. Poder-se-ia esperar uma orientação firme baseada na experiência, observação e conexões, mas em vez disso escutam-se - de antigas autoridades dos governos Clinton ou Bush - as platitudes de utópicos distantes. Grandes siglas para novas instituições multilaterais são propostas - ignorando-se o fato de que até a reforma do Conselho de Segurança está parada há mais de uma década. São planejados corpos de reserva civil maciços - enquanto o Congresso americano corta o orçamento diplomático em 10%. São propostas adequadas para um mundo que não existe mais, ou para um país que não tem mais a vontade ou o poder de realizá-las.

O teste para o Ocidente não é se uma Europa introspectiva e uma América teimosa podem se olhar olho no olho novamente, mas se elas podem ou não moldar um segundo mundo cada vez mais assertivo. As potências transatlânticas podem definir os padrões globais de comércio, trabalho e meio ambiente? Elas podem fazer recuar o radicalismo no mundo árabe? Podem fazer alguma coisa sobre as remessas de armas chinesas para o Sudão ou a Birmânia? Podem deter as tentativas da Rússia de recuperar o controle de seus vizinhos e sua manipulação dos mercados de gás? São perguntas que qualquer um que aspire a um papel pan-ocidental deve ser capaz de responder, se ainda acredita no poder do Ocidente.

*Parag Khanna é um pesquisador sênior na New America Foundation, um grupo de pensadores sediado em Washington, D.C. Da Ásia ao Leste Europeu à América Latina, os países de renda média estão se tornando cada vez mais assertivos. Esses Estados do "segundo mundo" estão forjando laços entre si Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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