Um perfil de Christopher Hitchens

Alexander Linklater

Na maior parte dos seus 40 anos de carreira, a notoriedade de Christopher Hitchens limitou-se a círculos intelectuais jornalísticos, literários e políticos. Nos últimos 15 anos, ele se tornou bem conhecido entre os leitores de "Vanity Fair" e "The Atlantic", e entre os telespectadores dos programas americanos de atualidades que o convidaram para dizer coisas chocantes em elegantes frases.

Sua capacidade de florear a iconoclastia -descrevendo a princesa Diana e Madre Teresa nas suas mortes, por exemplo, como, respectivamente "uma Bambi narcisista com sorriso afetado e uma fanática anã albanesa saqueadora"- sustentaram sua fama de uma tropa de choque intelectual da esquerda.

Amanda Edwards/Getty Images
O jornalista e escritor Christopher Hitchens (em foto de abril de 2004). Seu ponto de partida sempre é o confronto, seu método para derrubar uma contradição, seu ponto de chegada uma posição de convicção. É essa capacidade extraordinária de convicção, desenvolvida com a velocidade e elegância de sua escrita, que fez dele o mais cintilante e perturbador jornalista britânico da geração 68
Depois, com o apoio às invasões do Afeganistão e do Iraque, e à reeleição de George W. Bush em 2004, a própria esquerda tornou-se alvo de suas polêmicas. Mas qualquer que fosse o lado escolhido, continuou a emitir o que na essência pode ser considerada opinião dissidente para um público de especialistas. Apenas Deus teria condições de promovê-lo para além de tais interesses partidários ao fornecer o tema de um bestseller. Embora Hitchens seja autor de 16 livros, incluindo obras sobre Henry Kissinger, Bill Clinton, os mármores do Peloponeso, George Orwell, Thomas Paine e Thomas Jefferson, seu ataque à religião em "Deus não é grande" foi a primeira ocasião para a qual uma editora programou um importante giro de apresentação do livro nos EUA.

Agora seu proselitismo ateísta garantiu-lhe algo como o status de um nome familiar. Mas por que esse inglês de classe média alta, insolentemente carismático, parece atrair e repelir tantas pessoas? Pode ser que isso tenha a ver com a forma como ele combina um vulgar, antiquado estilo intelectualizado de homem-show com um bom olho para uma grande história. Sua atual batalha contra a fé é a maior de sua carreira -é uma das primeiras discussões que ele se lembra de ter tido quando criança, e aquele que ficará com ele até o fim.

Como outros polemistas públicos, os raciocínios a favor ou contra qualquer questão tornam-se raciocínios a favor ou contra ele. Seu ponto de partida sempre é o confronto, seu método para derrubar uma contradição, seu ponto de chegada uma posição de convicção. É essa capacidade extraordinária de convicção, desenvolvida com a velocidade e elegância de sua escrita, que fez dele o mais cintilante e perturbador jornalista britânico da geração 68. Ele não exagera muito quando diz: "O mundo no qual eu vivo é um onde tenho cinco brigas por dia cada uma delas com alguém que realmente me abala a respeito de algo; e se eu não consigo participar de uma discussão, fico à procura de uma, para ter certeza de que confio nas minhas convicções, para aprimorá-las."

Ele tem dito constantemente que o impulso elementar que primeiro o atraiu na década de 1960 para o trotskismo foi menos simpatia pelos desafortunados que a forte repulsa aos privilegiados. E as preocupações mais do socialismo com a subsistência -redistribuição, impostos, bem-estar social e outras- jamais o interessaram por muito tempo. É nas argumentações universais a respeito de liberdade e progresso que Hitchens deu suas cartas de homem-show.

Religião
O único aspecto em relação ao qual Hitchens admite um pouco de empatia com pessoas que têm uma crença religiosa é quanto à perda da crença por alguém. "Digo isso como alguém cuja fé secular foi abalada e descartada", ele escreve em "Deus não é grande." "Quando eu era marxista, não mantive minhas opiniões como uma questão de fé, mas eu tinha a convicção de que um tipo de teoria unificada de campo pudesse ser descoberta. O conceito de materialismo histórico não era absoluto e não tinha um elemento sobrenatural, mas tinha lá seu elemento messiânico na idéia de que um momento definitivo poderia chegar, e que ele certamente teria autoridades papais excomungando-se mutuamente."

Sua própria perda de fé veio lentamente. "Se alguém me perguntasse qual a minha linha política, já na década de 1990, eu teria dito que era socialista e marxista." Depois ele se viu escrevendo a estudantes sobre isso e o processo desencadeou o livro de 2001, "Letters to a Young Contrarian" (Cartas a um Jovem Contestador). Como ele pesquisou os 30 anos desde o efeito catalisador de 1968, diz que foi forçado a admitir que não havia mais um movimento internacional socialista, nem mesmo uma crítica socialista que pudesse ajudar a revivê-lo.

"Então, o que é que você faz, dizendo-se socialista?" ele indaga. "Tudo o que você está fazendo é garantir que as pessoas não o confundam com um liberal -que eu sempre considerarei uma posição de pusilânime covardia. Mas isso torna-se um artificialismo. Então eu o senti definhar. Eu não o repudiei, não me prejudicou moralmente, não o odeio e não tive uma revelação a respeito dele. Mas percebi que aqueles que realmente pensam que têm uma postura crítica em relação ao capitalismo são na realidade reacionários. Eles preferem o feudalismo ou o agrarismo; são pré-capitalistas. O marxismo pelo menos tem uma teoria de desenvolvimento e inovação. E o capitalismo global agora parece ser a única coisa que é revolucionária. Essa é a minha forma marxista de olhar para isso."

Muitos dos críticos de Hitchens julgam que essa é a sua maneira de dizer que é um neoconservador. Sua resposta é que ele não se considera como "qualquer espécie de conservador." Ele preferia em vez disso ser chamado apenas de um falcão dos direitos humanos. "Deveria existir uma palavra para pessoas que acreditam que o poderio dos EUA pode e deveria ser usado para se opor ao totalitarismo", ele diz. Sem uma fé que tenha restado das revoluções francesa e russa, ou do proletariado, tudo que resta agora é a idéia da América "como a última revolução existente" -seu espírito de liberdade despertado pela luta de transformação do Oriente Médio.

Política
Hitchens atingiu a maioridade no momento em que a política monopolizou a atenção sobre todos outros interesses. Dizer que ele foi uma das crianças de 1968 é talvez algo mais que um clichê, uma vez que os espíritos gêmeos daquele ano -destruição e emancipação- lhes forneceram uma esfera de atuação que era uma completa alternativa à família. "Não sei como descrever isso", ele diz. "No final de 1967, o corpo de Guevara havia sido exposto às câmeras pela CIA, Isaac Deutscher havia morrido, a revolução vietnamita deslanchava, sentia-se que o mundo passava por uma convulsão. Durante o ano de 68 acordava-se toda manhã com algo de novo."

Para Hitchens, 1968 teve pouco a ver com a explosão cultural da época -música, drogas, estilos de vida alternativos- e ele continuou um tipo machista, insensível ao feminismo, exceto de uma forma política abstrata. Ele havia sido recrutado por essa "excêntrica" organização -a Internacional Socialista, ou IS- em Oxford, logo depois de chegar à universidade. Foi observado ao importunar um maoísta com perguntas insistentes em um encontro contra a guerra do Vietnã, e foi abordado por Peter Sedgwick, que Hitchens descreve como um "nobre remanescente da esquerda libertária". Na época, a IS de Oxford tinha cinco membros. Até o final de 1968, havia cerca de 300. A estimulante sensação de operar em larga escala a partir de uma pequena organização é uma das que se adequaram a Hitchens durante a maior parte de sua carreira desde então.

Mais do que a universidade, da qual ele se livrou optando por uma graduação com menos exigências, ele descreve a IS como a sua educação. Era na época, "fortemente anticomunista, e não compartilhava da opinião trotskista de que o comunismo de estado era uma visão deformada da realidade". "Nós acreditávamos na idéia de que uma classe operária instruída poderia não só libertar a si mesma, como a sociedade. Era anti-racista, anti-religiosa, e cheia de membros judeus, nenhum dos quais sionista."

Não há como se enganar quanto à nostalgia de Hitchens pelo período. "Pertenço a uma geração que várias vezes vimos em capitais européias trabalhadores e soldados e marinheiros e estudantes brandindo a bandeira vermelha com uma chance real de tomar o poder pela força naquele dia ou naquela semana", ele diz e realmente manda sua mensagem. "Ninguém mais verá isso de novo."

Sua inclinação era, talvez, mais para o espírito de destruição do que uma de emancipação. Ele é bastante claro a respeito do que mais lhe agradava: "Podia-se ver na face flácida de seu tutor na faculdade ou na face flácida do primeiro-ministro -eles não sabiam o que estava acontecendo, agiam de forma estranha, estavam com medo. E eu pensei, 'Sim! É disso que eu gosto: ver suas papadas tremendo com a ansiedade."

Mas a desilusão, nas palavras de Hitchens, estava inserida no DNA de 1968. Com 19 anos, ele estava em Cuba quando os soviéticos invadiram a Tchecoslováquia, e enquanto Castro estava se decidindo quanto a uma reação, parecia que a maioria dos cubanos estava do lado dos tchecos. "Então Castro fez seu longo, tedioso, mentiroso discurso, defendendo a invasão. Aquele foi o momento em que se pôde ver que o comunismo havia acabado. O que eu não percebi na época é que o que estávamos fazendo era comemorar o fim não o começo: 1968 foi o último espasmo do idealismo socialista. Era a chama se apagando e a única coisa que se antecipava era 1989."

Iraque
Em cinco anos de discussões sobre a guerra do Iraque, muitos dos mais importantes participantes passaram por seu apartamento. No meio de nossas conversas, Hitchens organizou drinques com Qubad Talabani, filho de Jalal Talabani, o presidente iraquiano; e Sean Penn o porta-voz de Hollywood contra a guerra, cuja mente independente ele admira.

Hitchens tem sido acusado de racismo, auto-glorificação, traição a amigos. Ele tem uma pele grossa, diz, embora se preocupe com o fato de ela ter-se tornado talvez grossa demais. Mas ele argumenta que brigar com antigos camaradas é o menos importante das coisas que tem feito. Sua principal empreitada, alega, tem sido a de aliar-se ao que antes era originalmente um movimento clandestino de sunitas, xiitas e curdos -todos trabalhando para a derrubada de um monstro stalinista moderno. "Eu me senti como se estivesse na década de 1960", ele diz, "trabalhando com revolucionários. Isso me lembra dos meus melhores dias."

Mas ele também estava mais que em qualquer época, aproximando-se do poder real. Kevin Kellems, consultor especial do ex-secretário da defesa Paul Wolfowitz, marcou um encontro entre os dois homens em 2002. Ele o descreveu como "entrar em contato com alguém do outro lado que você acredita que queira desertar". Quando se encontraram, discutiram sua antipatia mútua por Kissinger e a deslealdade dos Estados Unidos com a rebelião xiita iraquiana de 1991. Eles continuaram amigos.

Quando Qubad Talabani chega ao apartamento, a discussão é íntima e de interesses comuns. Eles discutem o peso do pai, antes de abordar a questão das incursões turcas no norte do Iraque. Lobista em Washington para o governo regional curdo, o jovem Talabani é tremendamente inteligente. Eles discutem o grande erro de L.Paul Bremer -não a dispersão do exército, raciocina Qubad, que foi na verdade sua maior realização, mas o fracasso em fornecer salários e aposentadorias. Hitchens fala sobre a evidência, parte dela aparentemente fornecida pelo irmão de Qubad, de que as ligações de Saddam com a Al-Qaeda precederam a invasão. Qubad discute a necessidade da criação de uma federação no Iraque.

Não é difícil de ver no jovem Talabani o tipo de visão secular e cosmopolita do Iraque à qual Hitchens tentou se apegar ante a ameaça de uma guerra civil entre xiitas e sunitas. Hitchens alega ter aliados entre várias facções iraquianas, mas seu primeiro real contato veio no início dos anos 1990, quando "fazia uma penosa caminhada no norte do Iraque" pesquisando um artigo para a National Geographic sobre o uso, por Saddam, de armas químicas contra os curdos. E foi com as dificuldades deles que ele primeiro se identificou.

O raciocínio de Hitchens para a guerra de 2003 não tem como base a ameaça das armas de destruição de massa, embora ele ainda insista que Saddam representava a principal ameaça do Oriente Médio. Em vez disso, é a noção da necessidade histórica de ruptura de um poder totalitário. Se houver uma retratação de Hitchens, é na sua visão do poder dos EUA como um agente, em vez de um obstáculo, para revolucionar o status quo -e a forma bem menos crítica como ele agora encara os EUA, e na verdade o poder Ocidental.

Hitchens não faz de conta que as coisas tenham ocorrido conforme o planejado. Mas ele pergunta como se pareceria um Iraque pós-Saddam sem a ocupação. "O Iraque era propriedade de um fascista e sádico que estava massacrando seu povo, dilapidando os recursos do país, preparando-se para entregá-lo aos seus inacreditavelmente detestáveis filhos, que provavelmente teriam um fratricídio entre eles pela sucessão. E ao invés disso, temos um bem-humorado socialista curdo como presidente do Iraque e eu é que deveria pedir desculpas."

Para Hitchens, a o ato trágico de ceder terreno à crença islâmica está sendo representado na Palestina. "A causa deles tem sido comprometida e depreciada," ele diz. "Ainda estou com eles. Mas os palestinos costumavam motivar democratas e jornalistas engajados, pessoas no parlamento do Bahrain defendendo os direitos das mulheres. Não mais. Eles se renderam ao Hamas e à Síria e ao Hezbollah, e identificaram-se com as mais podres ditaduras da região."

Ao cunhar o termo "fascismo com uma face islâmica", Hitchens fechou um círculo que engloba os raciocínios contra o fascismo, comunismo e religião. Ele tem tentado resistir a qualquer defesa de um centro liberal. "Nunca me impressionei por coisas do tipo meio termo ou a arte do possível", ele diz. "Por que as pessoas se importam com a política se isso é tudo que elas queriam fazer? Se você não estivesse tentando ver se poderia expandir a arte do possível, romper os limites do viável, redefini-lo, expandi-lo -porque você deveria se importar? Quem quer ser apenas um gerente?"

Uma resposta a isso pode ser: aquelas pessoas que realmente querem melhorar as condições dos desfavorecidos -uma atitude rejeitada por Hitchens como "caridade cristã". Hitchens fica impaciente quando se pergunta a ele no que se transformaram suas opiniões sobre política econômica ou social. Ele diz que não tem mais idéias preconcebidas: "qualquer coisa que funcione; para onde as evidências nos conduzirem." No palco internacional, ele conseguiu um nicho de posições pós-ideológicas para si próprio que ainda são iluminadas pela clareza de uma mente ideológica. Em outros pontos, ele cai em inúmeras contradições.

Ele diz que agora acredita que os Estados nacionais são essenciais para a democracia, mas também continua a favor de uma Europa supranacional. Ele diz não acreditar mais que a redistribuição funcione -uma visão que o coloca fora do âmbito da direita que defende o livre mercado na Europa- e no entanto também defende a "fórmula sueca": que não se pode dizer nada a respeito do status e riqueza dos pais, a partir dos filhos. Acredita que a extrema brecha entre ricos e pobres nos Estados Unidos é intolerável, não em defesa da igualdade mas porque "a solidariedade com outros é ditada pelo interesse pessoal." Odeia o estilo "lei e ordem" na política, mas aprovou o que foi feito por Rudy Giuliani em Nova York. Não tem nenhuma opinião sobre imigração porque "não sei o suficiente sobre isso". Mas Hitchens é um polemista, não um filósofo político ou um fanático por política.

A noção de história como uma discussão a ser esmiuçada, a ser ganha ou perdida, é ironicamente, uma declaração de fé. Sob ela, o caos da realidade humana monopoliza a atenção de idealistas, moralistas e revolucionários da mesma forma. Mas Hitchens é impetuosamente incapaz de abandonar suas reluzentes certezas e se transformar em um liberal realista. As separações e divisões de sua carreira, forjada no debate, parecem ter apenas aumentado seu autoritarismo. Vindo das brasas de um passado imperial, as suas são as últimas labaredas de uma espécie muito inglesa de impetuosidade política. O escritor e jornalista britânico tornou-se conhecido por combinar um vulgar e antiquado estilo intelectualizado de homem-show com um bom olho para uma grande história Claudia Dall'Antonia

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