O espectro digital

Andrew Keen

O tema central dos três novos livros "Against the Machine" ("Contra a Máquina"), de Lee Siegel; "We-Think" ("Nós-Pensamos"), de Charles Leadbeater; e "Here Comes Everybody" ("Aí Vem Todo Mundo"), de Clay Shirky, é uma idéia antiga: a de que a tecnologia é a "locomotiva" que revoluciona a sociedade. Os autores diferem apenas em suas visões de para onde essa locomotiva está nos levando.

Siegel é um pessimista que acredita que tecnologia da informação está destruindo a sociedade, enquanto Shirky e Leadbeater são otimistas que acham que ela permite que nos realizemos como seres sociais.

A locomotiva pode ser velha e suja, mas tem um motor novo e sofisticado. Podemos chamá-la de "expresso digital". Siegel, Shirky e Leadbeater concordam em relação às características dessa locomotiva. Ela é formada por produtos e seviços digitais: a Internet como rede global, os sistemas de telefonia móvel; e, acima de tudo, as novas comunidades cooperativas e auto-alimentadas como o Facebook, Wikipedia, YouTube, Google e centenas de start-ups interativas Web 2.0 que estão transformando o uso que fazemos da mídia. Cada autor tenta imaginar os novos tipos de comunidade que emergirão como conseqüência da mania por wikis, blogs e outras tecnologias cooperativas de código aberto.

Então para que tipo de comunidade essa locomotiva brilhante está indo? Para Siegel, um crítico norte-americano, ela está nos arrastado para longe, e não na direção, do que significa ser humano. Seu vívido criticismo teme pela sobrevivência da verdadeira comunidade humana, ou até do próprio homem, na cultura digital de hoje. O cerne do argumento de Siegel é de que a vida no domínio digital não tem equivalência com a comunidade "real" de carne e osso. "Uma situação social real, mesmo quando as pessoas não falam umas com as outras, está repleta de rostos e objetos vistos de relance, gestos para ver e sons para ouvir que fazem como que a comunicação aconteça. Mas essas visões, sons e gestos... também servem como barreiras para aquilo que você quer expressar. Você não pode ser totalmente 'você mesmo'... Esse é o significado de estar em público."

Para Siegel, a intrincada e complexa sensorialidade da realidade social está dando lugar à utilidade artificial e vulgar da vida virtual. A vida na Internet, diz ele, é falsa, assim como todas as pessoas em sua "comunidade virtual". Sentar-se sozinho em frente a um computador em rede e se "comunicar" com outros seres solitários é um ato profundamente anti-social. Isso "reduz" o complexo mundo social apenas para o que gira em torno de nós e dos nossos apetites, e a Internet passa a ser "o primeiro ambiente social que serve às necessidades do indivíduo isolado e altamente anti-social". A Web é, para Siegel, essencialmente uma ilusão ótica, uma infinita sala de espelhos em que indivíduos atomizados e narcisistas estão na realidade apenas olhando para si mesmos.

Então como podemos lutar contra a máquina? "Ser humano", diz Siegel, requer que nós nos tornemos dissedentes culturais na era da Internet, um grandioso momento histórico que ele descreve, com a solenidade de um reminiscente neo-marxista, como a "fase final do capitalismo". O dissidente deve se recusar a participar do que Siegel chama de "teatro vazio" que transforma a vida interior em um produto para o público. Ser humano significa guardar diligentemente a sua privacidade. Na era da massificação eletrônica, os dissedentes culturais permanecem silenciosos.

O silêncio com certeza não é uma virtude em "We-Think", o antídoto otimista de Charlie Leadbeater ao pessimismo fin-de-siècle de "Against the Machine". "We-Think" é uma polêmica a favor dos benefícios sociais da revolução da nova mídia. Para Leadbeater, um guru da nova mídia que vive em Islington, no Reino Unido, e que já foi tutor de Tony Blair em relação às implicações comunitárias da era digital, a Internet liberta a vasta capacidade da humanidade para a troca. "O futuro somos nós", anuncia Leadbeater.

"We-Think" vira do avesso todas as conclusões de Siegel sobre o individualismo e a comunidade. Agora, com tecnologias de troca como os blogs e wikis, "nós nos definimos não por aquilo que temos, mas por aquilo que trocamos". Na Wikipedia, podemos dividir nossos conhecimentos de forma altruísta; no Facebook podemos dividir nossas vidas com os outros; na blogosfera, podemos dividir a nossa ideologia; em nossos telefones celulares, podemos dividir os nossos movimentos. "We-Think" reescreve a epistemologia cartesiana. "Nós-Pensamos", diz Leadbeater, "logo existimos."

Assim como Leadbeater, Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York, vê o expresso digital como uma representação do verdadeiro começo da história humana. Ele aposta mais alto do que "We-Think" no que diz respeito às implicações culturais, econômicas e sobretudo políticas dessa revolução. Em seu livro "Here Comes Everybody", ele advoga que a nova tecnologia desmascara a artificialidade da liderança, a pretensão das hierarquias humanas não naturais. As novas ferramentas sociais reduzem as organizações ao seu componente fundamental - as pessoas. E as pessoas, para Shirky, são criaturas naturalmente amorosas, sem a tendência de sair por aí mandando uns nos outros.

"Here Comes Everybody" é abertamente o livro mais político dos três. Enquanto Siegel está preso ao eu narcisista, e Leadbeater é tão energicamente idealista que não se detém para observar algo tão mundano quanto a política, Shirky devota uma parte considerável de seu argumento ao "sofrimento" potencial das elites políticas. Não é surpresa para alguém que soa como um Antonio Gramsci do século 21 que Shirky veja a crise da classe política dominante trazida pela revolução da mídia social como uma coisa boa. A tecnologia da informação permite rebeliões "interativas", "mobilizações instantâneas" em "tempo real" em todos os lugares, desde os Estados Unidos de George W. Bush até a Belarus de Alexander Lukashenko.

Devemos adotar o pessimismo apocalíptico de Leadbeter ou o otimismo messiânico de Shirky? Não sou o juiz mais isento nesse caso, uma vez que meu próprio livro, "Cult of the Amateur", está evidentemente no campo de Siegel. O que vou dizer, em prol da imparcialidade, é que os três livros levantam pontos importantes sobre o papel cada vez mais ativo que a tecnologia da informação tem na política e na sociedade.

Mas não se deixe seduzir pelo discurso de tirar o fôlego sobre a mudança de "era" que esses três autores dizem estar testemunhando. Nos anos 60, Marshall McLuhan previu as mesmas conseqüências revolucionárias em relação à era do computador. Nos anos 80 e 90, o debate foi assumido por Neil Postman, Kevin Kelly e George Gilder. No ano passado foi a vez de minha própria crítica e da "longa história" utópica de Chris Anderson.

A verdade é que uma onda de futuristas digitais após a outra está convencida de que estão vivendo a mais profunda mudança na história humana. E a única coisa da qual tenho certeza é de que dentro de dez anos, haverá uma nova geração de Shirkys, Leadbeaters e Siegels nos dizendo que o expresso digital está levando a sociedade para direções que irão alterar a história humana para sempre.


(Andrew Keen é autor de "The Cult of the Amateur.") Eloise De Vylder

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