Os "Bono boomers" da Irlanda

John Kelly

Na década de 1970 a República da Irlanda dependia tanto da agricultura quanto na década de 1850. Para os sem-terra, a emigração continuou sendo a única opção: saíam em média 60 mil pessoas por ano no final do século 20. O termo "a sorte dos irlandeses" era profundamente irônico, até que os irlandeses descobriram que eram europeus.

Em 1973 a república aderiu à Comunidade Econômica Européia. Como um dos países mais pobres, desfrutou de generosos subsídios e concessões, dos quais fez bom uso atraindo investimentos, principalmente dos Estados Unidos. Os gastos domésticos foram severamente mantidos por impostos pessoais draconianos, enquanto o capital estrangeiro era atraído por generosas isenções fiscais e o mais baixo regime fiscal da Europa para corporações. Os filhos dos produtores rurais esforçaram-se na escola, conseguiram MBAs e tornaram-se empreendedores. Os anos de sofrimento foram recompensados por um crescimento de dois dígitos no final da década de 1990.

Então veio o boom e a inevitável orgia de gastos. Foi esse desapertar de cintos que David McWilliams alega ser a causa da atual trepidação que aflige a economia da Irlanda. "Nós nos convencemos de que somos uma espécie de milagre econômico," ele escreve em seu novo livro "The Generacion Game: Boom, Bust and Ireland's Economic Miracle", ("O jogo da geração; sucesso, fracasso e o milagre econômico da Irlanda", em tradução livre), "mas a realidade é que nós somos um grande saque a descoberto sentados no topo de um gigantesco esquema de pirâmide."

McWilliams é um economista, comentarista social e um veterano cético "tigre celta". Ele considera o aperto global de crédito o início do fim para a lua-de-mel econômica da Irlanda, principalmente devido ao impacto sobre o preço das moradias - sobre as quais grande parte da dívida irlandesa está garantida. Ele indica que, ao contrário dos norte-americanos e dos britânicos, companheiros de viagem na bolha imobiliária, a Irlanda está presa à altamente valiosa moeda única européia, sem meios independentes de desvalorização. Sua alta tem sido vertiginosa; a queda pode ser íngreme.

Ao mesmo tempo em que ele admite que a imigração, principalmente da Polônia e dos países bálticos seja "claramente positiva" para a economia, o economista também teme que o mero número de migrantes para uma ilha organizada, porém acostumada ao êxodo, possa criar instabilidade social, especialmente ante a recessão que se aproxima. É verdade que os irlandeses, apesar de sua imagem de comunicativos e despreocupados, não tiveram muita prática com a tolerância racial. E a população do país, de quatro milhões, agora inclui mais de 400 mil imigrantes.

Tais mudanças poderiam ser vistas como algo esclarecido, oportunista ou altruísta, mas McWilliams não enxerga nada disso. A política de portas abertas da Irlanda é resultado direto do acordo de Belfast (ou o Acordo de Sexta-Feira Santa). Ele alega que era mais fácil acompanhar a política britânica para manter as fronteiras com a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte abertas. "Nós poderíamos ter (encontrado um meio-termo)... Mas não poderíamos ser incomodados," observa McWilliams. A Irlanda é um dos países menos densamente povoados da Europa: ainda tem um milhão a menos de habitantes que na década de 1850.

Os imigrantes representam mais de 10% da população, mas eles estão concentrados em Dublin, principalmente em ocupações marginais, tais quais o setor de construção. A ironia não escapa a McWilliams: eles não são só necessários para construir empreendimentos especulativos, como agora são convocados também para ocupá-los como inquilinos.

"The Generation Game" marca alguns poderosos pontos antes de mergulhar em suas conclusões. O autor observa que os irlandeses tendem a confundir renda com riqueza - o país é pobre em ativos, porém rico em dinheiro, e este é altamente alavancado. Os imóveis supervalorizados podem ter criado "milionários fortuitos" mas também levaram a uma desigual distribuição de renda e a um alto custo de vida que abateu o moral de parte dos jovens que não conseguem ter um ponto de apoio para ascender na escalada imobiliária. Entretanto, ao mesmo tempo em que os "ricos" podem ser mais extrovertidos e espalhafatosos que a maioria, existem poucas evidências de que sua existência seja ruim para a economia. McWilliams argumenta que o flerte com a Europa foi conveniente, que os irlandeses são "esquizo-europeus" (meio europeus, meio irlandeses) e que a Irlanda é um país "Ameropean" (entre América e Europa) dependente dos Estados Unidos, só que com "mais em comum com a Grã-Bretanha agora do que em qualquer época durante os últimos 800 anos." Ele chega a especular que "como todos os relacionamentos que seguem seu curso, uma combinação de tédio e o flerte com alguém de fora vão ter seu papel entre a Irlanda e a UE." Essa sedutora observação antecede a proposição de que a Irlanda poderia considerar seriamente sua saída do euro ou até mesmo da própria UE, numa tentativa de evitar uma recessão de longo prazo.

O economista raciocina de forma convincente acerca da previsão de que o "soft power" - das economias do conhecimento - vai triunfar em um mundo globalizado onde a manufatura será monopolizada pela Índia, China e o mundo em desenvolvimento. Mas esse plano B para a Irlanda sugere que cerca de 71 milhões de pessoas em todo mundo, que alegam ser descendentes de irlandeses, poderiam se agrupar como uma espécie de supertribo globalizada. "Em um mundo de monotonia, é essa diáspora que torna a Irlanda diferente."

Essa diáspora produziu figuras tão diversas como Che Guevara (a mãe, da cidade de Galway) e Muhammad Ali (avó irlandesa), sem mencionar três dos Beatles. Mas propor que as crianças da diáspora, do Uruguai ou da Argentina, poderiam receber passaportes irlandeses e a oportunidade de conhecer a vida irlandesa, à moda dos kibutz, nos locais onde se fala gaélico, é pouco plausível. Tais pessoas são de outros lugares agora. De qualquer modo, o papel tradicional do estereótipo irlandês é pagar uma bebida às pessoas no pub e ser tratado com condescendência, e não aparecer com boas idéias para o futuro da Irlanda.

Isso dito, existe a sensação de que todo mundo quer ser irlandês hoje em dia - especialmente os americanos que amam golfe, cujos investimentos internos exerceram um enorme papel na criação da economia de exportação da Irlanda (o país fabrica oito dos dez medicamentos de maior sucesso, incluindo Viagra e Prozac). Além disso, as economias mais bem-sucedidas da Europa atualmente são as pequenas, como a própria Irlanda e a Dinamarca.

"The Generation Game" é uma leitura de aeroporto que não exige esforço, profunda em alguns lugares, deliberadamente discursiva e contraditória, como uma boa discussão irlandesa. Mas não consegue convencer porque McWilliams não condena uma economia que será responsável por vários sustos.

Os irlandeses são baderneiros reincidentes, loquazes em um país sem recursos naturais além do poder da lisonja. O atual esquema Ponzi teve uma boa carreira. Quem iria apostar contra planos dos recém confiantes "Bono boomers" (referindo-se a uma geração que tem como modelo Bono Vox) e o charlatanismo ainda mais audacioso de construir casas demais no país menos populoso da Europa e depois alugá-las para si mesmos? Desde que eles não esperem que todos os descendentes de irlandeses caiam nessa enganação, boa sorte para eles.

(John Kelly é editor da Prospect Magazine) Claudia Dall'Antonia

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