A verdade sobre os alimentos

Robert Paarlberg*

Como é do conhecimento geral, o preço de muitos gêneros alimentícios registrou uma súbita alta no último semestre. O arroz triplicou de preço nos quatro primeiros meses de 2008, o trigo dobrou e o milho subiu 46%. O New York Times considerou isso uma "crise mundial de alimentos" e a revista The Economist a chamou de um "tsunami silencioso". Os elevados preços de importação de grãos, além dos altos preços de combustíveis, impõem um intenso aperto econômico sobre os consumidores urbanos nos países em desenvolvimento que dependem fortemente do mercado mundial. No Haiti, no Egito, em Camarões, na Costa do Marfim, no Senegal e na Etiópia, os pobres das regiões urbanas saíram às ruas.

No entanto, é um erro ver os altos preços como responsáveis pela verdadeira fome. A maior parte dos cidadãos famintos do mundo não obtém seus alimentos no mercado mundial e a maior parte dos que dependem do mercado global não são pobres ou vulneráveis à fome.

No sul da Ásia e na África subsaariana, os níveis de fome são duas vezes mais elevados que nos países em desenvolvimento do Leste da Ásia e quatro vezes mais elevados que na América Latina. Mesmo assim, essas duas regiões com muitos famintos importam poucos alimentos do mercado mundial. Apenas 16% do total de consumo de grãos pelos países da África subsaariana vêm do mercado mundial assim como menos de 10% do total de calorias consumidas. Os países em desenvolvimento do sul da Ásia satisfazem apenas 4% do seu consumo de grãos por meio de importações. Portanto, as flutuações nos preços internacionais terão pouco impacto em tais regiões famintas - bem menos que as flutuações nos níveis pluviométricos, perda de empregos, subsídios do governo ou conflitos civis.

Países profundamente imersos na pobreza dependem muito pouco das importações de alimentos em parte porque a eles faltam as divisas estrangeiras ou simplesmente o poder de compra, mas também porque eles consideram o mercado mundial instável e não confiável - e as atuais altas de preços ilustram a razão.

As causas para a súbita alta também foram mal compreendidas. Ouvimos dizer que o apetite cada vez maior da China por alimentos deve estar elevando os preços mundiais, e há um elemento de verdade ai, quando se trata dos mercados de soja, mas quanto ao trigo, milho e arroz, a China produz o que consome internamente e é um exportador. Ouvimos falar muito que o uso do milho para o etanol elevou os preços e isso é verdadeiro para os mercados de milho, embora a alta mais acentuada tenha sido a do arroz, uma cultura que não é pesadamente influenciada por pressões de biocombustíveis.

Os preços globais do arroz estão elevados em parte porque muitos dos países asiáticos produtores de arroz - Índia, Vietnã, Camboja, Indonésia e China - responderam aos temores de inflação em casa restringindo as exportações de arroz. Quando múltiplos exportadores fazem isso ao mesmo tempo, cria-se uma escassez artificial e os preços internacionais registram essas altas inesperadas. Na realidade, a produção global de arroz cresceu mais rapidamente este ano, que o consumo total.

As respostas internacionais à atual crise concentraram-se nos habitantes dos centros urbanos porque eles são politicamente mais ativos e estão ao alcance das câmeras dos noticiários, mas a real crise mundial de alimentos é encontrada principalmente no campo.

Mais de 60% de todos os africanos moram e trabalham em comunidades rurais empobrecidas - à mingua por falta de qualquer tipo de investimento moderno. Numa base per capita, a produção agrícola da África atualmente é na realidade 19% menor que em 1970. Levando em conta a antecipação dos ônus acrescidos das mudanças climáticas, o número de pessoas subnutridas na África poderá triplicar até 2080 - com ou sem os elevados preços dos mercados mundiais. Os governos na África, notoriamente favoráveis ao setor urbano, fizeram poucos esforços para melhorar as condições de seus próprios pobres das zonas rurais. Eles costumam dedicar menos de 5% do orçamento nacional ao setor agrícola. E parte da responsabilidade também cai sobre os ricos paises doadores, que têm incentivado esse descaso com a agricultura.

Por exemplo, a agência norte-americana para desenvolvimento dedica atualmente à agricultura apenas 1% de seu orçamento de assistência bilateral de desenvolvimento, e nas duas últimas décadas reduziu em 75% sua assistência a programas de ciência agrícola na África. O Banco Mundial dedicou 30% de seus empréstimos à agricultura em 1978, mas essa parcela agora caiu para apenas 8%.

Uma das razões pelas quais os países ricos deixaram de dar apoio ao desenvolvimento agrícola depois da década de 1970 foi a ilusão - causada pela queda internacional nos preços de mercado nas décadas de 1980 e 1990 - de que os problemas de alimentos do mundo haviam sido resolvidos. Mas a utilização de tendências de preços como um guia para o estabelecimento de uma política foi tão pouco confiável na ocasião quanto o é hoje.

Por sorte, alguns na comunidade de doadores estão agora ressuscitando os investimentos de longo prazo na infra-estrutura rural e na produtividade agrícola local, particularmente na África. O novo presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, anunciou recentemente um plano para elevar os empréstimos no setor agrícola para a África no próximo ano, de US$ 450 milhões para US$ 800 milhões, e nos dois últimos anos a Fundação Bill e Melinda Gates começou a dedicar mais de suas doações às necessidades de produtores agrícolas pobres na África.

Um investimento para redução da pobreza que seria particularmente útil para ajudar produtores agrícolas na África seria nas culturas com melhores condições de tolerar a seca. Empresas privadas nos Estados Unidos, tais como a Pioneer-Dupont e a Monsanto, recentemente usaram engenharia genética para introduzir características de tolerância à seca no milho amarelo, um produto que provavelmente será colocado daqui a vários anos no mercado ocidental.

Mas são produtores da África cultivando variedades tropicais de milho branco que necessitam mais dessa nova característica de tolerância à seca, e até agora os governos da África têm estado sob pressão para não aprovar quaisquer safras geneticamente modificadas ante o temor de perder acesso a mercados para exportação na Europa. Os europeus bem alimentados não precisam da produtividade agregada que tais tecnologias fornecem e, portanto as culturas geneticamente modificadas têm sido rejeitadas pelos consumidores. Talvez o atual período de preços mais elevados de commodities sirva para nos lembrar que todos os produtores agrícolas no mundo em desenvolvimento ainda não podem considerar como certa a produtividade e a abundância.

*Robert Paarlberg é professor de Ciência Política em Wellesley College, Massachusetts Claudia Dall'Antonia

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