Algumas pessoas precisam de um "empurrão" para agir de acordo com o interesse próprio

Tom Nuttall*

À lista contemporânea de espécies ameaçadas é preciso acrescentar o Homo economicus, ou "homem econômico", que por 200 anos deslumbrou estudantes de economia com seus feitos de racionalidade ilimitada e autocontrole supremo. O Homo economicus é uma abstração usada na tradição clássica pelos economistas para prever o comportamento econômico humano. Ele é um "maximizador racional", em que dada quaisquer condições, ele buscará com sucesso suas próprias metas arbitrárias no maior grau possível, não tolhido pela indecisão, perda de memória ou falta de vontade.

As primeiras ameaças ao Homo economicus apareceram há cerca de 20 anos, quando dois psicólogos, Amos Tversky e Daniel Kahneman, mostraram que sob condições de risco e incerteza, a tomada de decisão pelas pessoas exibia várias propensões sistemáticas e irracionalidades que iam contra as previsões da economia clássica.

De lá para cá, Kahneman e outros continuaram produzindo trabalhos (Tversky morreu em 1996) explorando as descobertas da psicologia experimental para sugerir que as previsões da economia clássica não condizem com o comportamento econômico do mundo real. Em 2002, ele recebeu o Prêmio Nobel de Economia - o primeiro e até o momento único não-economista a recebê-lo - pela "integração de percepções da pesquisa psicológica na ciência econômica".

Kahneman alega ter aprendido economia com seu colaborador regular, Richard Thaler, atualmente professor da Universidade de Chicago. Thaler, juntamente com seu colega Cass Sunstein, professor de Direito, é autor de "Nudge" - um manifesto para o crescente campo que os autores chamam de "paternalismo libertário". Ele soa um oxímoro, como reconhecem os autores, mas o pensamento por trás dele é suficientemente coerente. Ele deixa intacto o princípio básico do libertarismo - as escolhas dos indivíduos não devem ser restringidas pela autoridade externa - mas usa os entendimentos da economia comportamental para "nudge" (cutucar, empurrar delicadamente) as pessoas na direção de tomarem "melhores" decisões. E, de forma crucial, isto significa "melhor" não apenas aos olhos daquele que empurra (freqüentemente o governo), mas aos olhos daquele que escolhe, assim que são capazes de considerar suas opções de forma fria e calma - no espírito, em outras palavras, do Homo economicus.

Considere as aposentadorias. À medida que as empresas e governos se tornam menos generosos em relação aos planos de aposentadoria que oferecem aos seus funcionários, crescem as preocupações sobre se a atual geração de trabalhadores está economizando o suficiente para a aposentadoria. Muitos trabalhadores não ingressarão em planos de previdência privada nem dedicarão uma parcela suficiente de sua renda a eles, supostamente por inércia. Mas, quando perguntados, uma alta proporção desses trabalhadores dizem que sabem que estão agindo contra seu próprio interesse - Thaler e Sunstein citam um estudo que aponta que 68% dos participantes dos planos 401(k), uma forma popular dos trabalhadores americanos economizarem para a aposentadoria, disseram que o valor destinado às suas aposentadorias era baixo demais.

Não havia nada impedindo essas pessoas de aumentarem suas contribuições; nada formal, pelo menos. Mas a inércia, como mostra a economia comportamental, pode ser uma força quase tão poderosa quanto qualquer obstáculo oficial.

A tradição libertária não tem nada a dizer a respeito disso. As opções dos trabalhadores não são restringidas; eles são livres para fazer o que quiserem a respeito de suas aposentadorias, e se tomarem uma decisão ruim, então, bem, a vida é dura. Mas o paternalista libertário sabe que um funcionário provavelmente está agindo contra seu próprio interesse - e sabe como ajudar.

Em áreas como a tomada de decisão sobre a aposentadoria, onde a inércia é freqüentemente a regra, o estado padrão importa muito. Se o estado padrão é o dos funcionários não ingressarem em um plano de aposentadoria, ou o valor dedicado a ele é muito baixo, então você descobrirá que a maioria dos seus funcionários não possui plano ou não economiza o suficiente. Então o que fazer? Você muda o padrão: novos funcionários são automaticamente colocados em um plano, com um percentual maior da renda dedicado a ele. Você é completamente transparente a respeito e não coloca nenhum impedimento formal no caminho do funcionário se ele ou ela quiser sair, ou economizar menos - esta é a parte libertária - mas, simplesmente ao mudar o padrão, você perceberá que fez uma enorme diferença em relação ao problema dos trabalhadores não economizarem o suficiente.

É uma idéia que encontrou uma audiência na Europa. No Reino Unido, uma recente revisão do sistema previdenciário incluiu uma proposta de ingresso automático. A doação de órgãos é outro exemplo - no início deste ano, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que tem interesse pelo trabalho de Sunstein, falou a favor de um sistema de "consentimento presumido", no qual o Estado presumirá que um indivíduo deseja que seus órgãos sejam doados após a morte a menos que ele ou ela declarem explicitamente o contrário - diferente do atual sistema de declaração de desejo de doação.

Além de seu interesse intrínseco, há dois motivos para se importar com este livro. Primeiro, é uma tentativa séria de pegar lições dos trabalhos recentes em psicologia experimental e aplicá-las à política pública. Segundo, tanto Thaler quanto Sunstein têm laços estreitos com a campanha presidencial de Barack Obama. As políticas de Obama ainda não mostram sinais da influência de "Nudge", mas a postura de "terceira via" que anima o livro combina bem com a natureza pós-ideológica de sua campanha. Uma vitória de Obama em novembro pode muito bem resultar em idéias do paternalismo libertário sendo colocadas em teste.

*Tom Nuttall é editor sênior e online da revista Prospect George El Khouri Andolfato

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