Bin Laden está perdendo?

Jason Burke*

No último mês de maio, dois artigos escritos por especialistas ocidentais na Al Qaeda sugeriram que a organização terrorista de Bin Laden poderia estar em franco declínio. Ambos foram fruto de pesquisas meticulosas e receberam grande atenção. Peter Bergen e Paul Cruickshank, pesquisadores da Universidade de Nova York, e Lawrence Wright, da revista "The New Yorker", são analistas respeitados da militância islâmica.

O artigo dos dois primeiros especialistas, publicado na revista "New Republic", teve como foco a desilusão entre os ex-militantes com a estratégia adotada nos últimos dez anos pelos líderes da Al Qaeda, Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri. Segundo eles, essa insatisfação deve-se em parte ao fracasso desta estratégia em alcançar os seus objetivos, e também aos efeitos assustadores da violência gerada por ela. Os pesquisadores vincularam isso a um declínio mais amplo da popularidade da Al Qaeda e da sua ideologia no mundo islâmico e entre as comunidades de imigrantes no Ocidente.

O artigo de Wright concentrou-se mais no Egito, que continua fornecendo uma quantidade desproporcionalmente elevada de figuras-chave para a liderança da Al Qaeda. Wright relatou os motivos para a recente rejeição da jihad violenta por um dos estrategistas originais da Al Qaeda, o prisioneiro Sayyid Imam al-Sharif, também conhecido como Doutor al-Fadl.

Na sua cela, al-Fadl escreveu um livro explicando por que as suas ações anteriores foram equivocadas.

Todos os três especialistas estão certos ao falar sobre as divisões dentro da Al Qaeda e o declínio da popularidade da organização. Mas parte do entusiasmo quanto aos dois artigos baseou-se na falsa idéia de que a Al Qaeda subitamente cindiu-se, ou de que houve uma recente queda na sua popularidade. Na verdade, os vários elementos do fenômeno Al Qaeda - o núcleo duro, a rede de redes, os protagonistas e ideologias autônomos e "domésticos" - nunca foram muito unificados. A conclamação da Al Qaeda para que as "massas muçulmanas" levantem-se em uma revolta geral contra aquilo que a organização vê como poderes apóstatas no Oriente Médio e no Ocidente vem perdendo ímpeto há muitos anos.

Esta ausência de unidade é evidente desde a criação da Al Qaeda no final da década de 1980. Acabar com essa desunião era, na verdade, um dos principais objetivos dos fundadores. Veteranos afegãos daquela época gostam de relatar as várias brigas que dividiram os "árabes", e de lembrar que al-Fadl já era um inimigo ferrenho de al-Zawahiri 30 anos atrás.

As coisas não melhoraram muito na década de 1990. Grupos da Argélia à Indonésia rejeitaram as ofertas de apoio logístico feitas por Bin Laden em troca de lealdade, concentrando-se, em vez disso, nas lutas de âmbito local. Em 1999, no Afeganistão, eu obtive uma fatwa que o próprio Bin Laden recebeu de Abu Qatada, um clérigo radical que morava em Londres (e que recentemente foi libertado da prisão no Reino Unido), para defender-se de uma crítica de um rival, segundo a qual ele não era suficientemente radical. E, a seguir, houve o 11 de setembro, que foi profundamente polêmico, mesmo entre as dezenas de líderes da Al Qaeda.

Após os atentados, as fileiras cerraram-se em torno de Bin Laden, mas não por muito tempo. O brutal Abu Musab al-Zarqawi, no Iraque, mantinha uma relação rancorosa e competitiva com os mais velhos e mais conhecidos Bin Laden e al-Zawahiri. O Taleban também manteve distância dos "árabes", apesar de haver uma certa sobreposição das ações dos dois grupos.

O que surpreende na reavaliação doutrinária de al-Fadl não são tanto os detalhes a respeito de como se comportar enquanto hóspede em uma "nação inimiga", mas sim o simples realismo. Ele argumenta que a luta no Afeganistão deveria ter continuado, enquanto a do Iraque deveria ter sido abandonada, porque só a primeira poderia ter sucesso. Mas uma faceta realista no pensamento radical também vem crescendo há algum tempo.

No seu mais recente trabalho, "Terreur et Martyr", o pesquisador francês Gilles Kepel descreve como o pensador espanhol-sírio e ativista da jihad conhecido como Abu Musab al-Suri (atualmente preso nos Estados Unidos) começou a questionar há muito tempo a estratégia de al-Zawahiri, argumentando que, longe de colocar os militantes na rota de uma vitória, atacar o "inimigo distante" no Ocidente em vez de o "inimigo próximo" na forma dos regimes locais do Oriente Médio, apóstatas e despóticos, significou para ele e para os outros militantes ficar de costas para a parede, e ser caçado em todo o mundo.

E isso nos remete à opinião das populações muçulmanas. Bergen, Cruickshank e Wright provavelmente estão certos ao argumentarem que recentemente houve uma nova redução do apoio à liderança da Al Qaeda, mesmo entre os militantes muçulmanos. Mas a dimensão desse apoio no passado foi muitas vezes exagerada. Nos últimos cinco anos, eu viajei com freqüência ao Oriente Médio e ao sudoeste da Ásia, e para mim ficou claro que a maioria das pessoas, apesar do anti-americanismo, do anti-sionismo e do anti-semitismo profundamente arraigados - e de uma profunda desconfiança em relação aos governos locais corruptos - não atendeu ao chamado da Al Qaeda para pegar em armas.

Conforme enfatizam Bergen e Cruickshank, a razão para isso é simples: o pacote oferecido pelos militantes não é atraente. Viver sob uma sharia é na melhor das hipóteses a menos pior das alternativas, conforme ocorreu com os afegãos que receberam o Taleban de braços abertos no início da década de 1990 após anos de guerra e anarquia. E existe uma correlação evidente entre a exposição à realidade da violência e uma queda do apoio à violência. Os mais combativos militantes que eu entrevistei geralmente eram aqueles que mantinham-se mais distantes das explosões das bombas: em Amã (pelo menos até que esta cidade também fosse alvo de um atentado à bomba), e não em Bagdá; em Manchester, e não em Peshawar.

Ao se defrontar com a realidade da violência terrível e da estagnação econômica, a maioria das pessoas abandona as quase milenares imagens jihadistas e retorna a uma realidade mais prosaica, conforme parece ter feito al-Fadl. Este é um fracasso estratégico para Bin Laden e al-Zawahiri, que sempre reconheceram que, para irem além da mera sobrevivência, precisariam mobilizar populações inteiras. A violência espetacular foi o meio que eles escolheram para atingir esse objetivo, mas parece que a estratégia não funcionou.

*Jason Burke é autor do livro "Al Qaeda: The True Story of Radical Islam" ("Al Qaeda: A Verdadeira História do Islamismo Radical") UOL

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