O blues do Rio Amarelo na China

Rob Gifford

Se a geografia for um destino, a rota percorrida pela China será sempre difícil. Há milhares de anos a população do país luta para conter o avanço dos seus desertos, conquistar as suas montanhas e controlar os seus rios. O Yangtzé é o mais extenso e mais perigoso dos cursos d'água do país, mas foi o Rio Amarelo que ficou conhecido como o "Rio Mãe". A civilização chinesa emergiu ao longo das margens do Rio Amarelo, e as suas águas traçaram uma correnteza constante de esperança e desespero através dos séculos. Atualmente o Rio Amarelo é uma sombra daquilo que foi no passado, e representa um novo dilema para o futuro da China.

Os chineses costumavam dizer que o Rio Amarelo era um dragão, com uma cabeça de latão, uma cauda de ferro, mas uma cintura de tofu. O seu trecho intermediário, entre Hancheng e Kaifeng, era sujeito a inundações freqüentes, que matavam milhões de pessoas e ameaçavam os imperadores devido às revoltas populares que se seguiam. Quase que exatamente no ponto médio entre a cabeceira e a foz do rio encontra-se a represa de Sanmenxia, que exibe oito enormes caracteres vermelhos na sua face - /huang he an lan guo tai min an -/ ("Quando o Rio Amarelo está em paz, a China está em paz").

Esta frase remonta à lenda de Yu, o Grande, cuja estátua fica em um local não muito distante da barragem. Conta-se que ele foi o primeiro a controlar as enchentes do Rio Amarelo. E não é por coincidência que se diz que ele fundou a primeira dinastia da China, a Xia, e que, desde então, a legitimidade dos governantes da China esteve vinculada à capacidade de controlar o Rio Amarelo.

A represa de Sanmenxia é uma prova moderna de que o Rio Amarelo foi domado. Talvez domado demais. A contenção da água também represou o lodo, causando problemas à montante do rio. Mas, hoje em dia, após a represa e as suas comportas, as margens do rio raramente cedem como se fossem feitas de tofu. O ser humano não precisa mais ser protegido do rio. O problema agora é como proteger o rio do homem. O Rio Mãe não só encontra-se extremamente poluído, como também está deixando de funcionar - em três dos últimos dez anos do século 20, o rio não conseguiu chegar ao mar, tendo secado na província de Shandong, várias centenas de quilômetros antes de alcançar a sua foz natural, na costa oriental da China.

Na China, as pessoas dizem que 70% de um balde de água do Rio Amarelo consiste de lama. Na cidade industrial de Lanzhou, situada após a queda das águas a partir do Platô Tibetano, a impressão que se tem é que 70% da água consiste de resíduos tóxicos.

Há muito tempo Lanzhou faz parte da lista das 20 cidades mais poluídas do mundo. Uma nuvem de fumaça - o smog - cobre a cidade como se fosse uma cortina de névoa amarela. Quando as águas puras do rio emergem das montanhas do Tibete, no sudoeste, e correm para Lanzhou, elas começam a absorver a terra amarela, conhecida como loess, do solo cada vez mais árido da região. Pela primeira vez o rio adquire a tonalidade amarelada que retém durante a sua jornada rumo ao Golfo de Bohai, no leste. Aqui a paisagem se transforma. Ao contrário do verde bem preservado do Platô Tibetano, encontra-se uma terra árida, danificada e sufocada, na qual a natureza não mais comparece.

Os governos locais relutam em fechar as fábricas poluidoras devido aos empregos e à prosperidade proporcionados por elas. A legitimidade do governo é quase que inteiramente econômica, de forma que ele não pode conter o crescimento industrial. O governo precisa criar empregos, que geram estabilidade social. Assim, vemos aqui uma das maiores contradições da China moderna, refletida nas águas turvas do Rio
Amarelo: a economia de mercado pode muito bem ser a salvação do Partido Comunista, mas pode também provocar a sua ruína.

Quando o rio passa pelos trechos mais baixos, banhando as capitais da antiga China, talvez seja apropriado o fato de ali estar se construindo um projeto de estilo imperial. As antigas cidades - Kaifeng, Luoyang, Zhengzhou e Xi'an - estão ascendendo novamente e contribuindo desastrosamente para a situação de emergência devido à falta d'água no norte da Planície da China. O Partido Comunista acredita contar com uma solução, a obra que foi chamado apressadamente de "Projeto de Transposição de Água do Sul para o Norte".

Zhang Tongli é o responsável pelo projeto na província de Henan, e ele me recebeu no seu escritório de dimensões imperiais na capital regional de Zhengzhou. Com o seu jeito meio presunçoso, ele apresentou alguns dados. "Este é o maior projeto aquático do mundo, contando com três diferentes canais que vão do Rio Yangtzé ao norte da China", afirmou ele. "O projeto inteiro custará US$ 60 bilhões e transferirá quase 50 trilhões de litros de água por ano do Rio Yangtzé, que fica uns 500 quilômetros ao sul daqui. A conclusão da obra demorará pelo menos mais 30 anos".

Os canais não alimentarão o Rio Amarelo, mas passarão por debaixo dele, seguindo pelas regiões áridas ao norte da intercessão dos dois cursos d'água. Assim como a Grande Muralha ou a represa de Três Gargantas no Yangtzé, este é um projeto enorme, que só tornou-se possível devido a um governo central forte e rico. Mas será que esta obra baseia-se no bom senso? E ela será construída com a rapidez que se faz necessária?
Ninguém tem permissão para formular estas perguntas.

A China urbana praticamente não presta atenção no problema da água. As cidades crescem economicamente a um índice anual de 10%, e isto significa que a demanda por água também aumentará. Até a década de 1980 a água era gratuita na China, e atualmente ela é fortemente subsidiada.

O partido teme perder o apoio da classe média urbana caso cobre mais pela água. Assim, ele permite que as fontes sequem, quando deveria estar cobrando pelo consumo a fim de conservar as reservas aqüíferas do país.

Eu peguei um trem para o leste, ao longo do rio, no trecho em que ele passa pela província de Shandong. Foi aqui que o rio deixou de correr na década passada, alertando o governo para a crise de água que agora as autoridades procuram resolver.

O final da jornada do Rio Amarelo é melancólico, quando ele arrasta-se exausto até a costa. Hoje em dia pelo menos o rio alcança o mar. Mas será que o Rio Mãe será capaz de sobreviver? Eles sempre simbolizou a grandeza da China, e atualmente simboliza novamente os sonhos de grandeza do país. A concretização plena dessa grandeza dependerá da forma como o governo lidar com as contradições entre desenvolvimento e preservação, que estão refletidas nas águas lamacentas do Rio Amarelo.

Rob Gifford é autor do livro "China Road: A Journey into the Future of a Rising Power" (A Estrada da China: Uma Jornada de uma Potência Ascendente Rumo ao Futuro") UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos