Prevenção contra a Aids ainda conta com poucas armas

Tony Barnett*

Quase trinta anos desde o início da maior a epidemia de doença infecciosa global da história e ainda não sabemos o que funciona na prevenção da Aids. Bilhões de dólares, libras, ienes e euros foram gastos, e agora temos terapias anti-retrovirais para pessoas que foram diagnosticadas com Aids. Entretanto, quanto à prevenção, temos muito poucas armas.

De acordo com Helen Epstein, jornalista e autora de "The Invisible Cure: Africa, the West and the Fight Against Aids" (A cura invisível: a África, o Ocidente e a luta contra a Aids), um dos melhores livros recentes sobre a epidemia, a gravidade da transmissão heterossexual de HIV observada em algumas partes da África reflete os altos níveis de parceria sexual concorrente.

Uma pessoa recém infectada passa por uma fase parecida com uma gripe, algumas semanas depois da infecção, resultante da alta população viral em seu corpo e da tentativa de seu sistema imunológico de combater o invasor. Durante este período de alta viremia, a pessoa se recupera do mal-estar inicial e volta a sua rotina (apesar de, no final, suas defesas fracassarem). Entretanto, devido à alta população viral, se fizer sexo nessa época é muito provável que infecte seu parceiro.

Se tiver mais de um parceiro, as chances de infecção são altas para cada um desses parceiros e, subseqüentemente, para outros em sua rede sexual estendida. Se também estiverem presentes outras infecções sexualmente transmitidas, a probabilidade de transmissão aumenta enormemente. Este é o principal argumento de Epstein: a epidemia de HIV não é sobre o número de parceiros, mas sobre o processo epidemiológico distinto de parcerias concomitantes.

Por que tem sido tão difícil as políticas de HIV se concentrarem no problema da concomitância? Há três razões interligadas. A primeira é uma dependência exagerada e politicamente correta da "solução do preservativo"; a segunda é a transferência das estratégias de prevenção da epidemia homossexual nos EUA para uma situação muito diferente na África; a terceira é a forma que outras questões, desde o alívio da pobreza até ameaças a segurança global, foram atreladas à epidemia do HIV como meio de levantar fundos.

Primeiro, a falácia do preservativo. É óbvio que uma barreira física impede a transferência do vírus. O preservativo foi muito importante na redução da transmissão da doença em heterossexuais e homossexuais em países ricos. Dos outros países que reduziram a disseminação do HIV, somente o sucesso da Tailândia pode ser claramente atribuído ao uso disseminado do preservativo -e isso exigiu um alto nível de apoio do governo. Mesmo assim, em 2007, a Tailândia teve um total cumulativo estimado de 1,1 milhão de pessoas infectadas desde o início da sua epidemia.

Apesar dos recursos dedicados à distribuição de preservativos na África nos últimos 28 anos, nunca houve material suficiente, e as pessoas têm relutado em adotá-los. O programa da Organização das Nações Unidas para HIV e Aids estima que haja atualmente em torno de 22,5 milhões de pessoas vivendo com HIV e Aids na África subsaariana, quase um terço de todas as novas infecções de HIV e de mortes relacionadas à Aids do mundo. Em 2005, estavam infectadas 15% das mulheres entre 15 a 49 anos participando das clínicas pré-natais em Botsuana, Lesoto, Moçambique, Namíbia, África do Sul, Suazilândia, Zâmbia e Zimbábue. Em alguns países, a presença do vírus aproximou-se ou até excedeu 30% nessa faixa etária.

Então, os preservativos não funcionaram na África. Outras estratégias que poderiam ter sido testadas continuaram sem fundos. Essas incluem o desenvolvimento de germicidas vaginais que poderiam ser controlados pelas mulheres e a circuncisão masculina -que parece oferecer proteção com pelo menos 60% de eficácia. Os homens agora estão fazendo fila para a circuncisão em partes do Sul da África. Em algumas clínicas em Suazilândia, a demanda aumentou 100 vezes em alguns meses.

É preciso passar apenas um pequeno período nas comunidades pobres rurais e urbanas da África para compreender algumas das razões pelas quais os preservativos não funcionaram bem para os heterossexuais africanos: acomodações compartilhadas com crianças, vergonha sobre sexo e, talvez acima de tudo, o problema de comprar preservativos em comunidades pequenas nas quais o proprietário da venda local talvez seja seu tio -ou até o marido de sua amante.

Há também um problema na hora do descarte, quando os vasos sanitários com descarga são raros e cabras e outros animais domésticos podem engasgar em preservativos descartados casualmente. Outras razões pelas quais as pessoas não gostam deles incluem crenças sobre a natureza do prazer sexual, o papel do sêmen na bruxaria e a importância da fecundidade. Em outras palavras, o que funcionou para homens em São Francisco ou Brentwood não funcionou para homens e mulheres em Harare, Johannesburgo, Gaborone ou Nairóbi.

Há, contudo outras razões pelas quais as estratégias de prevenção de HIV fracassaram na África centradas no consenso politicamente correto que nada especificamente "africano" pode ser criticado. Fale dos aspectos do comportamento sexual africano e correrá o risco de ser rotulado como racista. Pessoas humildes foram ignoradas porque o que disseram parecia endossar a agenda conservadora nos EUA, onde as chamadas "guerras culturais" geraram uma preocupação com o estigma e uma ênfase no direito humano individual -preocupações não apropriadas às condições africanas e que provocaram níveis altos de infecção. Muitos dos que estão levantando fundos para a prevenção no Ocidente também se sentiram obrigados a dar "explicações apropriadas" para a doença. Então, dizem que a epidemia de HIV é causada pela pobreza, disseminada pelas forças militares e é uma ameaça à segurança nacional americana. As evidências para esses argumentos são no mínimo ambíguas.

O HIV/Aids alterou irrevogavelmente a história de parte da África. Epstein nos mostra como a disseminação da doença foi agravada pelas conseqüências de um conflito cultural a milhares de quilômetros dos locais afligidos. Transportes, urbanização e a mistura cada vez maior das populações pelo globo têm profundas implicações para doenças infecciosas em geral, seja em humanos ou em animais, novas, emergentes ou ressurgentes. Exemplos recentes incluem BSE e língua azul no Reino Unido, a febre do Oeste do Nilo no Leste dos EUA, a doença do legionário, a gripe das aves e a ameaça de uma pandemia de gripe humana. A lição do livro de Epstein é mais relevante nessas épocas: ideologia e correção política são ruins para a saúde pública.

* Tony Barnett é pesquisador do Esrc na Escola de Economia de Londres Deborah Weinberg

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