Origem escocês-irlandês de John McCain explica o seu temperamento instável

Anatol Lieven*
Para a Prospect

Por descendência, John McCain é um escocês-irlandês. Isto quer dizer, ele vem de uma das tradições mais antigas, mais admiráveis e etnoculturais mais preocupantes nos Estados Unidos. Em um grau notável, esta tradição está refletida nos traços de caráter de McCain: sua obstinação, sua tendência a amizade inabalável e ódio implacável; seu temperamento instável; seu profundo patriotismo; sua obsessão com a honra americana; e sua resposta furiosa a qualquer crítica aos Estados Unidos. Estes não são apenas produtos de uma formação militar e experiência como prisioneiro no norte do Vietnã, mas também resultado de ser um descendente orgulhoso dos combatentes de índios e soldados confederados.

Ambos os lados da família de McCain vêm do velho Sudoeste confederado: o lado do seu pai do Missouri, o de sua mãe do Tennessee, Texas e Oklahoma. O tataravô de McCain, William Alexander "Bill Guerreiro" McCain, foi um soldado confederado. Sua família paterna seguiu a rota clássica escocesa-irlandesa do século 18, da Escócia, descendo da Virgínia pelas Carolinas até a velha fronteira nos Apalaches e além. A mãe de McCain nasceu em Muskogee, Oklahoma, o cenário do hino de Merle Haggard da cidade pequena, patriótica e conservadora americana, "Okie From Muskogee", onde: "Nós não fumamos maconha em Muskogee/ Não viajamos em LSD/ Não queimamos nossos cartões de convocação na rua principal/ Nós gostamos de viver direito e ser livres".

Os escoceses-irlandeses americanos são descendentes dos protestantes escoceses que foram estabelecidos no Ulster do século 17 pelos reis Stuart, um processo que envolveu a limpeza étnica de grande parte da população católica irlandesa nativa. No século 18, estes escoceses-irlandeses que se mudaram para a fronteira oeste das colônias britânicas na América do Norte levaram consigo uma experiência anterior de combate na fronteira e uma identificação fundamentalista de sua causa com Deus. A falta de lei na fronteira americana, seus altos níveis de violência entre os homens brancos e os conflitos ferozes com os nativo-americanos perpetuaram esta cultura até a sociedade americana moderna.

Nas palavras de um biógrafo do herói pessoal de McCain, o presidente escocês-irlandês Andrew Jackson: "Parece ser mais difícil para um norte-irlandês (...) permitir uma diferença de opinião honesta em um oponente, para que possa considerar os termos oponente e inimigo como sinônimos". Coisas semelhantes já foram freqüentemente ditas sobre McCain.

A tradição escocesa-irlandesa pertence acima de tudo ao "grande Sul" e está no âmago da maioria das tradições brancas sulistas. O historiador sulista Grady McWhiney chegou até mesmo a atribuir grande parte da diferença cultural entre o Sul e o restante dos Estados Unidos à herança escocesa-irlandesa. O reflexo político mais duradouro disso é o "nacionalismo jacksoniano", batizado segundo o presidente Jackson, cuja carreira foi moldada pelo conflito brutal com os nativo-americanos e os britânicos, franceses e espanhóis que os apoiavam. O nacionalismo jacksoniano foi descrito por Walter Russell Mead como um dos quatro elementos históricos-chave da política de segurança e externa dos Estados Unidos.

O primeiro caráter definidor da fronteira foi, é claro, o conflito com os nativo-americanos, no qual ambos os lados cometeram atrocidades aterradoras. Isso gerou em áreas da tradição americana uma capacidade para brutalidade e um gosto por vitória irrestrita. A segunda foi o constante expansionismo, freqüentemente exigida pelas populações brancas da fronteira contra a vontade dos governos em Washington.

A fronteira também ajudou a manter vivo o culto do armamento pessoal associado a certo tipo de igualitarismo e a crença de que todo homem tem direito a defender sua honra -um tema clássico dos faroestes de Hollywood, mas um com raízes reais nas tradições sulistas e da fronteira.

Estas atitudes perderam muita força no Sul e no Oeste, mas ainda se destacam nestas regiões em comparação ao restante dos Estados Unidos, e principalmente em relação ao restante do mundo desenvolvido. Segundo um estudo de 2003 -relatado em parte por pesquisadores heróicos das universidades americanas, que trombavam com estudantes, gritavam com eles e comparavam suas reações aos seus Estados de origem- "os estudantes da parte sul dos Estados Unidos reagiam bem mais agressivamente do que os do Norte (...) e em testes regularmente sugeriam soluções bem mais beligerantes aos problemas".

Isto teve efeitos óbvios sobre as atitudes americanas após o 11 de Setembro, quando o mundo passou a ser mais visto por muitos americanos como uma fronteira sem lei habitada por selvagens estranhos. É claro, seria errado ver os escoceses-irlandeses de hoje como formando uma comunidade estanque com características culturais uniformes. À medida que sua cultura se espalhou e influenciou grande parte da cultura branca no interior americano, ela também se enfraqueceu.

Todavia, há muito do escocês-irlandês em McCain para me deixar nervoso a respeito de como se comportaria como presidente. Isto se deve menos às suas políticas, que divergem menos das de Obama do que pode parecer com base na campanha eleitoral (com a reconhecida exceção do Irã). Em vez disso, eu fico nervoso com a possível reação de McCain a eventos inesperados, choques e provocações, que poderão ser abundantes nos próximos anos. Em uma crise, onde o temperamento explosivo de McCain o levaria?

O temperamento de McCain é lendário em Washington. O senador republicano Thad Cochran lembra de um confronto com um rebelde sandinista, no qual McCain "ficou louco com o sujeito e o agarrou".

Para resumir tanto McCain e sua tradição com uma velha expressão, seria possível dizer que não há ninguém melhor para se ter ao lado em uma briga -e ninguém com maior probabilidade de arrastá-lo para uma.

* Anatol Lieven é professor do departamento de estudos de guerra do King's College de Londres. Ele é autor de "America Right or Wrong: An Anatomy of American Nationalism". George El Khouri Andolfato

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