Quanto vale uma aldeia?

Thomas de Waal*

Se toda política é local, então precisamos saber o que aconteceu nas aldeias georgianas de Avnevi, Tamarasheni e Kurta, na tarde de 7 de agosto, pouco antes de a Geórgia e a Rússia mergulharem o mundo em uma crise.

Autoridades georgianas dizem que essas três aldeias de georgianos étnicos ao redor da cidade de Tskhinvali, na Ossétia do Sul, sofreram um ataque constante logo depois que o presidente Mikhail Saakashvili anunciou um cessar-fogo unilateral nas escaramuças locais entre os dois lados na Ossétia do Sul. O lado osseto diz que a tarde de 7 de agosto foi relativamente tranqüila até que Saakashvili lançou um grande ataque que então provocou a brutal resposta russa.

No Cáucaso, a política local é importante, mas poucos estrangeiros a compreendem. A região é vista pelo lado errado de um telescópio geopolítico, inscrita em cenários estratégicos de grande escala que desprezam os habitantes de lugares como Avnevi ou Tskhinvali.

A Ossétia do Sul é um lugar pequeno, com população de 70 mil. Tskhinvali, a chamada capital, é uma aldeia crescida com uma economia semi-rural. Antes de ser transformada em ruínas por esta crise, abrigava pouco mais de 20 mil pessoas.

Entre 1990 e 1992, a luta por esse território custou cerca de mil vidas e causou grande amargura, mas o conflito foi resolvido. Durante a década de 1990, ossetos e georgianos se entenderam, apesar das diferenças. Eles tinham um comércio animado no mercado da aldeia de Ergneti: agricultores georgianos vendiam seus produtos, os ossetos descarregavam petróleo, cigarros e artigos de consumo - tudo sem impostos.

As divisões aumentaram novamente depois que Saakashvili fechou Ergneti em 2004, dizendo que prejudicava o Estado da Geórgia, enquanto Moscou começou a distribuir a cidadania russa para os ossetos. Um novo conflito de baixa intensidade começou, em que diversos relacionamentos se mantinham durante o dia, mas à noite os franco-atiradores começavam a atirar uns contra os outros. Um amigo osseto me disse que, apenas uma semana antes da guerra, trabalhadores georgianos de Gori faziam trabalhos de reforma na casa de sua irmã em Tskhinvali.

Hoje, Tskhinvali está em ruínas por causa da artilharia georgiana, Gori foi saqueada por soldados russos e irregulares ossetos e as aldeias georgianas da Ossétia do Sul estão vazias e queimadas. Alguns dos aldeões que costumavam negociar teriam sido varridos na onda de violência e participado dos saques e chacinas de seus antigos vizinhos.

Não culpo os ossetos e os georgianos locais por isso - pelo menos não totalmente. Se coubesse a eles, provavelmente teriam conseguido evitar o conflito. Mas o neoimperialismo russo e o nacionalismo georgiano tiveram uma participação perigosa. Se Vladimir Putin estava ávido para reeditar as reações agressivas dos czares e dos sovietes, Saakashvili ainda era muito o herdeiro do que Andrei Sakharov chamou de complexo de "pequeno império" da Geórgia - seu desejo nacionalista de assimilar as minorias. Tanto Moscou quanto Tbilisi exploraram as inseguranças em campo e eventualmente forçaram os moradores além dos limites.

Quando os canhões começaram a disparar, os habitantes da Ossétia do Sul foram apanhados em uma armadilha de "matar ou morrer". Sua infelicidade é viver em uma região que não teve uma arquitetura de segurança adequada desde o fim da União Soviética e que recomeçou em 1991 do ponto em que havia parado em 1921, quando os bolcheviques a conquistaram. As nações do sul do Cáucaso da Geórgia, Armênia e Azerbaijão ainda são as "terras intermediárias", presas em uma área cuja localização entre os mares Cáspio e Negro tem importância estratégica para o mundo em geral, mas onde a Rússia é a única potência que investiu profundamente na política local.

Na visão de mundo russa, seu papel no Cáucaso foi conquistado com sangue, desde que a Geórgia se uniu voluntariamente ao império russo em 1801. Em contraste, os ocidentais que intermitentemente expressam um interesse são considerados diletantes. Na última era de turbilhão no Cáucaso, entre 1915 e 1921 - que foi muito mais sangrenta do que qualquer coisa da era moderna -, as potências européias correram para o sul do Cáucaso, depois lentamente o entregaram.

A revolução "cor-de-rosa" de 2003 na Geórgia trouxe novos entusiastas, especialmente de Washington, que viram o país como um novo modelo de Estado pós-soviético que desafiava a Rússia. Eles se deslumbraram com seu crescimento econômico. Em um discurso extravagante na Praça da Liberdade em Tbilisi em 2005, George W. Bush chamou a Geórgia de "farol da democracia". Mas, nas palavras do analista político Ivlian Khaindrava, Saakashvili tem um "governo de dia", para mostrar a visitantes ocidentais como Bush ou John McCain, e um "governo da noite" liderado por homens como o ministro do Interior Vano Merabishvili, que ordenou o ataque com bombas de gás aos manifestantes em Tbilisi em novembro passado. Foi a turma da noite que assumiu a luta com os russos por causa da Ossétia do Sul e ordenou o ataque em 7 de agosto.

A questão da ampliação da Otan tornou o jogo de xadrez ainda mais perigoso. Essa crise começou a esquentar depois da cúpula da Otan em Bucareste em abril, quando Putin considerou a perspectiva de a Geórgia e a Ucrânia aderirem à aliança militar ocidental, uma "ameaça direta" à Rússia. O comunicado final disse que os dois países "serão membros da Otan", mas não lhes deu uma rota direta para a participação. Essa foi a dica para os dois lados reforçarem seu jogo de blefe. Se a Rússia é culpada de disputar jogos de poder do século 19, também o são os políticos que empurraram a Geórgia depressa demais na direção da Otan.

Se algo bom surgir desse conflito, é que o Cáucaso e suas complexidades poderão começar a atrair o interesse por si mesmos, e não apenas como parte de uma disputa maior com a Rússia. Essa crise poderá, na verdade, marcar o limite do poder russo no Cáucaso. O Estado georgiano sobreviveu, com a importante exceção da Abkhasia e da Ossétia do Sul - mas elas estavam basicamente perdidas de qualquer maneira. Armênia e Azerbaijão, que estão politicamente mais próximos da Rússia, devem ter tremido e prometido se tornar menos dependentes do poder russo. A crise georgiana que começou em Avnevi é um lembrete de como uma pequena briga em terras de fronteira frágeis como os Bálcãs ou o Cáucaso podem detonar uma crise internacional. Serão necessários anos para recolher os pedaços.

*Thomas de Waal é autor do livro "Black Garden: Armenia and Azerbaijan Through War" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos