Por que os herdeiros de Hamlet são felizes?

Sally Laird

Eu moro na Dinamarca, o país mais feliz do mundo. Neste verão, a Universidade de Michigan publicou os resultados da sua Pesquisa de Valores Mundiais, e lá estávamos nós, mais uma vez no topo da liga da felicidade. Vários estudos recentes chegaram ao mesmo resultado: em 2006 a Dinamarca foi a primeira colocada entre os 178 países do Mapa da Felicidade elaborado pela Universidade de Leicester. E ela foi novamente a primeira no Banco de Dados Holandês da Felicidade Mundial, em 2005, e ficou no topo em todas as pesquisas Eurobarometer nos últimos 30 anos.

Qual é o segredo da satisfação dos dinamarqueses? "Fria, sombria, monótona Dinamarca", foi como dois atônitos norte-americanos descreveram o lugar no telejornal ABC News, acrescentando que trata-se de um país no qual "os estóicos moradores usam sapatos de design utilitário e comem sanduíches de sardinha". Os dinamarqueses pagam os impostos mais elevados do mundo (entre 42% e 68%), desfrutam de poucas horas de sol, apresentam um índice de divórcio maior do que o da maioria dos outros países europeus, têm uma longevidade que encontra-se apenas na média européia e bebem mais do que o limite saudável. Então, o que está se passando?

Em 2006, pesquisadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Sul da Dinamarca examinaram uma gama de possíveis fatores, como os genes, a prática do ciclismo e a culinária. Em um agradável relatório, eles ofereceram duas explicações: os dinamarqueses jamais perderam a alegria resultante da conquista do campeonato europeu de futebol em 1992 (o grau de felicidade atingiu níveis inéditos naquele ano, e desde então permaneceu no mesmo patamar), e - a principal descoberta - os dinamarqueses, ao contrário dos pessimistas gregos e italianos, têm expectativas muito baixas em relação ao futuro imediato.

"Ano após ano, eles têm uma surpresa agradável ao descobrirem que nem tudo está ficando mais podre no Estado da Dinamarca". De forma algo mais solene, Karen Jespersen e Ralf Pittelkow - autores do livro "Os Felizes Dinamarqueses", de 2005 - identificam a chave do bem-estar no igualitarismo, no espírito público e na coesão que caracterizam aquela que eles chamam de "a sociedade da confiança elevada". Dois terços dos dinamarqueses dizem que podem confiar na maioria dos cidadãos do país - comparados a 30% no Reino Unido e a apenas 3% no Brasil. E, surpreendentemente, 84% afirmam ter certeza de que os políticos, os funcionários públicos, o judiciário e a polícia atuam com correção.

A conseqüente disposição em pagar altos impostos é recompensada, e reforçada, pelos eficientes serviços públicos e generoso atendimento aos doentes e desempregados. Mesmo assim, vários vizinhos dos dinamarqueses contam com as mesmas vantagens, mas apresentam valores mais baixos nas escalas de felicidade. Então, tanto o estado de espírito quanto as circunstâncias são sem dúvida um fator determinante, e aqui nós recorremos novamente à explicação dos nossos pesquisadores: baixas expectativas. Os dinamarqueses, embora dispostos a admitir que estão "contentes" ou "muito contentes" no presente, aparentemente demonstram uma cautela excepcional quando se trata de afirmar que tal felicidade será duradoura.

Será que isto não passa de um sinal de pessimismo não declarado, ou de um reconhecimento sadio de que o futuro é imprevisível? De qualquer forma, um corolário disso pode ser o fato de os dinamarqueses terem mais disposição do que outros povos para desfrutar dos pequenos e tangíveis prazeres presentes da vida.

Avessos à pressa, os dinamarqueses são bons quando se trata de fazer uma pausa para marcar, por meio de algum pequeno ritual, até mesmo o mais trivial acontecimento do dia. Os dinamarqueses não "devoram" os sanduíches de sardinha. Eles sentam-se à mesa, montam cuidadosamente os sanduíches (alcaparras, gema de ovo, cebola picada, conservas), abrem um guardanapo e pegam uma faca e um garfo, e talvez até mesmo acendam uma vela. A seguir, enchem um copo de schnapps e dizem "skal".

Em nenhum outro lugar esta cerimonialidade é mais evidente do que nos ritos de comemorações das datas que pontilham o calendário dinamarquês: porque, ao contrário da imagem azeda que fazem deles, os dinamarqueses têm uma grande capacidade de conviver com os outros. E essas comemorações lembram um padrão de vida mais antigo, com um foco no cíclico e no comunal, e não no linear e no individual. Em um típico aniversário de 60 anos do qual participamos recentemente, os anfitriões começaram o jantar "costurando juntos" todos os que estavam na sala, apresentando todos nós aos outros convidados e recordando aventuras compartilhadas. Eles fizeram com que cada um de nós sentisse-se significativo, parte de uma narrativa conjunta que era também uma narrativa do nosso tempo, da nossa geração. Às vezes a comemoração é elaborada explicitamente para marcar a passagem de todo um grupo para um novo estágio da vida, como quando os alunos terminam o segundo grau. Aqui, também, a ênfase encontra-se na experiência compartilhada, e não na realização individual. Assim que as provas (em sua maioria orais) terminam, as notas são distribuídas e o "chapéu de estudante" (um boné em estilo naval) é fornecido a todos os alunos, cada turma aluga uma caminhonete decorada festivamente e dirige pela cidade visitando a casa de cada colega.

Mais tarde os alunos participam de uma cerimônia formal de despedida na escola, e a seguir dirigem-se a uma série de festas realizadas na casa de cada um. Eles trocam presentes, poemas e cartões. Duas amigas da minha irmã disseram que aquela foi a semana mais feliz da vida delas. Enfim, tudo isso é bem diferente daquela minha experiência solitária na formatura do segundo grau, que consistiu em abrir um envelope marrom em agosto.

Na década passada, isso começou a mudar. Até agora, a Dinamarca não se saiu especialmente bem no que diz respeito a integrar-se aos "novos dinamarqueses", e o problema em torno das charges de Maomé são apenas o exemplo mais espetacular disso. Uma quantidade excessiva de imigrantes continua desempregada, restrita a guetos e alienada nas bordas da sociedade dinamarquesa. Para que a Dinamarca mantenha a sua imagem de coesão, ela precisará encontrar novas e criativas formas de atrair os estrangeiros. Mas será uma pena se, no decorrer desse processo, o país perder os seus próprios valores: entre outras coisas, o entendimento de que a felicidade depende em parte de prestar atenção nas coisas positivas e prezar os amigos.

Sally Laird é escritora e tradutora UOL

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