A Alemanha pós-Schröder não sabe se escolhe a Rússia ou o Ocidente

Hans Kundnani

Após deixar o cargo em novembro de 2005, o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder decidiu não fazer comentários sobre o governo da sua sucessora, Angela Merkel. Ele tem evitado sobremaneira criticar a política externa de Merkel - até porque o seu ex-chefe de gabinete, Frank-Walter Steinmeier, é agora ministro das Relações Exteriores da coalizão que governa a Alemanha. No entanto, após o início do conflito no Cáucaso em agosto, Schröder rompeu o silêncio para criticar a Geórgia, os Estados Unidos, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - na verdade, todo mundo, exceto a Rússia.

Em uma entrevista à revista "Der Spiegel", ele deixou claro que vê a Geórgia como o país agressor, disse que não há por que temer uma nova Guerra Fria e rejeitou a idéia de que a União Européia deva interromper as conversações a respeito de uma parceria estratégica com a Rússia. Surpreendentemente, ele chegou até a recusar-se a pedir à Rússia que se retirasse da Geórgia. Ao final de agosto de 2008, um dia após a Rússia ter reconhecido a independência das regiões separatistas da Abkhazia e da Ossétia do Sul, eu estive com Schröder no escritório dele no quarto andar do prédio do Bundestag, que fica de frente para a Embaixada da Rússia em Unter den Linden, em Berlim. Com as costas voltadas para a janela, de forma que a bandeira russa podia ser vista tremulando sobre a sua cabeça, ele reiterou a sua fúria devido às ações do Ocidente, mas não fez crítica alguma à Rússia.

"A Alemanha está fazendo aquilo que está ao seu alcance para salvar o que pode ser salvo, mas eu me preocupo com a forma descuidada como a Otan está descartando a sua parceria estratégica com a Rússia", afirmou ele, enquanto fumava um charuto Cohiba. Schröder acredita ter feito um grande progresso como chanceler no sentido de construir uma relação estreita com a Rússia - quase o equivalente à reconciliação histórica entre a Alemanha Ocidental e a França sob o governo de Konrad Adenauer. Esta relação está sendo agora minada por Merkel, que, mais do que Steinmeier, tem criticado a Rússia publicamente.

Mesmo quando era chanceler, Schröder, cujo pai foi morto combatendo o Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial, tinha uma postura abertamente pró-Rússia. Ele desenvolveu uma relação amigável com Vladimir Putin, que foi descrito por Schröder como "um democrata impecável" quando maquiava os acontecimentos da guerra na Chechenia e a supressão dos direitos políticos na Rússia.

Apenas duas semanas antes da eleição alemã em setembro de 2005, Schröder e Putin assinaram um acordo para a construção de um gasoduto no Mar Báltico que iria da Rússia à Alemanha, contornando a Polônia. Em dezembro de 2005 - pouco antes de deixar a chancelaria - , ele tornou-se o presidente do conselho diretor da Nord Stream, o consórcio criado para a construção do gasoduto, e que é controlado pela Gazprom, a empresa russa do setor energético. Pouco dias após o encontro com Schröder, eu ouvi o ex-ministro das Relações Exteriores, Joschka Fischer, no escritório dele em uma casa de Grunewald, um subúrbio de Berlim. A visão de Fischer em relação à Rússia é mais complexa do que a de Schröder. Embora concorde com Schröder que o Ocidente cometeu erros ao não definir o papel da Rússia em uma Europa pós-Guerra Fria, e não veja o presidente georgiano Mikhail Saakashvili como um "parceiro sério", Fischer critica igualmente a agressão russa.

Ele alerta para a reemergência de uma Grossmachtpolitik (política de grande potência) russa: "É completamente inaceitável que a Rússia corrija as suas fronteiras à força", afirmou Fischer. "A Europa jamais pode permitir que isto aconteça. É neste ponto que há uma grande diferença entre mim e o meu ex-chefe". Isto ressalta as profundas diferenças entre os dois homens. Embora tenham atuado de forma notável como figuras-chaves da coalizão "vermelho-verde" (1998-2005), na verdade eles encontram-se em lados opostos nos debates a respeito da história alemã que dividem os intelectuais do país desde a década de 1960.

Embora os dois tenham basicamente concordado em relação às três principais crises externas que enfrentaram quando estavam no governo - Kosovo, Afeganistão e Iraque -, eles apresentaram justificativas bem diferentes para as suas respectivas posições, e utilizaram retóricas em nada semelhantes. Em outras palavras, eles encarnam duas visões muito diferentes a respeito do papel mundial da Alemanha no século 21. Acima de tudo, Fischer e Schröder diferem quanto à atitude em relação ao Ocidente. Fischer é um "atlanticista", que durante a crise do Iraque manifestou-se contra o anti-americanismo, e, posteriormente, fez tudo o que estava ao seu alcance para reparar as relações teuto-americanas. Já Schröder, deu declarações famosas sobre um Deutscher Weg - um contraste deliberado com o "estilo norte-americano" -, e pareceu ver na ruptura com os Estados Unidos uma oportunidade histórica.

Nas suas memórias, publicadas no ano em que deixou o cargo, Schröder escreveu que a Alemanha cometeria um erro crasso "abrisse mão das recém-conquistadas liberdade de política externa e independência" em relação aos Estados Unidos. Quando eu mencionei que ele não parecia arrepender-se do distanciamento entre os dois países, Schröder concordou. "Não há nada quanto a que me arrepender", afirmou ele sem rodeios.

Quanto ao futuro daquilo que os alemães chamam de Westbindung, Schröder afirmou que isto é um fato consumado - mesmo após a invasão do Iraque -, e que, portanto, não precisa mais ser afirmado. "Se você considera determinada coisa totalmente natural, não sentirá necessidade de enfatizar constantemente que é a favor ou contrário a esta coisa", disse ele. "Ninguém pergunta aos franceses ou aos britânicos se eles são parte do Ocidente. Por que eles perguntam a nós?". A razão óbvia para isso, conforme eu disse a ele, é o fato de a Alemanha ter uma história diferente daquela da França ou do Reino Unido. "Sim, é claro", respondeu Schröder. "Mas nós temos que superar essa parte da nossa história". Fischer não tem muito tempo para este tipo de coisa. "Agora você vê com o que eu tive que lidar", afirmou ele com um sorriso. "Eu o mantive na linha".

Ao mesmo tempo, ele rejeita a idéia de que a visão de Schröder reflete um afastamento mais acentuado da Alemanha em relação ao Ocidente. Segundo as pesquisas de opinião, os alemães estão divididos quanto à política da Rússia no Cáucaso. "Não confunda Schröder com a Alemanha", afirma Fischer. "Na prática, a Alemanha não é mais pró-Rússia do que o Reino Unido. Aliás, onde estão todos os oligarcas e o dinheiro deles?".

Mas isso não responde à questão sobre o que poderia acontecer se, no futuro, um chanceler schröderiano e pró-Rússia - talvez alguém como Steinmeier, que será o candidato social-democrata na eleição geral do ano que vem -, não tiver ao seu lado uma figura pró-ocidental como Fischer para "mantê-lo na linha". UOL

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