Preenchendo a lacuna religiosa

James Crabtree

O ano de 2004 marcou o ponto mais baixo no relacionamento estremecido entre liberais e religiosos. O candidato democrata John Kerry, um católico, soava desajeitado ao falar sobre sua fé, e chegou perto de lhe ser negada a comunhão por apoiar o aborto. Sua derrota confirmou o poder dos mais de 50 milhões de evangélicos americanos, quase um quarto da população adulta.

Freqüentadores regulares de igreja votam em número esmagador a favor dos republicanos, assim como mais de três quartos dos chamados "eleitores de valores" (aqueles que dizem que os "valores morais" pesam mais na escolha de um candidato). George W. Bush ficou com a mesma proporção de evangélicos e mais da metade dos católicos. Freqüentar a igreja se tornou um dos indicadores mais confiáveis da intenção de voto. "Muitos liberais descobriram Deus nas pesquisas de boca-de-urna após as eleições de 2004", notou o comentarista E.J. Dionne.

A política sempre dividiu as tradições religiosas americanas. Antes da Segunda Guerra Mundial, os católicos votavam quase que exclusivamente em democratas, enquanto a corrente principal protestante (anglicana) tendia a ser republicana. Hoje os católicos, que com 24% dos americanos são a maior denominação do país, se dividem igualmente. Assim como os protestantes não-evangélicos.

Raça também é um fator: os protestantes afro-americanos, incluindo os evangélicos, são fortemente democratas, assim como os eleitores judeus. Mas foi a migração em massa dos protestantes evangélicos brancos do Sul do campo democrata para o republicano nos anos 70 que tornou os evangélicos o grupo religioso mais importante e influente nos Estados Unidos. O estrategista republicano Karl Rove rapidamente reconheceu a importância deles e passou a estudar seus movimentos. Ele determinou que cerca de 19 milhões deles deveriam votar em republicanos, mas que apenas 15 milhões votavam. Os republicanos há muito cultivavam laços com a direita religiosa, mas antes de 2004 eles fizeram esforços sem precedentes para conquistar esses 4 milhões perdidos. Os eleitores evangélicos passaram a ser soldados de infantaria do Partido Republicano.

Mas depois de 2004, esses laços estreitos começaram a ficar estremecidos. A popularidade do presidente Bush despencou, caindo abaixo de 30% à medida que a Guerra no Iraque deteriorava. Líderes religiosos se queixaram de que Bush não cumpriu suas promessas, especialmente a de coibir o aborto.

Além disso, os próprios líderes evangélicos passaram a parecer manchados pelo poder. O ex-diretor da Coalizão Cristã, Ralph Reed, viu suas aspirações políticas ruírem pelos laços com o lobista republicano que caiu em desgraça, Jack Abramoff. Ted Haggard, chefe da influente Associação Nacional dos Evangélicos, renunciou após um grande escândalo envolvendo prostituição gay e metanfetaminas. Jerry Falwell faleceu. Muitas das mais celebradas organizações da direita cristã - a Maioria Moral, a Coalizão Cristã, o Conselho de Pesquisa da Família e a Mantenedores da Promessa- foram reduzidas em tamanho e influência.

O verdadeiro início da direita religiosa ocorreu quando ativistas republicanos nos anos 70, ao perceberem que os evangélicos brancos estavam prontos para desertar, saíram à procura de convertidos. Na eleição de 2008, os democratas estão aprendendo o mesmo. Isso foi ajudado pela facilidade pessoal de Obama em falar sobre sua fé. Seus livros narram em detalhes sua conversão, enquanto seus discursos contêm referências às Escrituras.

A sede da campanha de Obama fica no 11º andar de um arranha-céu comum no centro de Chicago. Sua equipe de engajamento religioso fica sentada em um canto decorado com cartazes coloridos que variam de "Batistas por Barack" a "Católicos pela Mudança". Essa meia dúzia de cabos eleitorais - associados a outras equipes por todo o país - coordenam as tentativas cada vez mais sofisticadas da campanha de trabalhar com grupos como o Fé na Vida Pública, e convencer eleitores religiosos em igrejas como a do pastor Dick Warren.

Os cabos eleitorais recrutam ativamente os líderes religiosos, que por sua vez dizem aos seus fiéis que as políticas democratas para atendimento de saúde ou justiça social estão de acordo com suas crenças religiosas. E a campanha mantém um fluxo constante de histórias religiosas para a mídia e os blogueiros religiosos.

Será que a combinação da tática de engajamento democrata e de evangélicos mais interessados pode fazer a diferença na eleição? Dan Nejfelt, um conselheiro da Fé na Vida Pública, acha que as atividades de grupos como o dele já estão sendo sentidas.

Ele apontou para a recente convenção republicana em Saint Paul, onde tanto Sarah Palin quanto Rudy Giuliani zombaram da formação de Obama como organizador comunitário. "Nós sabemos a partir de nosso trabalho que a organização comunitária baseada na congregação está no coração do que as igrejas fazem", disse Nejfelt. "Então nós enviamos imediatamente um e-mail para nosso pessoal e encontramos figuras religiosas dispostas a falar para a mídia a respeito de como isso era um insulto às pessoas de fé." Nejfelt argumenta que este tipo de esforço teve sucesso em promover um tom mais progressista na cobertura pela imprensa da religião na campanha.

Mas apesar da quantidade de cobertura da mídia poder apontar em uma direção, as pesquisas mostram até aqui que poucos evangélicos ou católicos estão mudando de posição. Algumas mostram uma queda no entusiasmo pelos republicanos. Mas aqueles insatisfeitos com o Partido Republicano tendem a se tornar independentes, não democratas. De forma preocupante para Obama, Celinda Lake, uma analista de pesquisa democrata, disse que os evangélicos atualmente preferem McCain na mesma proporção que apoiaram o presidente Bush em 2004. (Lake sugere que a intensidade do apoio a McCain, entretanto, é muito menor.)

Apenas uma pequena mudança no apoio desses grupos poderia fazer uma grande diferença eleitoral. Mas até aqui, quatro anos de preocupação democrata, esforço de engajamento e conversa sobre Deus mostraram poucos sinais de resultar em dividendos eleitorais. Além disso, as alegações de morte da direita religiosa devem ser tratadas com ceticismo. Organizações como a Foco na Família permanecem ricas e influentes. O torpor que tomou conta da direita evangélica no último ano se deve em parte à falta de um porta-bandeira óbvio. Muitos líderes evangélicos ficaram descontentes com a escolha de McCain. Mas esforços orquestrados nos últimos meses, incluindo a adoção de uma posição linha-dura em relação ao aborto, conquistaram convertidos. A escolha de Sarah Palin, em particular, entusiasmou os evangélicos.

A indicação dela levou James Dobson, o influente chefe da Foco na Família, a reverter sua posição de não apoiar McCain. Igualmente, o forte aumento na arrecadação de fundos de campanha por McCain após a escolha dela sugere que, apesar de longe da força que tinha, há vida na direita religiosa.

Uma outra questão vale a pena ser notada. A direita religiosa era servilmente conservadora, freqüentemente chegando até mesmo a sugerir que Deus apoiava propostas republicanas específicas, como a rejeição aos impostos sobre riqueza herdada. Mesmo se os democratas conquistarem alguns evangélicos, eles provavelmente os considerarão menos confiáveis. Isso se deve em parte à nova geração de evangélicos de inclinação progressista estar longe de ser liberal de carteirinha. A agenda deles agora inclui preocupações tradicionalmente democratas, mas poucos se tornaram pró-aborto ou pró-direitos dos gays. Seus líderes permanecem culturalmente conservadores.

Talvez mais importante, não está claro se a nova geração de evangélicos desenvolverá uma abordagem mais liberal à política social e ao papel do Estado. Os evangélicos apóiam um papel para suas próprias organizações na solução dos problemas sociais, por exemplo, por meio das iniciativas do presidente Bush baseadas em fé. Mas para a solução das muitas questões com as quais se preocupam, incluindo a mudança climática e a desigualdade econômica, o apoio dos novos líderes ao envolvimento do Estado permanece não claro.

Os evangélicos progressistas assistiram por uma geração enquanto os estrategistas republicanos manipulavam questões de fé visando ganho eleitoral. Esses grupos não desejam ver os democratas ávidos por poder fazerem o mesmo. Obama pode começar a conquistar pequenos grupos de eleitores evangélicos, mas é improvável que surja uma esquerda religiosa coesa. É mais provável que os evangélicos se transformem no voto indefinido americano. Muitos podem ter torcido para que o declínio da direita religiosa levasse a um avanço do secularismo na política americana. Na verdade, ocorre o oposto: o papel da fé na vida pública pode se tornar mais importante do que nunca.

James Crabtree é um editor colaborador da revista "Prospect" George El Khouri Andolfato

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