Que crise? Esta é uma destruição criativa

Mark Hannam

Escrevendo em 1942, Joseph Schumpeter observou que era da natureza do capitalismo fazer progresso por meio de "destruição criativa". Ocorreu muita destruição no setor financeiro ao longo do último ano: dos preços dos ativos, de bancos e da confiança. Ainda não é amplamente reconhecido que isto faz parte de um processo criativo, mas há um bom motivo para pensar que é.

Os preços dos ativos estavam sobrevalorizados, os bancos mal administrados e a confiança eram, na verdade, complacência disfarçada. O momento era propício para uma mutação Schumpeteriana.

Aqueles que estavam incomodados com o sucesso do setor de serviços financeiros durante seus bons anos agora estão - previsivelmente - celebrando sua morte. Eles dizem que os eventos do último ano mostraram que sabiam a verdade o tempo todo: que os mercados financeiros precisam ser mais regulados e sujeitos a um maior controle político.

Mas o fato de uma ação governamental substancial ter sido necessária para mitigar as conseqüências econômicas do atual terremoto financeiro não prova que os mercados financeiros devem ser mais regulados, nem que o capitalismo tenha fracassado. Problemas sistêmicos surgem nos mercados financeiros apesar da maioria dos participantes se comportarem de forma responsável.

Os problemas que vemos hoje não são apenas sinais de fracasso; eles também são sinais de progresso. Se o capitalismo fosse mais bem entendido - como um sistema econômico que faz progresso tanto por meio da inovação quanto do fracasso - poderia ser reconhecido que a ação do governo em tempos de crise é necessária apenas para assegurar que o processo de destruição criativa recomece mais cedo e não mais tarde.

A questão mais interessante que surge das mutações atuais não é "quem é o culpado?", mas "o que podemos aprender?" A resposta nos leva ao assunto do empréstimo subprime (de risco) - que é o fornecimento de crédito para aqueles que normalmente ficam excluídos da comunidade financeira.

A causa mais próxima de nossos problemas financeiros atuais é o fato de que grandes quantidades de dinheiro foram emprestadas a pessoas pobres nos Estados Unidos que só tinham uma chance realista de quitar suas dívidas: se o valor de seus lares, que serviam de garantia para os empréstimos, continuasse subindo indefinidamente. O que devemos aprender com isso? As respostas rápidas - dependendo dos preconceitos políticos da pessoa - são estes: culpe os pobres por terem aspirações além de seu status e os sucessivos governos americanos que encorajaram um aumento da propriedade de imóveis, especialmente entre as comunidades de minorias; ou culpe os bancos e corretores hipotecários que ofereceram crédito barato sem a devida consideração com a qualidade de sua garantia - e sem a devida consideração pelos riscos de longo prazo enfrentados pelos tomadores de empréstimo.

Mas não há motivo para as pessoas que sofrem de exclusão financeira terem o acesso ao crédito negado, já que a evidência mostra que costumam ser os pagadores mais confiáveis. Onde está a evidência? Está na Ásia, na África e na América do Sul. Está no Leste Europeu, no Oriente Médio e nas grandes cidades dos Estados Unidos e da Europa. Está em toda parte onde as técnicas de microcrédito foram usadas para fornecer aos indivíduos, os trabalhadores autônomos e pequenas empresas, acesso a um crédito que os bancos normais não forneciam.

Há muitas pessoas que sabem como administrar um negócio de empréstimo subprime com sucesso. A chave é oferecer os tomadores de empréstimo produtos flexíveis que levem em consideração seus padrões de renda irregulares e sua incapacidade de reduzir seus padrões de gastos ao longo do ano. Esta abordagem pode ser aplicada a grandes compras como imóveis; a chave é assegurar que o produto de empréstimo seja adequado.

O tempo gasto face a face entre o mutuante e mutuário é crucial para estabelecer as necessidades do segundo e a quantidade de crédito que pode realisticamente pagar. O empréstimo subprime é como um banco privado, mas para os pobres.

Antes da atual crise nem todos os mutuantes foram predadores e nem todos os mutuários foram idiotas. Mas alguns empréstimos foram imprudentes e outros foram fraudulentos. Alguns investidores correram riscos que não entendiam. Muito poucos estavam dispostos a aprender com as evidências dos projetos de microcrédito bem-sucedidos em todo o mundo; então agora teremos todos que aprender com as evidências de nossos erros.

Nós devemos nos lembrar do discernimento de Schumpeter, de que os enormes benefícios da inovação de produto e crescimento econômico ocorrem ao custo de surtos periódicos de fracasso do mercado. Nós devemos nos recordar que podemos aprender com estes fracassos: a qualidade da tomada de decisão dos grandes bancos será muito melhor nos próximos cinco anos do que nos últimos cinco anos.

Finalmente devemos nos recordar que os empréstimos subprime em si não são o problema. Fornecer crédito aos financeiramente excluídos é realizado atualmente de forma responsável e com sucesso em muitas partes do mundo. Com cerca da metade da população mundial ainda excluída do sistema, é mais importante do que nunca que os bancos aprendam a fazer isso corretamente.

Mark Hannam é presidente da Fair Finance, uma empresa de microfinanciamento George El Khouri Andolfato

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