Missão implausível

MIchael Soussan

Eu acordei suando frio. Eu costumava pensar que Hollywood exagerava nas cenas pós-pesadelos. Isso foi antes de começar a trabalhar para a maior, mais incoerente e, por fim, mais corrupta operação humanitária da história da ONU. Foi no dia 28 de abril de 2004.

Em meu pesadelo, eu me dirigia a um pódio em uma sala ampla revestida de madeira na qual homens grisalhos usando ternos cinza estavam sentados em um semicírculo, como uma corte de anciãos. O sonho não era inteiramente absurdo. Na vida real, eu deveria testemunhar diante do Comitê de Relações Internacionais do Congresso americano naquela manhã. E deveria falar sobre o escândalo do programa "Alimento por Petróleo", da ONU.

O que tornou este sonho um pesadelo não foi a perspectiva de falar para um público de legisladores escandalizados. Eu não estava sendo levado até eles para ser julgado; fui convidado porque tinha denunciado certos aspectos da fraude. Estava suando por querer dizer algo útil sobre um assunto que confundiu gerações de diplomatas e acadêmicos desde a criação da ONU, em 1945. No sonho, quando eu cheguei ao pódio e abri meus papéis, descobri que tinha apenas um ponto: "A reforma da ONU".

Foi aí que eu acordei.

Criado em 1995 e em operação até 2003, o programa de petróleo por alimentos foi formulado para permitir que Saddam Hussein vendesse petróleo desde que a renda obtida fosse usada para as necessidades humanitárias do povo iraquiano, o que seria garantido pela ONU. Como coordenador do programa, eu era responsável por caçar informações de nove agências da ONU para os relatórios trimestrais do secretário-geral ao Conselho de Segurança.

Infelizmente, nós relutávamos em delatar qualquer fraude pelo regime iraquiano, mesmo quando estava diante de nós. Uma das razões era porque temíamos que o programa, que era a única linha de vida para o povo iraquiano da época, fosse interrompido. Outra, eu acredito, foi que nosso pessoal local no Iraque se sentia intimidado pelo regime de Saddam. O resultado final, entretanto, foi desastroso. Apesar do envolvimento da ONU, vários bilhões de dólares desapareceram enquanto o dinheiro da venda de petróleo era desviado de forma fraudulenta. O petróleo era vendido mais barato para políticos, negociantes e outras figuras estrangeiras influentes, que então o revendiam com lucro instantâneo. As empresas que vendiam bens para o Iraque sob o programa tinham instrução de rechear os contratos e pagar comissões para Saddam e seus colegas.

Nem tínhamos certeza quanto dinheiro estava faltando -as estimativas vão de US$ 1,3 bilhão até US$ 20 bilhões (entre R$ 2,6 bilhões e R$ 40 bilhões). No total, cerca de 2.300 empresas internacionais participaram da fraude e centenas de políticos de alto nível, diplomatas e grandes empresários da Austrália a Moscou. O povo iraquiano tinha sido roubado de uma grande parte do dinheiro que tínhamos garantido que seria para seu bem-estar.

"Opa" era a palavra operacional.

O escândalo do programa Alimento por Petróleo veio à luz quando o jornal iraquiano "Al Mada" (a madrugada) publicou a lista secreta que Saddam Hussein usava para controlar seus agentes corruptos, no dia 25 de janeiro de 2004. Esse documento foi um dos muitos encontrados após a invasão liderada pelos EUA em 2003. Em alguma parte da estrada, nossa missão de "supervisão" virou "negligência".

Quando eu entrei para a ONU, com 24 anos, sabia que a instituição tinha falhas. Mas eu também acreditava que poderia ser reformada, desde que as pessoas tivessem disposição de mudar e, acima de tudo, assumir a responsabilidade por suas ações.

No entanto, na manhã do meu testemunho, meu pesadelo me forçou a admitir uma questão incômoda. Será que a ONU é uma instituição capaz de reforma? No passado, esforços repetidos empacaram.

O escândalo que levou os congressistas a pedirem que "cabeças rolassem" na ONU teve menos a ver com o fato da corrupção em si do que com a falta de disposição da comunidade internacional de admitir que tinha ocorrido. E essa relutância nasceu da realização que ninguém se importava suficientemente com o bem-estar dos civis iraquianos para confrontar a corrupção crescente.

Eu me perguntava: seria o desafio realmente reformar ONU? Ou talvez fosse mais produtivo reformar nossas expectativas em relação a ela?

Franklin Roosevelt cunhou o termo "Nações Unidas" em 1942 e, depois da Segunda Guerra mundial, os EUA procuraram dar nova vida à idéia de uma organização mundial dedicada à preservação da paz. A aliança de guerra foi então transformada em uma instituição permanente -mas expandida para incluir todos os Estados independentes. Sua ambição era ser mais eficaz do que a Liga das Nações, que tinha desbotado e se tornado irrelevante diante da agressão fascista dos anos 30, e o Conserto da Europa, que seguiu as guerras napoleônicas devastadoras.

O Concerto, a Liga e a ONU eram intelectualmente enraizados na visão de Immanuel Kant, expressada em seu ensaio de 1795, "Paz Perpétua". A visão de Kant era um sistema internacional no qual Estados independentes, democráticos e responsáveis uniam-se e aderiam às regras para uma resolução pacífica de seus conflitos.

No entanto, em tentativas de replicar a visão de Kant em uma escala global, os criadores da Liga e da ONU se afastaram do plano original em um aspecto crucial: nos altos padrões para associação. No modelo de Kant, somente repúblicas democráticas poderiam se inscrever. Em vez disso, os arquitetos da ONU, desejando fazer um projeto verdadeiramente "universal", decidiram que qualquer nação independente deveria ser admitida, independente do estilo de governo.

Essa decisão é compreensível dado o contexto histórico. Os fundadores da ONU olharam para um mundo no qual os poderes políticos -mesmo que fossem nazistas ou poderes coloniais europeus- dominaram e algumas vezes tiranizaram os pequenos ou menos desenvolvidos. De fato, a descolonização deu à ONU sua primeira e mais bem sucedida missão. No entanto, essa política de admissão explica muitas das razões pelas quais a ONU tantas vezes não consegue cumprir seus próprios ideais.

Algumas vezes, apesar disso, os esforços de idealistas esperançosos fazem a diferença. É o caso das agências humanitárias como a Unicef ou o Programa de Alimento Mundial, que salvam vidas todos os dias. Mas essa defasagem entre a missão teórica central da ONU e sua capacidade de desempenho é problemática.

Foi isso que decidi dizer ao Congresso naquela manhã. E ao fazê-lo, fiz papel de tolo. As audiências eram, afinal, um confronto entre os críticos e os apologistas da ONU.

Terminei meu testemunho dizendo: "No final deste período, que custou um sério preço para a ONU, há uma oportunidade histórica de usar os erros e iniciar um verdadeiro debate sobre o futuro da organização e os princípios que devem guiar suas ações."

Um estranho silêncio se seguiu. Depois dos congressistas sussurrarem uns aos outros, um recesso foi convocado. Quando nos reencontramos, uma hora depois, a guerra entre os congressistas a favor e contra a ONU foi resumida. Eles não tinham perguntas para mim. Claramente, eu não tinha compreendido o ponto da reunião.

Talvez um dia o mundo esteja pronto para a aplicação global da visão de Kant, não temos desculpas hoje para fingir, ou esperar, que sua visão de paz democrática possa ser aplicada globalmente com sucesso.

Mas isso não absolve as democracias do mundo da responsabilidade de resolver seus problemas enquanto isso. O discurso de Barack Obama em Berlim exortando a necessidade de fortalecer a aliança democrática é consistente com a visão original de Kant. A escolha está entre tentar consertar uma instituição calcificada, antiquada e exageradamente ambiciosa ou começar a trabalhar em uma nova.

(O livro de Michael Soussan "Backstabbing for Beginners" será lançado este mês). Deborah Weinberg

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