O retorno de Keynes

Robert Skidelsky

Eu sempre disse que John Maynard Keynes viverá enquanto o mundo precisar dele. O que o mundo decidiu, 30 anos atrás, foi que não precisava mais de Keynes. A revolução keynesiana foi reduzida a um sistema mecânico para a estabilização de economias por meio de superávits e déficits orçamentários - mais déficits do que superávits, conforme se viu, levando às crises "estagflacionárias" da década de 1970. Segundo os teóricos, Keynes foi redundante, não tendo conseguido provar que o mundo necessita das políticas "keynesianas". O sistema de mercado se auto-corrigia automaticamente; o keynesianismo só levava à inflação.

E, a partir desse ponto de vista, os teóricos tinham razão. A única base aceitável para a teorização econômica é o pressuposto de que os seres humanos são maximizadores racionais. Sendo isto verdade, segue-se que os vários distúrbios aos quais as economias de mercado estão susceptíveis são resultado de interferências externas. Para Hayek e Friedman, a culpa residia na manipulação de reservas monetárias por parte do governo com fins populistas. Fora os economistas, ninguém acredita que a natureza humana seja aquela descrita pela economia, mas, sem o seu axioma da racionalidade, a economia não poderia existir como a ciência que ela alega ser.

A grandeza de Keynes, e, na verdade, a sua singularidade como economista, é o fato de ele ter sido mais do que um economista. Além de ser um brilhante teórico e um grande administrador, ele foi o único poeta da natureza humana na área da economia. Ele tentou colocar a sua poesia a serviço da ciência e das políticas de governo. Mas tal proposta não se adequava bem à realidade, conforme ele próprio reconheceu em parte. A parte poética e a científica da sua teoria são discordantes. Assim, a poesia foi extirpada, e, com isso, a sua ciência também veio abaixo. De acordo com os teóricos, ele nunca conseguiu demonstrar por que agentes racionais deveriam desprezar negócios que os beneficiariam. Desemprego involuntário é impossível. E, assim que a ciência de Keynes se foi, restou pouco ou nada das políticas keynesianas. Tudo o que é necessário à economia é um sistema bancário central, cujos princípios são bem anteriores à economia de Keynes.

A forma como Keynes entende a psicologia humana nos mercados tem três características, nenhuma das quais encaixa-se no paradigma dominante da economia. O primeiro é a incerteza inevitável. "O fato notável é a extrema precariedade da base de conhecimento sobre a qual as nossas estimativas de possíveis retornos precisam ser feitas", escreveu ele na sua obra-prima, "The General Theory of Employment, Interest, and Money" ("A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda"), de 1936.

Nós ocultamos esta incerteza de nosso pensamento ao assumirmos que o futuro será como o passado, que a opinião existente resume corretamente as perspectivas futuras, e ao copiarmos tudo o que os outros estão fazendo. Mas qualquer visão do futuro baseada "em uma estrutura tão frágil" está sujeita "a mudanças súbitas e violentas. A práticas da calma e da imobilidade, da certeza e da segurança, subitamente se esfacelam. Novos temores e esperanças tomarão conta, sem aviso, da conduta humana... O mercado ficará sujeito a ondas de sentimentos de otimismo e pessimismo, que não são razoáveis, mas que, de certa forma, são legítimos onde não existe uma base sólida para cálculos razoáveis". Ele via a economia como "uma dessas belas e educadas técnicas que procuram lidar com o presente abstraindo-se do fato de que nós conhecemos muito pouco sobre o futuro".

Face à incerteza, os verdadeiros motivadores do comportamento humano são muito diferentes daqueles cogitados pelos economistas. "A maior parte... das nossas decisões de fazer algo positivo... só podem ser vista como um resultado de espíritos animais... Se os espíritos animais são suprimidos... o empreendimento desvanece-se e morre", é uma das suas famosas observações. O investimento profissional, escreveu Keynes, é como "um jogo de Snap, Old Maid ou Musical Chair", no qual o objetivo é passar adiante a Old Maid - a dívida "tóxica" - para o vizinho antes que a música pare. Eis aqui a anatomia identificável da "exuberância irracional", seguida pelo pânico cegante, que tem dominado a atual crise.

O segundo aspecto é aquilo que pode ser chamado de "organicismo" de Keynes. Ele era um individualista, mas em um sentido tradicional e quase religioso - ou seja, ele via os indivíduos como partes de uma comunidade de valores. A sua unidade de análise é bem diferente do "individualismo metodológico" que permeia o pensamento econômico. A essência disto pode ser difícil de se captar de forma abstrata, mas ela pode ser ilustrada nos seus escritos freqüentes contra a idéia de fazer da folha de balanço e das análises de eficiência os únicos testes de virtude econômica. Na década de 1930 ele elogiou a sua própria cidade natal, Cambridge, como sendo um lugar onde podia-se passar uma tarde andando pelas redondezas, "conversando com amigos antigos" e fazendo compras em "lojas que são realmente lojas, e não apenas um ramo da tábua de multiplicação". Visões como estas fizeram dele o único apoiador qualificado daquilo que atualmente é chamado de globalização.

Keynes teria aprovado a operação de resgate montada pelos governos mundiais para salvar o sistema bancário global. Como patriota britânico, ele estaria orgulhoso do fato de o seu país ter assumido a liderança nesta iniciativa. Mas ele estaria preocupado com o grande elemento de incerteza quanto ao resultado. O governo precisa injetar no sistema dinheiro suficiente para compensar a "propensão a acumular" (preferência por liquidez na linguagem de Keynes), de forma a fazer com que a taxa de juros de longo prazo caia. A questão é saber o quanto é suficiente. Se for muito pouco, a tendência deflacionária e uma depressão podem não ser evitadas; se for muito, há o risco de inflação mundial. Nenhum cálculo mecânico fornecerá a resposta correta; tudo depende da confiança com que as medidas são recebidas pela população. No momento, nós simplesmente não sabemos; e nenhuma "técnica bela e educada" nos fornecerá a resposta.

Robert Skidelsky é autor do livro "John Maynard Keynes 1883-1946) UOL

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