Natureza boa, humanos ruins?

Gwyneth Lewis

Não é em todas as conferências que você consegue conviver com seus heróis. Neste verão, eu me vi em Norfolk com um grupo de "autores da natureza", apreciando campos de milho ao entardecer, procurando grou com Richard Mabey e Marc Cocker. Eles escreveram muitos livros-texto, inclusive a famosa "Britânica dos pássaros", que tenho em casa, sobre flora e fauna. Quando eles pronunciam que um pássaro é um tartaranhão, não há dúvidas. Mais tarde naquela semana, Mark usou os olhos que tem atrás da cabeça para ver um dos pássaros mais ariscos dos brejos, o socó, camuflado no meio do capim que dançava ao vento, as pessoas menos habituadas como eu levaram eras para vê-lo. Alguns poetas muito distintos nunca o localizaram.

Nós estávamos em Norwich em um simpósio de autores para discutir a oposição entre natureza e cultura. É uma tensão entre os mais antigos na literatura. Desde Homero e Virgílio até Shakespeare e Wordsworth, o relacionamento entre a ordem "natural" e a ordem "artificial" trazida pelos seres humanos tem sido uma fonte de inspiração infinita. Entretanto, esse relacionamento cada vez mais é afetado por interesses.

Já na primeira sessão da conferência, surgiram dois times. A autora de viagem americana Gretel Ehrlich fez um relato da vida junto aos esquimós, com um apelo implícito contra o aquecimento global que destrói o meio ambiente deles. Sua aparente idealização do nobre selvagem gerou protestos. O âmago da questão logo ficou claro: como os escritores podem se tornar defensores do mundo natural sem serem atraídos para a propaganda e minarem sua credibilidade? Ou, como pode um autor atual escrever de forma neutra sobre a "natureza", em um mundo onde os humanos estão alterando de tal forma a ordem natural das coisas - desde a destruição dos habitats até o aquecimento global?

Essa divisão recebeu uma plataforma proeminente com a edição de verão da revista literária "Granta", com o subtítulo "A nova forma de escrever sobre a natureza". A edição tinha como meta o que seu editor chamou de "longa viagem para a re-conexão" entre os humanos e seu meio ambiente. Também tinha a intenção de dar um passo para além da imagem dos homens com barbas e notebooks nos campos.

Entretanto, o que foi impressionante sobre essa "nova" forma de escrever a natureza foi, bem, como era antiga. Sim, uma série de matérias aplicavam os métodos de escrever sobre a história natural a ambientes urbanos e cidades. Mas, estilisticamente, ainda parecia extremamente conservador. Dado que o impulso lógico do amor pela natureza é um desejo de promover sua preservação, será que os autores temeram que um estilo menos familiar talvez precipitasse uma mudança de sensibilidade - e esta se tornasse menos preocupada com a preservação? O conservacionismo, ou seja, deixar a natureza em paz, certamente não é a única forma de proteger a natureza. A própria linguagem importa, não apenas porque é uma extensão do mundo natural, mas porque tem a capacidade de mudar a percepção social e, potencialmente, o comportamento. A nova forma de escrever sobre a natureza parecia um velho chapéu.

Como pude perceber no simpósio, a grande premissa por trás de tal forma de escrever é que a natureza é boa, e os seres humanos são ruins. É uma distinção que não sobrevive a uma análise mais profunda. Há poucos anos, ao entrar no mar em um pequeno barco, aprendi que, se não fosse muito cuidadoso, o mar me mataria. Esse padrão duplo sobre a natureza é especialmente visível em nossa atitude com nossos próprios corpos. Se você quer elogiar o mundo natural, não é lógico escolher partes das quais você gosta (campos de flores) e outras das quais não gosta (mosquitos). Um câncer é tão natural quanto um rouxinol.

Meu marido tem linfoma e minha opinião dos médicos foi transformada quando eu o levei, certa vez, para a unidade de hematologia do hospital. Um atendente bastante mal-humorado fez pouco naquela conversa educada que atualmente é considerada necessária, mas, quando meu marido tirou a camisa, iluminou-se ao ver as lesões na pele. "Ah! Herpes", disse ele calorosamente, como se estivesse saudando um velho amigo, talvez como Mark Cocker diria dizer com prazer: "Ah! um grou!"

Para mim, a obra mais importante da coleção da "Granta" foi o ensaio da poetisa Kathleen Jamie "Pathologies: a startling tour of our bodies" (Patologias: uma excursão impressionante por nossos corpos). Ela olhou para dentro do corpo, usando um microscópio e autópsias, e observou o que acontece ao corpo quando algo dá errado. Como ela comenta acidamente, a natureza não é "apenas rosas e golfinhos". Ela compreende, como muitos se esquecem, que é apenas com muita relutância que não somos rotineiramente tomados por infecções. Nós também esquecemos que, em suas origens, a medicina fazia parte dos estudos da natureza.

Ver a doença como manifestação legítima da natureza também nos dá uma forma de ultrapassar a distinção entre "eu aqui" e "a natureza ali". A poluição "por aí" pode muito bem nos levar a vivenciar o mundo como doença no futuro. A doença, portanto, talvez nos dê uma forma de lidar com as dificuldades ambientais futuras. Grande parte do problema diante da perspectiva da exterminação dos seres humanos por causa da mudança climática, tenho certeza, vem de nossa negação de nossa própria morte. Uma morte auto-infligida talvez nos dê a ilusão de ter mais controle sobre os eventos, mas, com ou sem a degradação do meio ambiente, o índice de mortalidade ainda será de 100%. Se pudermos aceitar isso, talvez coloquemos nossa energia em busca de viver bem diante de nossa própria morte. Poderíamos nos tornar naturalistas de nós mesmos.

Espanta-me que algumas das melhores coisas que eu fiz na vida foram caminhadas, que não foram registradas em nenhuma parte além do meu corpo. O artista e cartógrafo, Tim Robinson descreve uma caminhada assim em seu livro "Connemara: Listening to the Wind". Ele cruzava o Erisberg Bog e obteve uma visão sobre o mundo sem ele como observador: "Algumas vezes, eu voltava dessa caminhada com minha cabeça tão vazia que parecia que nem um único pensamento ou observação tinha passado por ela o dia todo, e eu sinto que realmente via as coisas como são quando não estou ali para vê-las". Essa é uma forma de escrever sobre a natureza, de uma ordem moral mais elevada, tanto pela autoridade do assunto quanto pelo estilo.

Gwyneth Lewis é poetisa e escritora. Deborah Weinberg

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