Os novos garotos do pedaço

Martin Walker

Para entender como a cultura em Washington está prestes a mudar, considere a teleconferência realizada por Barack Obama um dia antes da eleição. Ele falou com alguns dos afro-americanos mais próximos dele. O articulador da maioria na Câmara, Jim Clyburn, um político veterano da Carolina do Sul, era previsível, assim como a consultora política Donna Brazile, que dirigiu a campanha de Al Gore oito anos atrás. Mas também estavam lá o reverendo Joseph Lowery, 88 anos, um dos líderes do velho movimento dos direitos civis, e a primeira celebridade a apoiar Obama, Oprah Winfrey. E o último homem chamado foi Sean "Diddy" Combs, um rapper que virou empreendedor de moda. Diddy tinha acabado de dizer nos comícios Vote em Obama na Flórida: "Nós temos que fazê-lo pelas pessoas que morreram para que nós tivéssemos o direito de votar".

Lembre-se de que no primeiro encontro de Obama com sua esposa, Michelle, ele a levou para assistir "Faça a Coisa Certa" de Spike Lee. E o momento que ele disse que o deixou mais furioso na política foi quando seu adversário negro na eleição para o Senado, Alan Keyes, disse que o fato do pai de Obama ter nascido na África significava que ele não compartilhava da herança afro-americana da escravidão, naquele que se tornou conhecido como o debate "não negro o suficiente".

Obama às vezes é visto como "pós-racial", um homem de raça mista criado principalmente por brancos, que evitou as rotas convencionais dos políticos negros. Mas os negros formaram o núcleo de seu primeiro grupo de apoio em Washington. Seu primeiro evento para arrecadação de fundos em Washington foi promovido por um superadvogado negro veterano (e companheiro de golfe de Bill Clinton), Vernon Jordan. Entre outros arrecadadores de fundos estavam Eric Holder, o vice-secretário de Justiça do governo Clinton; Larry Duncan, um lobista da Lockheed Martin; e Mike Williams, vice-presidente de assuntos legislativos (que significa lobista) da Bond Market Association. Esses são nomes de peso da comunidade negra. Obama pode simbolizar uma América pós-racial, mas ele sabe o quanto deve ao apoio negro.

Isso mudará a cultura social de Washington, a única cidade americana de maioria negra. Os tradicionais setores liberais de Georgetown não mais serão o epicentro. Os preços dos imóveis residenciais cairão ainda mais nas áreas de direita como Maclean, do outro lado do rio, na Virgínia, è medida que os republicanos desconsolados perderem seus empregos de lobistas. Para um setor em ascensão, procure Gold Coast, o trecho margeado por mansões da 16th Street, lar da burguesia negra.

Esqueça a Episcopal de São João, a chamada igreja do presidente, localizada em frente à Casa Branca. Em vez dela, assista a disputa entre a Igreja Metodista Unida Fundição, a Episcopal Metodista Africana do Sião na 16th Street e a Primeira Igreja Batista de Washington pelo novo Primeiro Crente.

E esqueça os tradicionais bares do Distrito de Colúmbia, o Equinox e o Oval Room; o novo restaurante badalado será o Art and Soul, recém-inaugurado por Art Smith, de Chicago, que já foi o chef pessoal de Oprah Winfrey. Logo, nenhuma viagem turística à cidade será completa sem uma parada no venerável Ben's Chili Bowl na velha Broadway negra da U Street, onde Martin Luther King, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Bessie Smith and Miles Davis costumavam comer.

O esporte "in" será o basquete, com a lenda Michael Jordan dos Chicago Bulls como principal OB (Obama Buddy, "amigo do Obama", que é como são listados os VIPs), e partidas no estacionamento da Ala Oeste. O repórter no qual ficar atento será Clarence Page do "Chicago Tribune", não por ser negro e não por ser bom, mas porque Obama o respeita. (Page foi um dos primeiros a notar que Obama "é, de muitas formas, um conservador cultural".)

No mundo dos centros de estudos, velhos redutos conservadores como a Fundação Heritage e o Instituto Empresarial Americano provavelmente perderão proeminência. Há três lugares para ficar de olho: o Centro para o Progresso Americano, dirigido pelo ex-chefe de gabinete de Clinton, John Podesta; a venerável Instituição Brookings, com sua perícia em reforma tributária e orçamento, e o novo "centro radical", a Fundação Nova América, com algumas das melhores idéias para reforma da saúde, onde Sherle Schwenninger possui uma franquia de investimento em infra-estrutura e onde Steve Clemons produz o blog mais bem informado da cidade, o TheWashingtonnote.com.

Na televisão, será obrigatório assistir ao canal de notícias liberal "MSNBC". A "Fox News" será o lar da frente de libertação anti-Obama, onde republicanos ambiciosos lutarão para se tornar o guru político de Sarah Palin. Um emprego-chave será o de funcionário de ligação legislativo da Casa Branca, porque os democratas serão um verdadeiro incômdo. Os embaixadores britânico, francês e alemão disputarão selvagemente quem será o primeiro a obter um convite da Casa Branca para seu chefe, apesar de que a primeira viagem de Obama provavelmente será para a Ásia e África, deixando a Europa para o encontro de cúpula de aniversário da Otan, em abril de 2009.

E quanto ao próprio Obama? No Senado, ele passava apenas três noites por semana em Washington, mantendo sua família em Chicago. Ele almoçava e jantava em eventos de discussão de políticas, evitando o circuito social da cidade. Mas um endereço no noroeste de Washington onde ele será visto será a casa de Clinton, na Whitehaven Street. Afinal, foi lá que Hillary promoveu um dos primeiros eventos dele para arrecadação de fundos, em 2003.

Martin Walker é um acadêmico sênior do Centro Woodrow Wilson. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos