Trabalhadores do mundo, competi

Gerald Holtham

A maior parte das análises sobre a crise atual têm se focado nas instituições financeiras, regulações e política monetária. Apesar de esses serem aspectos importantes para a formação da crise, não são a sua raiz.

A verdade é que a economia mundial mudou sob vários aspectos que a levaram a instabilidade constante. Essas mudanças ainda não foram reconhecidas e assimiladas pelos bancos centrais e pelos políticos.

O período de 1945 até o início dos anos 70 foi de emprego total e crescimento rápido no mundo capitalista. O controle do capital continuou existindo mesmo quando o comércio de bens e serviços foi liberalizado. O comércio internacional cresceu rapidamente. Havia a confiança plena de que, usando ferramentas fiscais e monetárias, o governo poderia assegurar o emprego total para que a Grande Depressão não se repetisse.

O sistema Bretton Woods determinava que as taxas de câmbio de seus membros deveriam ser fixadas a certos parâmetros atrelados ao dólar (que por sua vez era atrelado ao ouro) e podiam oscilar apenas dentro de uma faixa estreita em torno desses parâmetros.

Mas o Bretton Woods não era apropriado para lidar com os choques que reduziam a renda nacional. Os choques do petróleo nos anos 70 tiveram exatamente esse efeito, desencadeando uma batalha para decidir se os lucros ou os salários deveriam arcar com o prejuízo, o que normalmente acabava numa espiral salarial. A recessão foi necessária para restaurar a disciplina salarial.

Essa experiência levou a uma mudança na visão dominante sobre como administrar a economia. Aceitava-se cada vez mais que existia uma determinada taxa de desemprego consistente com a inflação estável, e que a economia voltaria automaticamente à taxa "natural" se a política se concentrasse na inflação.

Em geral, os bancos centrais continuaram a agir como se ainda estivéssemos no início dos anos 80. Para eles, seu papel era controlar a inflação e deixar que a economia se auto-regulasse. A maioria das recessões do pós-guerra foi desencadeada pela inflação e pela resposta política resultante. Mas depois dos anos 80, a maior parte das recessões, como a dos EUA e do Japão no começo dos anos 90, foi causada por outro mecanismo, para o qual os governos e bancos centrais estavam cegos.

Quando os governos aboliram o controle sobre o câmbio nos anos 80, isso permitiu que o capital fluísse livremente para onde pudesse encontrar os maiores lucros. Isso enfraqueceu o trabalho em relação ao capital, uma mudança que se refletiu na diferença proporcional entre lucros e salários. De 1945 a 1980, a fatia do PIB relativa aos salários havia ou permanecido estável, em países como os Estados Unidos, ou aumentado em outros, como a Grã-Bretanha. Agora, ela caiu em quase todo o mundo e a fatia dos lucros aumentou.

O Japão foi o primeiro a mostrar para onde isso podia levar. Nos anos 80 a economia japonesa cresceu 4% ao ano em termos reais e sua fatia de lucros chegou a atingir 40% em comparação aos 20% ou menos no Ocidente. Enquanto os preços dos ativos aumentavam, não havia inflação e o Banco do Japão não tinha problemas. Em 1990, o mercado de ações quebrou, a atividade e os preços começaram a cair. A queda dos preços - deflação - aumentou o peso das dívidas, dando início a uma recessão persistente.

Aqui está o problema central do sistema globalizado. Se os lucros e a produção aumentam persistentemente mais rápido do que os salários, quem comprará a produção? A falta de demanda efetiva, em termos Keynesianos, pode ser ignorada por algum tempo, mas eventualmente se revela como um problema de "realização do capital", na linguagem dos marxistas.

E foi o que aconteceu. Em 2000, o excesso de investimentos se tornou evidente e o mercado de ações caiu, entrando num declínio de três anos. Diferentemente do Japão, entretanto, os EUA passaram apenas por uma recessão moderada e de vida curta. Nada desastroso parecia ter acontecido.

Depois do estouro da bolha das ponto-com, os EUA pareciam ter chegado a um ponto de contração. O excesso de produção significava que as companhias dos EUA não continuariam a investir como nos anos 90. A Ásia estava apertando o cinto e crescendo por conta de guardar dinheiro e exportar. Os consumidores do Ocidente não estavam ganhando o suficiente para comprar o excedente. Mas se pudessem ser induzidos a emprestar dinheiro, eles poderiam comprar os bens que de outra forma não poderiam pagar. O crescimento poderia continuar. No século 19, ninguém teria considerado emprestar dinheiro com tanta facilidade para que os trabalhadores pudessem manter a demanda; eles não teriam sido considerados dignos de crédito. Mas hoje os trabalhadores normalmente têm bens, sendo a casa o bem mais importante.

Por várias razões, os preços das casas aumentaram durante meio século em muitas economias, principalmente nos países de língua inglesa onde a casa própria é uma importante aspiração individual e política.
Quando as taxas de juros foram cortadas para atenuar e recessão de 2000-2001, desencadeou-se um boom de empréstimos para incentivar a compra de casas em muitos países. Como os preços das casas estavam aumentando, o orçamento dos lares parecia estar perfeitamente bem: as dívidas estavam aumentando, mas o valor dos bens também.

Eventualmente esse processo chegou a um limite. Os mais endividados tiveram de vender ou ter suas hipotecas executadas. Os preços escorregaram.

O problema por trás da economia mundial é a falta de demanda, causada pelo fato de os lucros terem ultrapassado os salários num mundo com excesso de mão-de-obra.

É fácil culpar os bancos centrais ocidentais por terem praticado uma política sem regulações depois de 2002, mas esquecemos que havia um medo generalizado de deflação - um medo que poderia ter se concretizado se os empréstimos aos consumidores não tivessem salvado a situação. Agora está claro que nós não vivemos num mundo em que o único propósito dos bancos centrais é evitar a espiral de salários e preços no país. Eles têm de prestar atenção no preço dos bens.

Acordos internacionais de regulação financeira e taxas de capital também são urgentemente necessários. Se o capital estiver livre para procurar a mão-de-obra mais barata ao redor do mundo, ele não deveria ter liberdade para buscar subsídios de impostos, induzindo a uma corrida por impostos mais baixos sobre o capital. Os governos devem transferir a maior parte dos impostos para o capital, para atenuar os efeitos de um aumento da fatia do lucro.

O capitalismo é o único sistema que pode produzir um crescimento sustentável dos padrões de vida. Para preservá-lo de uma forma que ofereça estabilidade e esperança para os pobres do mundo é necessária a intervenção estatal. Isso também significa recriar o hábito de cooperação entre Estados que existia no terceiro trimestre do século 20. A outra opção são as crises recorrentes que levam a distúrbios políticos e econômicos.

(Gerald Holtham é ex-diretor do Instituto de Pesquisa de Política Pública) Eloise De Vylder

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