Elite ensanguentada de Mumbai

James Crabtree

Blocos de apartamentos elegantes surgem altos acima dos jardins de Malabar Hill, o distrito mais exclusivo no Sul de Mumbai. A área avança para a baía, como o polegar de uma mão buscando o mar, como se tentasse manter a distância do corpo para trás. Os preços das propriedades aqui podem ser comparados aos do centro de Manhattan. Quando a poluição permite, os moradores olham para o Leste pela Back Bay e veem o dedo do centro da cidade fervilhando. Poucos lugares teriam dado uma visão melhor da fumaça subindo dos hotéis Trident Oberoi e do Taj.

Os ataques que começaram no dia 26 de novembro, nos quais 188 pessoas morreram, chocaram a Índia. Entretanto, diferentemente dos eventos de 11 de setembro de 2001, aos quais foram prontamente comparados, não foram um choque totalmente inesperado. A Índia está acostumada com a violência. O mesmo grupo por trás dessa devastação, Lashkar-e-Toiba, bombardeou Nova Déli em 2005. No ano seguinte, 209 moradores de Mumbai morreram quando sete explosões rasgaram seu sistema de trens urbanos.

É verdade que os ataques mais recentes foram mais públicos e prolongados. Os cercos, tiroteios e reféns descendo pelas calhas tiveram uma qualidade cinematográfica adequada para a cidade que abriga Bollywood. A novidade, contudo, foi a escolha das vitimas. A tragédia na Índia usualmente atinge os pobres, seja por bombardeios, conflitos ou pela simples brutalidade da vida diária. Desta vez, contudo, os atiradores atacaram membros da nova e próspera elite da Índia, muitos dos quais morreram no piso do hotel Taj.

Ao escolherem Mumbai, os radicais islâmicos pegaram o ícone da "ascensão da Índia" - uma derivada subcontinental do sonho americano. Este novo mito nacional fala de um país escapando da autarquia e do socialismo para se tornar uma superpotência. Seus proponentes pensam que a Índia logo vai superar a China, movida pela língua inglesa, PhDs e alta tecnologia. Um dia talvez. Os ataques de novembro, contudo, revelaram muitos buracos nesta visão esperançosao. Eles também desencavaram uma insegurança profunda da elite com a possibilidade do crescimento recente da Índia ser facilmente revertido.

O desdobramento dos ataques revelou como é fino esse verniz de confiança. A principio, as pessoas se reuniram diante dos hotéis incendiados, aplaudindo os policiais exaustos enquanto marchas de casamento continuavam pelas ruas. Para o cerco de 60 horas, todos se uniram. Mas esta solidariedade desapareceu antes do último atirador ser removido. O foco da mídia voltou-se rapidamente para a polícia mal equipada, com rifles Lee Enfield enferrujados e capacetes de plástico, tomando terroristas com rifles de assalto de alta velocidade. Subitamente, todos notaram que as unidades tinham aparecido para salvar o Taj em frotas de ônibus escolares dilapidados. O major Sandeep Unnikishnan, que liderava as tropas de elite NSG, primeiramente não conseguiu estabelecer um perímetro e depois foi atingido e morto na rua, enquanto dirigia seus homens. A operação "tornado negro" parecia os "Keystone Cops". Logo uma sensação de raiva e de vergonha surgiu diante da capacidade do Estado de deixar as coisas se arrastarem.

Na realidade, a história de renascimento nacional do governo sempre foi parte do mito. O crescimento impressionante e uma democracia vibrante não podem esconder uma economia afligida pela corrupção endêmica e um setor empresarial que, fora da indústria de serviços de alta tecnologia, continua absurdamente amarrado pela burocracia. A infra-estrutura do país é uma desordem, como disse o economista Meghnad Desai: "Quando você vai para a China, vê novos aeroportos e o metrô maglev de Xangai. Na Índia, os aeroportos são favelas."

Enquanto isso, os preços dos imóveis em Mumbai, de fazer chorar, são explicados pelos regulamentos tolos para desestimular a construção e a reforma, degradando os imóveis e inflando os preços.

Em momentos mais sombrios, a elite reclama que esse edifício pouco brilhante logo poderá cair. Sua insegurança vem de serem relativamente poucos. Os proponentes da "ascensão da Índia" falam de uma classe média crescente, enquanto consultores da McKinsey prevêem que a classe média indiana superará toda a UE até 2025. Hoje, entretanto, os números oficiais sugerem apenas cerca de 60 milhões podem ser assim classificados. Essa é uma classe média de apenas 5% - cerca da mesma fração que fala inglês- comparada a cerca da metade dos americanos.

Abaixo desse minúsculo pico de privilégio está mais pobreza do que em toda a África. Dharavi, a favela famosa do centro de Mumbai, abriga cerca de um milhão de almas, empilhadas em uma área pouco maior do que o Regent's Park, em Londres. Entretanto, os 12 milhões de favelados de Mumbai não são a classe mais inferior. Os verdadeiramente pobres incluem meio milhão de sem teto.

Diante de desigualdades tão extremas, é fácil entender por que uma elite mimada e isolada pode temer as "massas" e se preocupar com a possibilidade de colapso social. Há paralelos históricos. A violência das massas era comum na Inglaterra do século 18, movida por brigas por salários, minorias, impostos ou vergonhas da guerra. A elite de Londres acovardou-se em suas salas de estar durante os "conflitos Gordon", em 1780, enquanto prisões eram queimadas, casas aristocratas, pilhadas, e o Banco da Inglaterra e a Câmara dos Comuns, assaltados. O Parlamento não caiu. Mas a camada superior teve uma experiência psicologicamente traumatizante.

O mesmo não poderia acontecer na Índia moderna? Tentador, mas não. A Londres georgiana era uma aldeia comparada com Mumbai moderna, com 25 milhões de habitantes a menos. Durante os anos 70, a massa fervilhante da Índia chegou perto de engolir seus poucos afortunados. Mas, apesar dos marxistas rurais e maoístas nepaleses causarem inquietação social, poucos acreditam na possibilidade de revolução em cidades como Mumbai.

A diferença mais gritante é política. Na Europa antiga, as elites controlavam o Estado; elas temiam que as massas pudessem chutá-las para fora. Na Índia, os pobres assumiram o poder; são cidadãos ativos, votando em amplos números. A elite antiga há muito se desengajou. Diz-se que Malabar Hill tem o índice eleitoral mais baixo da Índia. Em vez disso, coloca suas energias na "tradicional" influência de clubes e de redes de contatos.

A nova elite, contudo, de seres urbanos ricos que moram em locais como Bandra, subúrbio da moda de Mumbai, é igualmente apática. Liz Mermin, diretora de "Shot in Bombay", um filme sobre Bollywood, diz: "Todos acham que o país está com grandes problemas, mas nenhum dos sujeitos inteligentes e cheios de argumento da mídia com quem conversei foi votar. A única pessoa que conheci que o fez foi a empregada de meu amigo". A antiga elite da Índia prefere o "bridge" à urna, mas a nova geração também acha que a política é desprezível.

No Ocidente, a vida burguesa precedeu a democracia. Na Índia, a democracia veio antes da classe média. E é por isso que o descontentamento da brigada de Bandra pós-ataques importa. Seu problema não é com os muçulmanos ou com o Paquistão. Culpam a própria Índia, especialmente seus líderes políticos irresolutos. Mensagens eletrônicas escandalizadas, textos e grupos no Facebook com manchetes de "basta" sugeriram que um pequeno despertar político é possível.

A elite da Índia há muito se vê como uma ilha cosmopolita, globalizada, mas distante de sua nação. Tendo sido atacados, os ricos talvez tenham causa para pensar de novo. A ascensão do país com certeza vai empacar se seus mais inteligentes e melhores continuarem afastados do governo; o Estado precisa da ajuda deles, não de seu desprezo. Talvez um novo sentido de responsabilidade nacional surja em meio aos destroços e carnificina de Mumbai. Os ricos da Índia, afinal, compreenderam que não são intocáveis.

James Crabtree é editor da Prospect.

Tradução: Deborah Weinberg

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