Soa bem

Philip Collins

O aspecto menos compreendido da boa retórica é que muito mais é dito além das palavras. Todo orador dá um tom particular ao seu material, e é tão impossível evitar isso quanto desafiar a gravidade. Tony Blair encontrou a leveza sem tentar. Gordon Brown é incapaz de falhar ao transmitir solenidade, mesmo quando sorri. E Barack Obama tem, para usar um de seus próprios termos, um vento de moralidade nas costas.

É banal, porque é muito óbvio, concluir que as palavras de Obama pertencem a uma tradição de retórica clássica. Assim como qualquer um que fale usando sentenças completas. Hazel Blears [política britânica], num discurso em setembro de 2008, fez uso exemplar da anáfora: a repetição das palavras essenciais de um parágrafo. Mas não é falta de mérito de Blears ter conseguido apenas uma fração do poder que Martin Luther King Jr. atingiu usando a mesma técnica em seu discurso "Eu tenho um sonho". A intolerância racial é um assunto forte. É difícil conseguir o mesmo efeito com a reforma do governo local.

Os preceitos da retórica clássica nos ajudam a ver como o truque funciona. Mas a competência técnica é a única coisa que a genialidade tem em comum com a mediocridade. Ela não explica porque Obama, mesmo antes de assumir o poder em 20 de janeiro, já começou a se igualar aos grandes oradores políticos do século passado: Winston Churchill, John F. Kennedy, King e Vaclav Havel.

A retórica de Obama é raramente floreada. No papel, ela não tem nem mesmo um colorido especial. As passagens de menos sucesso, na verdade, são aquelas em que a prosa se torna elaborada. No discurso de vitória em novembro, por exemplo, Obama sugeriu que todos deveriam "colocar as mãos sobre o arco da história e curvá-lo mais uma vez em direção à esperança de um dia melhor". A melhor coisa a dizer sobre isso é que você sabe do que ele está falando.

Mas, em seus melhores momentos, Obama combina uma forma poética de expressão com uma compressão poética de significado, enquanto raramente se desvia da linguagem comum. Seus discursos tomam asas, mas o vôo vem tanto do ritmo das sentenças quanto da elevação da linguagem.

Um discurso de Obama é na verdade como uma música pop. A letra não traz um grande mistério. Mas, com a melodia certa, um significado que mal parecia estar escondido na prosa é revelado. Nenhum escritor poderia dar esse senso musical a Hillary Clinton. Mas ele está sempre presente na maneira em que Obama enfatiza a palavra mais importante de cada sentença. É possível entender o assunto apenas ouvindo as palavras que ele sublinha verbalmente. Isso também está presente quando ele deixa uma consoante escorregar, para estender o som e segurar a sentença. Isso é mais parecido com pregar, que, por sua vez, é parecido com cantar. Will.i.Am, vocalista do The Black Eyed Peas, provou esse ponto ao transformar em música o discurso de Obama durante as primárias em New Hampshire. Nenhuma tradução foi necessária entre os dois formatos.

O poder sedutor de sua voz significa que o texto ocasionalmente desajeitado de Obama escapa da avaliação crítica apropriada. O discurso de New Hampshire foi a primeira manifestação do refrão repetitivo "sim, nós podemos". Se um dos Milibands dissesse isso - eles dirão, eles dirão - nós riríamos da inocência, e desprezaríamos o clichê. David Lammy fez alguns bons discursos ultimamente, mas sua tentativa de ser equiparado a Obama não sobreviverá à ridicularização por parte da cínica cultura política da Inglaterra. Ou então, pegue outro bordão de Obama: é de fato uma audácia ter esperança? Isso de fato significa alguma coisa? Não muito mais do que se fosse invertida: a esperança de audácia. Obama está além da crítica, por enquanto.

Estamos julgando o pensador aqui, e não a ideia, e ele está temporariamente dispensado de críticas. Até agora, o objeto desse elogio poderia ter sido Bill Clinton. Mas Obama é duas vezes melhor do que Clinton, porque ele está preparado para confrontar argumentos difíceis. Aristóteles foi o primeiro, apesar de Cícero ter deixado o assunto mais claro, a apontar que nenhuma habilidade com palavras é capaz de mascarar a ausência de um ponto de vista sério. Clinton tinha uma facilidade invejável com as palavras, mas com frequência tinha pouco a dizer. Ele podia deixar assuntos sérios em silêncio, enquanto às vezes usava sua eloquência para tratar de trivialidades. Por outro lado, mesmo durante seu exultante discurso de vitória, Obama se esforçou para expor argumentos reais. Ele definiu os problemas que terá de enfrentar: duas guerras, um planeta em risco, a pior crise financeira do século.

O truque mais confiante em discursos públicos, um que seria bom Gordon Brown copiar, é fazer argumentos opostos reconhecíveis por quem os defende. A generosidade na argumentação dá peso às denúncias, uma vez que a boa retórica nunca faz crítica direta.

O discurso agora famoso de Obama na convenção democrata de 2004 é um exemplo ilustrativo. Ele reconhece as opiniões divergentes e as envergonha através da aceitação. É um discurso habilidoso, e vale citar um trecho: "Não existe uma América negra e uma América branca e uma América latina e uma América asiática; o que existe são os Estados Unidos da América. Os estudiosos gostam de dividir nosso país em Estados vermelhos e Estados azuis: vermelhos para os Republicanos, azuis para os Democratas. Mas também tenho uma notícia para eles. Nós cultuamos um Deus maravilhoso nos Estados azuis, e não gostamos de agentes federais revistando nossas bibliotecas nos Estados vermelhos. Nós treinamos as crianças nos esportes nos Estados azuis e, sim, temos alguns amigos gays nos Estados vermelhos".

Mas o melhor exemplo dessa coragem intelectual aconteceu num discurso em abril quando ele confrontou a possibilidade crescente de que o reverendo Jeremiah Wright pudesse prejudicar sua campanha presidencial. O mais óbvio a ser feito era colocar-se acima do assunto imediato, falar com indignação moral sobre a injustiça social e cortejar comparações deliberadas com Martin Luther King Jr. Ao recusar-se a tomar esse rumo óbvio, ao acolher Wright e reconhecer os nomes feios usados por sua própria avó, Obama mostrou que uma grande habilidade como escritor é inútil a menos que você tenha uma grande coragem enquanto orador.

Aquele discurso foi importante porque o assunto era importante. Barack Obama é um homem negro que estava concorrendo à presidência dos Estados Unidos da América. Esse fato extraordinário significa que ele pode ser eloquente sem fugir. Se o assunto for tão relevante quanto esse, não é preciso implorar para causar efeito.

Este, também, é um preceito clássico. Aristóteles disse que a boa retórica tem três componentes: logos, ethos e pathos. No caso de Obama, o pathos do momento é irresistível. Wilfred Owen expôs bem isso: a poesia, disse ele, está num estado lastimável. Um bom escritor tem, com certeza, o comando da linguagem. Só isso já é um dom. Mas no momento em que ele fala pelos outros, é uma herança.

(Phillip Collins foi redator de discursos para Tony Blair. Agora ele escreve para o Times de Londres).

Tradução: Eloise de Vylder

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